“Se queremos educação de qualidade, precisamos primeiro cuidar de quem ensina. Sem isso, tudo será discurso vazio.”
Introdução
Enquanto a sociedade exige desempenho, bons resultados em provas, tecnologia nas salas de aula, zero reprovações, educação integral e pensamento crítico, quem está dia após dia frente a esse desafio é o professor. Ele ou ela se desdobra entre turmas, falta de infraestrutura, salários que mal cobrem despesas básicas, contratos precários, pressão política, cobrança de produtividade — tudo isso em uma profissão que, idealmente, exige estabilidade, reconhecimento e condições dignas de trabalho.
No entanto, quando olhamos para as ações de nossos governantes — governos federal, estaduais, municipais — notamos que muitas promessas, discursos e leis ficam no papel ou são mal aplicadas. Quem deveria estar fortalecendo o professor continua, muitas vezes, tratando-o como custo dispensável, salário a ser reduzido, direito a ser relativizado. E é nessa lacuna entre o que se fala e o que se faz que reside um dos maiores escândalos da política educacional brasileira.
Este artigo busca responder: quem educa o educador? Quem garante sua dignidade, quem sustenta sua estabilidade, quem protege seus direitos — são os que legislam, que governam, prometem e depois recuam. E é urgente que essa pergunta encontre resposta concreta, porque o futuro de milhões de estudantes depende dela.
O Educador em Números: Realidade Hoje
Para entender o abismo entre discurso e prática, é preciso atravessar dados recentes e olhar para quem realmente está na sala de aula e sob quais condições.
Perfil e qualificação
- De acordo com o Conheça o Perfil dos Professores Brasileiros do Inep, com base no Censo Escolar 2020 e no Censo da Educação Superior 2019: a maioria dos professores está na educação básica, com 63% atuando no ensino fundamental.
- Ainda nesse perfil, entre os professores dos anos iniciais do fundamental, 85,3% têm nível superior completo — o que indica elevado investimento pessoal em formação.
- A participação em formação continuada também cresceu: de 33,3% em 2016 para 39,9% em 2020. A pós-graduação foi de 34,6% para 43,4%.
Esses números mostram um educador que busca preparo, qualificação — mas isso por muitas vezes à custa de sua própria estabilidade, sacrifícios pessoais e expectativas frustradas.
Quantidade de professores, matrículas e relação aluno-professor
- No Censo Escolar de 2024, há 2.367.777 professores no Brasil, em escolas públicas e privadas.
- A matrícula da educação básica é de 47,1 milhões de alunos, número abaixo do que era antes da pandemia (em 2019, – 47,9 milhões).
- A proporção médio de alunos por docente diminuiu consideravelmente: em 2007, um professor chefiava cerca de 28 alunos; agora a média nacional é – 20 alunos por docente.
Embora esse número (“alunos por docente”) pareça algo de progresso, ele não reflete as desigualdades regionais, o tamanho das turmas em zonas periféricas ou rurais, nem o esforço extra que muitos professores fazem por fora da sala de aula (revisão, planejamento, apoio a alunos com dificuldades etc.).
Contratos, estabilidade e precarização
- Em redes estaduais, os concursos e cargos efetivos têm diminuído fortemente. Em 2013, havia cerca de 505 mil professores concursados nas escolas estaduais, correspondendo a 68,4% do total dessas redes. Em 2023, esse número caiu para 321 mil, ou 46,5% do total.
- Em 2023, professores contratados temporariamente (sem estabilidade) são maioria em redes estaduais: ~51,6% dos docentes estaduais têm contrato temporário.
- Na comparação rede estadual vs municipal vs federal: escolas estaduais têm cerca de 49% de professores temporários; nas redes municipais, os dados variam, mas há percentuais elevados também.
Satisfação, condições de trabalho e infraestrutura
- Pesquisa Talis 2024: no Brasil, menos de 1 em cada 4 professores (22%) está satisfeito com o salário que recebe. A média da OCDE é bem superior.
- Também pela Talis, considerando “condições de trabalho” (benefícios, carga horária, recursos etc.), apenas ~44% dos professores brasileiros consideram essas condições satisfatórias. A média da OCDE para esse índice é muito mais alta.
- Sobre infraestrutura escolar (dados do estudo Estatísticas dos Professores no Brasil, Inep): aproximadamente 45% dos professores trabalham em escolas públicas que não têm biblioteca; 74% em escolas sem laboratório de informática; cerca de 80% sem laboratório de ciências.
Discurso Político: O Que é Prometido, Mas O Que Realmente Acontece
Governantes de todos os níveis — federal, estadual, municipal — fazem do reconhecimento do professor um bordão em discursos políticos. Algumas promessas ou decretos: valorização salarial, melhoria de infraestrutura, estabilidade, concursos públicos, modernização da educação, educação integral, lei do piso, etc.
Vamos olhar para algumas das promessas e confrontá-las com a prática.
A Promessa do Piso Nacional
- Em 2022, houve um reajuste anunciado para o piso nacional da educação básica. No entanto, tal reajuste não afetou todos os professores, especialmente os federais, que continuavam com os salários congelados.
- Em 2023, houve novo reajuste do piso para redes estaduais e municipais, com dificuldades de repasse integral em muitos municípios. Muitas redes ainda não cumprem integralmente o piso, levam tempo para adaptar orçamentos. (Fontes diversas de reportagens, afirmando descumprimento em algumas regiões).
A Promessa dos Concursos e Estabilidade
- Governos frequentemente anunciam concursos públicos para professores, mas os dados apontam que o número de professores concursados decresceu nas redes estaduais em dez anos. Isso contrasta com falas de gestores públicos que afirmam valorizar a carreira docente e promover estabilidade.
- A estabilidade docente, no discurso, é vendida como essencial para garantir qualidade, continuidade, liberdade pedagógica — mas políticas de contratação temporária, substituições, contratos precários, reduzem esse componente institucional.
A Promessa de Infraestrutura e Recursos
- Fala-se muito em modernização: tecnologia, salas de informática, laboratórios, bibliotecas, conectividade digital.
- Em prática, como mostram pesquisas, muitos professores ainda lecionam sem bibliotecas, sem laboratório de informática, sem laboratório de ciências, em escolas com estrutura precária de salas, mobiliário degradado, quadros sem condições, falta de segurança, transporte precário.
O Discurso da Valorização Salarial
- Discursos, decretos, promessas de reajustes, bônus, gratificações aparecem com certa frequência. Mas será que esses reajustes acompanham inflação, custo de vida, responsabilidade, jornada extra, estresse, desgaste físico e emocional?
- Em muitos casos, professores reclamam que os reajustes são insuficientes, chegam atrasados ou não contemplam todos — retroativos que não são pagos, amortizações pendentes, categoria sacrificada.
O Que o Educador Tem para Perder
O professor não luta por privilégios; luta por condições mínimas que lhe permitam exercer sua função com dignidade. O que está em jogo vai além de salário ou estabilidade: envolve saúde mental, vida familiar, segurança, ética profissional, compromisso com o aluno e com a sociedade.
Consequências da precarização
- Desvinculação emocional e abandono profissional
Professores que não têm segurança, que sentem que serão substituídos a qualquer momento ou que seu trabalho é pouco reconhecido, tendem a desistir, migrar para redes privadas, para cursinhos, ou até abandonarem a carreira. - Esgotamento físico, psicológico
Horas extras, acúmulo de funções, falta de suporte — isso leva ao burnout, ansiedade, depressão. O medo constante de perder o contrato ou a vaga gera estresse adicional. - Queda de qualidade na aprendizagem
Estabilidade, continuidade, professores que conhecem suas turmas, seus alunos, as comunidades — tudo isso se perde com contratos temporários e alta rotatividade. Quando um professor sai, outro entra, alunos perdem vínculo, progresso pedagógico muitas vezes é interrompido. - Desigualdade acentuada
Em zonas rurais ou periferias, onde a infraestrutura já é precária, a falta de recursos, transporte, acesso à internet, material didático adequado agrava ainda mais a disparidade. O professor nessas regiões sofre duplo peso: falta de apoio institucional + alta necessidade social. - Desvalorização social e simbólica
Quando se pergunta “quem educa o educador?”, a resposta popular muitas vezes é rasa, neutra ou até pejorativa: professor é visto como “gasto”, “preguiçoso”, “muito folga”. Esses estigmas se alimentam quando a prática política não demonstra o valor real do magistério.
Exemplos Concretos: Onde o Discurso Falha
- Redes estaduais: queda no número de concursados, aumento de temporários — fala-se em valorização e estabilidade, mas a realidade mostra fragilidade contratual.
- Salários insuficientes: apesar de ajustes de piso, muitos professores continuam abaixo da linha de dignidade financeira — especialmente aqueles em pre-escolas, rede municipal, ou em municípios menos favorecidos. Estudo da IBRE-FGV indicou que professores da pré-escola chegam a ganhar ~R$ 2.200/mês, valor muito próximo ao dos salários mais baixos do país.
- Estrutura escolar precária: porcentagens altas de escolas sem biblioteca, sem laboratórios, sem equipamentos básicos demonstram que promessas de “modernização” e “qualidade educacional” permanecem muito pouco mais que retórica em muitos casos.
- Satisfação docente: enquanto discursos exaltam o magistério, o índice de professores satisfeitos com salário e condições de trabalho é baixíssimo. Dados recentes (Talis 2024) mostram apenas ~22% satisfeitos com salários; ~44% com condições de trabalho.
A Classe Política: Promessas, Privilégios e Prioridades
Aqui entra o cerne da contradição: muitos políticos falam em valorizar educação, em reconhecer professores, em priorizar educação pública. Simultaneamente, mantêm regimes de privilégios, regalias, benefícios extensos, contratos e estruturas que pouco têm de fiscalização e accountability.
Exemplos de privilégios
Embora não sejam todos iguais, cabe lembrar alguns contextos:
- Verbas parlamentares abundantes (para gabinetes, salários de assessores, divulgação, transporte), auxílio-moradia, gastos de custeio de mandatos — muitas vezes sem transparência plena ou fiscalização eficaz.
- Salários de altos cargos públicos muito acima da média salarial nacional, com estabilidade, aposentadorias especiais, benefícios adicionais.
- Muitos legisladores e gestores não veem seus próprios privilégios como tema urgente, mas exigem cortes ou contenções em outros setores — inclusive no serviço público, inclusive na educação.
Falta de penalidades reais, pouca responsabilização
- Políticos fazem promessas de campanhas ou em discursos institucionais, mas há pouco mecanismo que obrigue cumprimento auditável dessas promessas.
- Mesmo quando leis existem (como a lei do piso nacional, PNE, etc.), muitos municípios e estados descumprem, alegam incapacidade financeira ou burocrática, sem que haja sanções contundentes.
- A instabilidade política, troca de prefeitos, governadores, secretários de educação, alimenta cortes, retardos, descontinuidade de políticas.
Quem Educa o Educador? Propostas para Fazer a Promessa Virar Realidade
Para que a pergunta deixe de ser retórica e comece a ser respondida com ação concreta, é necessário um conjunto de medidas estruturais — não paliativas — que coloquem o professor no centro das políticas públicas, não na retórica de campanha.
- Fortalecer concursos públicos e cargos efetivos
- Tornar os concursos mais frequentes, previsíveis, bem distribuídos pelo território (zona urbana, periferias, rural).
- Limitar o uso de contratações temporárias como exceção, não como regra estrutural.
- Garantir estabilidade docente
- Assegurar condições de trabalho que protejam o professor de perseguições políticas ou ideológicas, e que ele possa planejar seu trabalho a médio/longo prazo.
- Revisar leis e normativas que permitam dispensa sem motivo claro, flexibilizações abusivas ou decisões políticas que substituam docentes sem respaldo técnico.
- Salários dignos, reajustes reais e frequentes
- Evitar reajustes mínimos abaixo da inflação; compensar perdas acumuladas.
- Criar pisos regionais ou adicionais que levem em conta custo de vida local, transporte, deslocamento, moradia.
- Considerar adicional por complexidade do trabalho, turmas grandes, condições adversas.
- Condições de trabalho decentes
- Infraestrutura mínima obrigatória: bibliotecas, laboratórios, conectividade, mobiliário.
- Suporte pedagógico, formação contínua, equipes de apoio, profissionais de inclusão.
- Carga de trabalho que reconheça tarefas fora da sala de aula: correção, planejamento, reuniões, formação etc.
- Participação democrática e transparência
- Conselhos escolares com real poder de fiscalização, participação popular.
- Orçamentos públicos transparentes, com dados abertos sobre quanto se gasta com educação, com professores, com recursos humanos, encargos, benefícios.
- Mecanismos de prestação de contas: metas claras, prazos, indicadores mensuráveis, sanções para descumprimento.
- Priorizar política educacional independente de ciclos eleitorais
- Discontinuidades entre governos e gestão (federal, estadual, municipal) destroem projetos de longo prazo.
- Criar pactos, legislações permanentes que protejam políticas de valorização do magistério mesmo após mudanças de administração.
Reflexão Emocional: O Coração do Problema
É importante não perder de vista que atrás dos números há pessoas. Professores que deixam de ver seus filhos, que adiam sonhos, que desistiram de buscar especializações por falta de tempo ou dinheiro. Que choraram ao não conseguir comprar material necessário, consertar a casa, pagar transporte.
Há professores que trabalham em escolas em áreas de risco, sem segurança, com salas de aula expostas ao frio ou calor extremos, sem ventilação, sem internet, sem bibliotecas. São comunidades que colocam no professor muito mais que resposta curricular: esperam acolhimento, esperança, consolo. E no entanto, muitos professores sentem que foram abandonados pela sociedade e pelo Estado.
Essa desconsideração não só fere a dignidade individual, mas mina a esperança coletiva. Quando um professor deixa a profissão, quando desiste de permanecer, quando abdica de dar o melhor por não ter como arcar com condições mínimas — quem perde é o aluno, a escola, o futuro de um país.
Conclusão: Quem Educa o Educador Também Educa o Futuro
Se quisermos um Brasil em que cada criança, cada jovem tenha oportunidade de aprender com dignidade, com respeito, com atenção, precisamos responder: quem educa o educador?
Não basta elogiar professores em discursos. Não basta treinamentos caros ou anúncios de bolsas. É preciso proteger, estruturar, valorizar, remunerar, garantir estabilidade. É preciso que a classe política pare de olhar para a educação como custo, propaganda ou projeto de vitrine, e comece a tratá-la como investimento central, estrutural, base para qualquer esperança real de desenvolvimento humano, justiça social e democracia.
Governantes devem olhar para o espelho: quando prometem amor à educação, devem demonstrar esse amor abrindo mão de privilégios, fiscalizando seus próprios gastos, priorizando professores em orçamentos, políticas e leis. Porque o educador que se sente respeitado, apoiado e seguro ensina com confiança, capacidade e compromisso. E esse é o único tipo de educação que transforma — não a que se contenta com pão de discurso, mas com o banquete da prática.
Fontes e Referências
- Agência Brasil — Estados perdem mais de 180 mil professores concursados em 10 anos, estudo do Todos pela Educação / Inep.
- Agência Brasil — Número de professores temporários no Brasil é maior que na OCDE, pesquisa Talis 2024.
- Agência Brasil — Professores no Brasil usam mais IA que média dos países da OCDE.
- Inep — Conheça o perfil dos professores brasileiros (Censo Escolar 2020, Censo da Educação Superior 2019).
- Poder360 — Matrículas na educação básica caem, mas número de professores é recorde.
- CBN/Globo — Brasil foi o segundo país que mais reduziu gastos com educação entre 2015 e 2021.
- Pesquisa IBRE-FGV / Pnad Contínua — Salários baixos de professores da pré-escola.
- Relatório UNESCO — déficit futuro de docentes para educação básica até 2030.