A educação de qualidade não brota por acaso — é fruto de escolhas conscientes, de valorização profissional e de políticas que reconhecem o papel central de quem ensina. Em alguns países, essa fórmula deu certo: professores valorizados, carreira estruturada, condições de trabalho dignas e resultados concretos. No Brasil, entretanto, ainda seguimos à margem desse movimento. Este artigo investiga como algumas nações construíram esse avanço, quais elementos formam a “fórmula da valorização” e porque no Brasil, apesar de tantas promessas, a prática continua aquém do necessário.
1. A valorização como pilar da educação de excelência
1.1 O que entendemos por “valorização”
Valorizar o professor vai muito além de aumentar o salário. Significa reconhecer social e institucionalmente a profissão, oferecer formação de qualidade, progressão de carreira, apoio pedagógico, ambiente de trabalho decente e autonomia profissional. Quando esses elementos estão presentes, os sistemas educativos ganham corpo, reputação e resultados. Como a UNESCO coloca: “Teachers’ expertise should help guide educational reform from the ground up.” UNESCO
1.2 Evidência internacional de correlação
Estudos apontam que, em contextos onde professores se sentem valorizados pela sociedade, pela mídia e pelos formuladores de políticas, existe menor rotatividade e maior engajamento profissional. Por exemplo, a análise da OECD mostra que professores que relatam sentir-se valorizados têm mais probabilidade de permanecer na carreira. OECD Outro relatório reforça que países que elevam o status da profissão docente aumentaram sua atratividade — como a Finlândia, que seleciona rigorosamente professores e os vê como agentes centrais. ASCD
2. Exemplos globais de sucesso: o que eles fazem diferente
2.1 Finlândia: atração por excelência
Na Finlândia, a carreira de professor é altamente seletiva e competitiva: poucos candidatos ingressam, passam por formação exigente, recebem bons salários e são vistos como líderes de aprendizagem. O status social da profissão docente foi elevado pelo desenho institucional. Isso confirma o que o artigo da ASCD resume como “raising teacher quality around the world”. ASCD Os efeitos aparecem nas avaliações internacionais de aprendizagem, nos índices de igualdade e na confiança do corpo docente.
2.2 Cingapura: padrão elevado e formação intensiva
Em Cingapura, embora não seja o foco principal aqui, vale mencionar que o país combina uma carreira docente estruturada com treinamento contínuo, acompanhamento, feedback rigoroso, e expectativas elevadas para o ensino. O reconhecimento da profissão reforça a responsabilidade e a qualidade. (Embora não tenhamos um link direto do estudo aqui, o padrão global de “valorização + qualidade” se aplica.)
2.3 Outros países de destaque
Diversas nações que melhoraram seu sistema educacional investiram no professor como peça-chave. A pesquisa da VSO em 15 países em desenvolvimento aponta que salários baixos, formação deficiente e condições precárias desmotivam professores e prejudicam o sistema. vsointernational.org Isto significa que o oposto — boas condições, valorização e apoio institucional — favorece a melhoria.
3. A fórmula da valorização: componentes essenciais
3.1 Seleção rigorosa e status da profissão
Sistemas de alto desempenho recrutam professores entre os melhores candidatos. Não tratam o magistério como “reserva”, mas como escolha de elite. Essa mensagem faz parte da cultura profissional. No Brasil, esta etapa ainda é frágil: a carreira docente carece de atratividade entre os jovens mais qualificados.
3.2 Formação inicial e continuada robusta
A valorização exige que o professor seja bem formado — e continue se formando. Isso significa programas de licenciatura exigentes, mentoramento, acompanhamento no início da carreira, desenvolvimento profissional permanente. Sem isso, a valorização fica apenas no discurso.
3.3 Remuneração e carreira estruturada
Remuneração digna está no âmago da valorização. Mas, tão importante quanto o salário, é a clareza da progressão de carreira — distinção de níveis, avaliação, promoção, reconhecimento. É preciso que o professor veja perspectivas reais de crescimento.
3.4 Condições de trabalho decentes
A valorização também se dá no ambiente de trabalho: salas adequadas, recursos pedagógicos, número de alunos manejável, apoio da equipe de gestão, liberdade pedagógica. Sem isso, até o professor bem preparado esbarra em obstáculos quotidianos.
3.5 Reconhecimento social e simbólico
O professor valorizado vive em um ambiente onde a sociedade reconhece sua profissão como central. Isso inclui respeito, confiança, participação nas decisões e mídia que mostra seu impacto — não apenas críticas ou denúncias de falhas. A percepção social se reflete no engajamento. ssri.psu.edu
3.6 Políticas públicas consistentes e de longo prazo
Valorização real exige continuidade. Não basta política de ocasião, reforma rápida ou metas de curto prazo. Sistemas que mudam de governo a governo, que realinham prioridades, dificilmente mantêm valorização docente. A responsabilidade é de Estado.
4. Por que essa fórmula ainda não se tornou regra no Brasil
4.1 Uma cultura de subvalorização
No Brasil, a carreira docente muitas vezes não é tratada como escolha de prestígio. A formação, os salários, o tratamento social indicam que “ser professor” é opção de menor competitividade. Essa lógica alimenta a própria fragilidade estrutural da educação nacional.
4.2 Falta de investimento e priorização política
Quando se examina o orçamento da educação brasileira, somado ao histórico de atrasos de salários, precariedade de escolas e programas sem continuidade, fica claro que não há uma prioridade real na valorização docente. Políticos falam em “melhorar a educação” mas falam pouco em “valorizar quem ensina”.
4.3 Desconexão entre discurso e prática
Apesar de estudos, relatórios e recomendações internacionais destacarem a fórmula da valorização, muitos sistemas estaduais e municipais no Brasil implementam medidas pontuais, desconectadas, sem articulação. A valorização vira “meta” em documento, mas não ação integrada.
4.4 Desigualdade regional e social
A valorização docente não se distribui de forma igual no Brasil. Professores em zonas periféricas, rurais ou de baixa renda enfrentam condições ainda mais adversas. Se a fórmula da valorização serve a um país inteiro, no Brasil ela é desigualmente aplicada — o que perpetua a desigualdade educacional.
4.5 Falta de reconhecimento simbólico e de carreira
A pesquisa global mostra que professores sentem-se pouco valorizados pela sociedade ou pela mídia. No Brasil, esse sentimento é agravado por remuneração defasada, falta de progressão clara e reconhecimento social limitado. Sem valorização percebida, o engajamento decai.
5. Impactos da falta de valorização docente no Brasil
5.1 Professores desencantados e evasão da carreira
Quando a profissão docente não é valorizada, os melhores candidatos optam por outras áreas. A atratividade da carreira cai. A pesquisa da OECD revela que em países onde o sentimento de ser professor “primeira escolha” é baixo, há risco de escassez de professores. OECD
5.2 Qualidade de ensino comprometida
Sem valorização, professores enfrentam múltiplas adversidades: falta de recursos, excesso de alunos, pouco apoio pedagógico. Isso interfere diretamente na aprendizagem dos estudantes. A fórmula da valorização não apenas beneficia o docente — beneficia o aprendizado.
5.3 Educação desigual reforçada
A falta de valorização atinge de forma mais severa regiões vulneráveis. Assim, a educação pública se torna ainda menos atraente, os professores mudam ou saem, e os estudantes ficam à margem. A ausência da fórmula da valorização amplia as desigualdades já presentes.
5.4 Prejuízo para o desenvolvimento nacional
Educação de baixa qualidade gera cidadãos menos preparados, economia menos competitiva, maior exclusão social. Países que valorizam professores investem no futuro; países que os negligenciam investem no esquecimento.
6. A fórmula posta em prática: recomendações para o Brasil
6.1 Elevar a profissão docente ao centro da política educacional
O Brasil precisa tratar professor não como peça de execução, mas como protagonista da aprendizagem. Isso implica: recrutar bem, formar bem, valorizar bem. A fórmula da valorização exige política clara: professor bem-tratado = educação melhor para todos.
6.2 Implementar seleção rigorosa e atrativa
Inspirar-se em países como Finlândia: fazer da carreira docente uma escolha competitiva, com atratividade para jovens com bom desempenho, criar mecanismos de entrada que valorizem o candidato e não eliminar a vocação.
6.3 Investir consistentemente na formação inicial e continuada
Garantir que todo professor tenha formação de qualidade, que haja mentoramento, acompanhamento, atualização. Formar professores na rotina, com prática, reflexão e apoio. Valorização é investida ao longo do tempo.
6.4 Garantir remuneração e carreira estruturada
Definir salários compatíveis com outras profissões de nível equivalente, implementar progressão de carreira, critérios claros, distinção de níveis, bonificações, incentivos para atuação em regiões vulneráveis. Criar clareza de “onde posso chegar”.
6.5 Melhorar condições de trabalho e apoiar o trabalho docente
Salas adequadas, recursos, número de alunos razoável, apoio de gestão, autonomia profissional. Professor valorizado trabalha em escola valorizada. A condição material importa tanto quanto o discurso.
6.6 Gerar reconhecimento simbólico e social
Campanhas sociais de valorização, mídia que destaque professores transformadores, participação dos docentes em decisões, ouvir quem está na sala de aula. A profissão precisa ser reconhecida e respeitada — isso reforça o engajamento.
6.7 Estabelecer políticas de longo prazo com continuidade
Não basta decreto ou programa de curto prazo. A valorização exige visão de Estado, mecanismos de monitoramento, accountability, continuidade além de ciclos eleitorais. A fórmula da valorização só funciona com persistência.
7. Um chamado à responsabilidade política e social
A valorização dos professores não é tema “apenas para especialistas”. É agenda de governo, de sociedade, de comunidade. Quando políticos fazem discursos empoderadores sobre educação mas não transformam o estatuto e o dia a dia dos professores — estão enganando o povo. A valorização não pode ser retórica.
A sociedade também tem papel: reconhecer, apoiar, prestigiar a profissão docente. O professor que entra na sala de aula com vontade, mas sem estrutura, sem reconhecimento, sem apoio — está sendo silenciosamente sabotado. Valorizar o professor é valorizar o futuro de uma nação.
8. Conclusão: transformar a fórmula em realidade no Brasil
Quando países avançam com educação de qualidade, quase sempre há um padrão: valorização do professor. Essa fórmula — exigente, multifacetada, mas possível — não é magia. É escolha política, cultural e técnica. O Brasil conhece essa verdade. O que falta é coragem para aplicá-la em larga escala, com consistência, com recursos e com respeito.
Há um Brasil que pode se ver na contramão dessa fórmula: professores desestimulados, escolas com infraestrutura precária, resultados aquém, desigualdades persistentes. Mas há outro Brasil que pode emergir se decidirmos valorizar quem ensina, se escolhermos tratar o professor como protagonista e não como coadjuvante.
Se transformarmos a carreira docente, vamos transformar a educação pública — e com isso, nosso país. Será difícil? Sim. Demanda tempo, recursos, vontade política. Mas será impossível se insistirmos em ignorar a fórmula que já deu certo mundo afora. O futuro do Brasil depende disso.
Porque países que avançam com a educação avançam porque valorizam quem ensina. Que esse seja o nosso próximo capítulo — e não mais promessa, mas fato.
Fontes recomendadas para aprofundamento:
- “Raising Teacher Quality Around the World” (ASCD) — https://www.ascd.org/el/articles/raising-teacher-quality-around-the-world ASCD
- “The Status of the Teacher: a Global Analysis” (Observatory – Institute for the Future of Education) — https://observatory.tec.mx/edu-news/status-of-teachers-global-analysis/ observatory.tec.mx
- “Sustaining the teaching profession: Results from TALIS 2024” (OECD) — https://www.oecd.org/en/publications/results-from-talis-2024_90df6235-en/full-report/sustaining-the-teaching-profession_c761a598.html OECD