A trajetória da educação na Coreia do Sul oferece lições poderosas para o Brasil — lições que se tornam ainda mais urgentes quando vemos o desgaste crescente da profissão docente em nosso país. Se quisermos dar um salto qualitativo, precisamos olhar para o que deu certo (e o que ainda se empedra) lá fora, ao mesmo tempo em que debatemos nosso ambiente político, nossa cultura de desvalorização e o papel central dos professores na construção de um país verdadeiramente democrático.
1. Contexto: por que a Coreia do Sul chegou onde chegou
A Coreia do Sul é frequentemente citada entre os casos de países que alcançaram elevados níveis de desempenho educacional em relativamente pouco tempo. Segundo o relatório da OCDE, os estudantes sul-coreanos figuram entre os melhores no mundo em leitura, ciências e matemática. thediplomat
O que permitiu esse salto? Entre os diversos fatores, destacam-se:
- A formação de professores altamente qualificados, com ingresso competitivo em faculdades de educação e licenciatura rigorosa. NCEE
- A valorização do magistério como carreira de prestígio, componente de status social e estabilidade profissional.
- Um sistema de remuneração e progressão relativamente atraente comparado com outros países, aliado a proteção estatutária do professor como funcionário público. SpringerLink
- Investimento constante em educação pública, tratamento da carreira docente como componente central da política educativa. asiasociety
Esses ingredientes — seleção rigorosa + status profissional + investimento público — formaram uma base sólida para que a profissão docente fosse vista como um pilar. Como indica o estudo da Banco Interamericano de Desenvolvimento sobre o tema, “Teaching is considered a very high-status profession” na Coreia do Sul. IDB
2. O que se passa no Brasil — e o contraste com a Coreia
No Brasil, infelizmente, a valorização dos professores segue aquém do que seria necessário para uma educação de excelência. Aspectos como baixos salários, pouca atração da carreira docente entre jovens de alto desempenho, instabilidade, excesso de burocracia e desprestígio social se somam.
Quando colocamos lado a lado os dois cenários, o contraste assusta:
- Seleção vs fragilidade da carreira: Enquanto na Coreia quem quer ser professor passa por processo seletivo rigoroso e entra em uma carreira estável, no Brasil vemos evasão de professores, falta de atratividade e, sobretudo, um descompasso entre o impacto esperado da profissão e as condições de trabalho.
- Valor social vs desprezo institucional: Lá, o professor ainda carrega grau de prestígio associado à ideia cultural de que ensinar é dignidade; aqui, muitas vezes, o magistério é tratado como segunda opção ou como destino inevitável — não como missão reconhecida.
- Investimento público vs negligência sistemática: Embora nem tudo seja perfeito na Coreia, o compromisso público com a educação e com os professores é histórico. No Brasil, a educação pública e seus profissionais muitas vezes padecem por falta de prioridade política, financiamento e reconhecimento.
- Profissão vista como escolha de elite vs profissão fragilizada por desigualdades: O Brasil convive com desigualdades profundas no acesso e qualidade da educação; parte do problema está na fragilidade da carreira docente como motor de mudança social.
É evidente que o Brasil perde muito ao não valorizar seus professores — perde tempo, perde talentos, perde futuro.
3. Lições que podemos extrair (e adaptar)
3.1 Elevar o status da profissão docente
No modelo coreano, o professor é visto não apenas como executor de aula, mas como agente central do desenvolvimento nacional. Ele – ou ela – é parte da engrenagem da nação que visa melhorar seus índices, sua competitividade, sua coesão social. Esse tipo de cultura precisa ser cultivado no Brasil. É preciso uma narrativa pública, política e educativa que diga: “Ser professor é um dos trabalhos mais importantes que há”.
3.2 Seleção rigorosa + formação contínua
Um dos elementos que garantem a qualidade no caso coreano é que a formação de professores ocorre em universidades especializadas e somente os candidatos com perfil mais qualificado são admitidos. NCEE No Brasil, embora existam cursos e licenciaturas de qualidade, o desafio é grande para garantir que todo professor tenha a formação inicial e continuada que a profissão exige. A capacitação contínua, com metodologias atualizadas, deve ser parte do sistema.
3.3 Salário decente + carreira clara
Nenhuma valorização é real se não vier acompanhada de condições dignas de trabalho. A Coreia implementou sistemas de progressão, bônus, estabilidade, o que ajudou a atrair bons candidatos. nysed No Brasil, enquanto salários variam muito por estado, a carreira docente muitas vezes sofre defasagem, falta de reconhecimento e acumulação de tarefas não docentes que esvaziam o foco no ensino.
3.4 Políticas públicas consistentes
Os avanços coreanos não foram fruto de meros slogans, mas de políticas sistemáticas e investimentos estruturados. No Brasil, a descontinuidade, a falta de prioridade e os cortes orçamentários são obstáculos reais. Para aprender com a Coreia, precisamos de compromisso político de longo prazo — independentemente de ciclos eleitorais.
3.5 Reconhecimento cultural + social
Valores culturais que colocam o professor como figura de respeito fazem parte da equação sul-coreana. No Brasil, essas percepções ainda precisam ser construídas e consolidadas. O respeito à profissão docente, sua visibilidade como agente de transformação social, deve estar no imaginário coletivo.
4. Crítica política: por que ainda estamos tão aquém?
Não se trata apenas de política pedagógica ou técnica: é política social. É preciso encarar que, no Brasil, a educação pública — e os professores que a sustentam — muitas vezes são negligenciados por decisões orçamentárias, prioridades divergentes e até por uma cultura que subestima a profissão.
4.1 Falta de prioridade orçamentária
Quando vemos que estados e municípios atrasam salários de professores, reduzem investimentos em material didático, ou impedem a progressão da carreira, fica evidente que não há prioridade real. A valorização docente não pode depender apenas de boas intenções: requer efetivo financiamento público.
4.2 Ciclos curtos e ausência de continuidade
Mudar o status da profissão docente exige políticas de longo prazo — e no Brasil temos mudanças de governo, cortes, reversões de programa. A falta de continuidade gera instabilidade e faz com que o professor se sinta peça de um jogo político, e não motor de transformação.
4.3 Desigualdade estrutural
Enquanto na Coreia o professor tem respaldo institucional para exercer sua carreira, no Brasil a condição de trabalho varia profundamente entre regiões. Em muitos casos, trabalhar em periferias, em escolas públicas carentes, ainda significa lidar com precariedade, abandono, falta de apoio — e com isso, o foco se torna sobreviver, não ensinar.
4.4 Baixa narrativa de valorização
Políticos falam muito de inovação, de tecnologia educacional, de metas internacionais — mas falam pouco sobre professores. Valorização de fato exige que o professor seja protagonista no discurso e nas políticas. Que ele deixe de ser “gasto” para ser “investimento”. Que ele seja vista como agente de futuro, não apenas executor de tarefas.
4.5 “Promessas” vazias vs execuções concretas
Temos planos, metas, relatórios. Mas quanto disso se traduz em salário digno, formação adequada, proteção da carreira e respeito social? É fácil prometer “elevar a educação” e esquecer que isso passa por elevar o professor. Sem isso, a promessa vira retórica.
5. O que o Brasil perde ao não valorizar professores
- Perde talentos: jovens de excelência escolhem outras carreiras mais atraentes.
- Perde tempo educativo: professores desmotivados ou mal formados impactam negativamente a aprendizagem.
- Perde legitimidade social: se o professor não é valorizado, a escola pública perde prestígio, e com isso clivagens se aprofundam.
- Perde desenvolvimento econômico e democrático: educação de qualidade, com docentes valorizados, é pilar de desenvolvimento, de cidadania e de equidade. Se ignorada, o país fica refém de ciclos de atraso e desigualdade.
- Perde esperança: para muitos estudantes, o professor é uma das poucas referências de potência transformadora. Quando o profissional é fragilizado, essa esperança é abalada.
6. Como transformar essa lição em ação no Brasil
6.1 Diagnóstico transparente
Cada rede estadual e municipal precisa saber o perfil de seus professores: formação, progressão, condições de trabalho, satisfação. Sem diagnósticos atualizados, não há mudanças bem-fundamentadas.
6.2 Plano público de valorização docente
Incorporar metas específicas para carreira docente — salário mínimo compatível, planos de carreira claros, estabilidade condizente, incentivos para atuar em zonas de vulnerabilidade, programas de mentoramento para professores iniciantes.
6.3 Formação inicial e continuada de qualidade
Investir em cursos de licenciatura de qualidade, em programas de mestrado e doutorado para docentes, e em formação contínua que vá além de “cursos rápidos” ou “obrigatórios” sem impacto real.
6.4 Visibilidade social e cultural
Campanhas públicas que elevem o status do professor, reconhecimento real (prêmios, visibilidade midiática, valorização simbólica), reengajar o ensino como missão social — não apenas emprego.
6.5 Governança e política de longo prazo
Educação não pode depender de ciclos políticos. Há necessidade de pactos amplos que estabeleçam valorização docente como meta nacional, com monitoramento, transparência e responsabilidade.
6.6 Apoio à prática docente
Condicionar a valorização à redução de burocracia excessiva, à melhoria das condições físicas e materiais nas escolas, ao suporte psicológico e profissional para professores — afinal, a melhoríssima formação se perde se o ambiente de trabalho for desolador.
7. Um chamado urgente
Se a Coreia do Sul ainda enfrenta desafios — como o excesso de competitividade, o custo privado da educação e desgaste docente crescente. thediplomat — isso não diminui a lição: um país que investe seus professores como eixo de educação está investindo seu futuro.
No Brasil, temos um momento decisivo: ou abraçamos de fato a valorização dos professores como prioridade nacional, ou continuaremos pagando o preço alto do atraso educativo — e com ele, o atraso social e econômico.
Não é exagero dizer que o professor é um dos engenheiros de destinos de uma nação. E honrá-lo é honrar o futuro. Se deixarmos para amanhã, o amanhã chegará pobre de professores — e com ele, um país empobrecido de possibilidades.
8. Conclusão
O sucesso da Coreia do Sul não veio por acaso. Veio porque o país decidiu que ensinar era uma profissão de prestígio, porque entendeu que o professor não é custo, mas investimento, e porque traduziu essa convicção em políticas estruturadas.
O Brasil tem condições de escrever sua própria história — mas requer coragem política, vontade coletiva e uma mudança cultural profunda. Valorizar professores não é apenas “bom senso”. É questão de justiça, de desenvolvimento, de dignidade nacional.
Se fomentarmos uma nova cultura em que “ser professor” seja entendido como missão, reconhecimento e carreira real, estaremos plantando sementes que florescerão em gerações. Que este texto possa servir como alarme e como convite: olhar para fora com humildade, aprender com quem avançou, e sobretudo, olhar para dentro com exigência. Os professores nos merecem — e o Brasil merece professores valorizados.
Fontes principais para consulta adicional:
- Lessons for Latin America from Comparative Education: South Korea’s Teacher Policy (Banco Interamericano de Desenvolvimento) Publicações IADB
- South Korea – Teaching Profession – Teachers, Education, Training, and Educational education.stateuniversity.com
- An Explanation of the ICALT Instrument’s Measurement of Teaching Quality in Relation to Teacher Education and Policy in South Korea SpringerLink