Amor Não Paga Contas: A Desvalorização dos Professores no Brasil e o Discurso do “Ensinar por Vocação”

“Quem quer dar aula faz isso por gosto, e não pelo salário. Se quer ganhar melhor, pede demissão e vai para o ensino privado.”
— Cid Gomes, governador do Ceará em 2011


Introdução: Quando o Amor é Usado Como Desculpa

A frase acima, proferida por um representante eleito, reflete uma mentalidade perigosa e injusta: a de que professores devem trabalhar apenas pela “vocação” e aceitar a precariedade como parte natural de sua missão.
Mas será que isso é justo? Será que amor substitui condições de trabalho, saúde, dignidade e salário?

A educação é a base de qualquer sociedade desenvolvida. Sem professores, não há médicos, engenheiros, jornalistas, cientistas, nem governadores.
E, ainda assim, no Brasil, os professores continuam entre os profissionais mais desvalorizados, mal remunerados e sobrecarregados.

Este artigo busca descontruir esse discurso, mostrando dados, evidências internacionais e depoimentos que revelam a realidade de quem carrega o futuro do país nos ombros.


O Cenário da Educação no Brasil: Um Panorama Alarmante

Segundo dados do IBGE (PNAD Contínua), profissionais da educação recebem, em média, R$ 2.200 por mês — valor inferior ao de diversas outras áreas que exigem menor escolaridade.
(Fonte: Pesquisa 365 / IBGE)

No Ceará, estado governado por Cid Gomes, o salário médio de professores gira em torno de R$ 2.496,07, segundo levantamento da Catho/Valor Investe.
(Fonte: Valor Investe)

Isso significa que muitos professores precisam dar aulas em duas ou três escolas diferentes, acumulando mais de 60 horas semanais de trabalho, para sobreviver.
O resultado? Esgotamento físico e mental, aumento de afastamentos por depressão e síndrome de burnout, e queda na qualidade de ensino.


Comparação Internacional: O Brasil na Contramão

De acordo com o relatório Education at a Glance 2025 da OCDE, o salário de professores brasileiros do ensino fundamental II é de cerca de US$ 23.018 por ano.
Enquanto isso, a média da OCDE é de US$ 43.058 anuais para a mesma função.
(Fonte: OCDE)

Ou seja, o professor brasileiro ganha praticamente a metade do que ganha seu colega em países desenvolvidos.
E quando olhamos para o investimento por aluno, a distância é ainda maior:

  • Brasil: US$ 3.748 por aluno/ano
  • OCDE: US$ 10.101 por aluno/ano
    (Fonte: Inep/MEC)

Esses números revelam que a desigualdade não está apenas no bolso do professor, mas também nas condições de aprendizagem dos estudantes.


Infraestrutura Precária e Jornada Massacrante

O estudo Estatísticas dos Professores no Brasil, divulgado pelo Inep, mostra que uma grande parcela das escolas não possui biblioteca, laboratório de ciências ou de informática.
(Fonte: Inep/MEC)

Isso significa que, além de mal remunerados, professores precisam improvisar recursos para ministrar suas aulas.
E mais: o excesso de turmas, aliado a turmas superlotadas, torna quase impossível oferecer atenção individualizada aos alunos.

A jornada, muitas vezes superior a 60 horas semanais, somada ao deslocamento entre escolas, leva ao esgotamento crônico.
Pesquisas apontam que professores são uma das categorias com maior índice de afastamento por transtornos mentais.


O Mito da Vocação: Um Discurso que Esconde a Desvalorização

“Vocação” é frequentemente usada como justificativa para precarizar a profissão.
É claro que a maioria dos professores tem paixão pelo que faz. Mas paixão não substitui:

  • Aluguel
  • Supermercado
  • Transporte
  • Plano de saúde
  • Educação dos filhos

Esse discurso, na prática, serve para culpabilizar o professor e eximir o Estado de sua responsabilidade em oferecer condições dignas.

Imagine se disséssemos a um médico: “Você deve operar por amor à vida, não por salário”.
Ou a um engenheiro: “Construa prédios por gosto, não por dinheiro”.
Seria ridículo, não? Mas com professores, esse raciocínio se repete há décadas.


Dados em Gráficos e Tabelas

Comparação Salarial Brasil vs OCDE

País / BlocoSalário Anual Médio (Ensino Fundamental II)
BrasilUS$ 23.018
Média OCDEUS$ 43.058
AlemanhaUS$ 56.000+
ChileUS$ 30.000

Fonte: OCDE, 2025


Professor em sala de aula

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