
A sala de aula, que deveria ser o templo do saber, tem se transformado em um campo de resistência. Resistência dos professores que, mesmo diante de salários defasados, estruturas precárias e desprezo governamental, continuam lutando para que o ensino público não desabe de vez. O problema é que o silêncio do Estado já não é apenas incômodo — ele é ensurdecedor.
A indiferença institucionalizada
Os cortes orçamentários em educação têm se tornado rotina nas esferas federal, estadual e municipal. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), o investimento público direto por aluno da educação básica caiu cerca de 10% em termos reais entre 2014 e 2023. Essa redução impacta diretamente em infraestrutura, formação continuada e qualidade pedagógica.

Enquanto isso, escolas públicas continuam enfrentando falta de materiais básicos, laboratórios sucateados e ambientes insalubres. O professor, por sua vez, torna-se uma espécie de “herói forçado”, compelido a ensinar sem recursos e a suportar o peso da negligência estatal.
Professores: os esquecidos de sempre
O Censo Escolar 2023, divulgado pelo INEP, aponta que mais de 45% dos professores da rede pública têm dois ou mais vínculos empregatícios para complementar a renda. Essa sobrecarga tem consequências graves: esgotamento físico e mental, queda de desempenho e afastamentos cada vez mais frequentes por síndrome de burnout.
De acordo com dados da Fiocruz, 65% dos professores brasileiros relatam sintomas de ansiedade e exaustão emocional. A precarização do trabalho docente não é apenas uma questão profissional — é uma crise humanitária disfarçada de normalidade.
A falácia do discurso político
É comum ver campanhas eleitorais recheadas de promessas sobre “valorização da educação”. No entanto, a prática revela outra realidade: governantes tratam a pauta educacional como moeda de troca. Enquanto escolas se deterioram, o orçamento público é desviado para gastos supérfluos, cargos comissionados e benefícios a elites políticas.
“Educação é prioridade”, dizem eles. Mas prioridade que não recebe investimento, na prática, é apenas retórica vazia.
Segundo o relatório Education at a Glance 2024 – OCDE, o Brasil investe menos da metade por aluno em comparação à média dos países desenvolvidos. Ainda assim, discursos triunfalistas tentam convencer a sociedade de que há progresso — quando, na verdade, há abandono disfarçado de gestão.
O impacto do silêncio
Esse silêncio institucional mata sonhos. Crianças de periferias continuam sem acesso a ensino de qualidade. Jovens desmotivados abandonam a escola para sustentar suas famílias. Professores desistem da profissão. A indiferença política cria uma espiral de exclusão e perpetua desigualdades que se arrastam há gerações.
A Unesco alerta que o Brasil corre o risco de não cumprir as metas do Plano Nacional de Educação (PNE) até 2030, especialmente nas áreas de valorização docente e universalização do ensino médio.
Educação como resistência
Apesar de tudo, o magistério brasileiro resiste. Resistir, nesse contexto, não é apenas ensinar — é denunciar, insistir, permanecer. São os professores que, com recursos próprios, compram materiais, organizam atividades e mantêm viva a esperança em meio ao caos.
Mas não há romantização possível: nenhuma vocação sobrevive indefinidamente à negligência.
Amor pelo ensino não paga contas, não garante dignidade e não substitui políticas públicas.
O que poderia ser feito
- Revisão urgente do piso salarial nacional com base na inflação e custo de vida regional.
- Políticas permanentes de saúde mental para docentes e servidores da educação.
- Auditoria e transparência no uso do Fundeb, com controle social efetivo.
- Programas de formação continuada integrados às universidades públicas.
- Investimento prioritário em infraestrutura escolar nas periferias urbanas e zonas rurais.
Essas ações não exigem milagres — apenas vontade política real.
O custo do descaso
Enquanto o Estado silencia, o preço é pago por toda a sociedade. A evasão escolar aumenta, a violência juvenil cresce e o desenvolvimento econômico estagna. Educação pública abandonada é sinônimo de país condenado à repetência social.
Não se trata apenas de investir em escolas — é investir em futuro.
E o futuro, ao contrário do que dizem os discursos, não se constrói com silêncio.
📚 Fontes consultadas:
- INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
- Fiocruz – Saúde Mental de Professores
- OCDE – Education at a Glance 2024
- Unesco – Relatórios sobre Educação no Brasil
- Agência Brasil – Situação da Educação Pública
- CNN Brasil – Salas de Aula Precárias
✊ Leia também o próximo artigo da série:
👉 A Política do Desgaste: Como o Sistema Quebra o Professor Para Economizar na Educação