Salários Docentes no Mundo: Onde o Brasil se Encaixa?

Introdução

A função do professor — mais do que ministrar aulas — está intimamente ligada à forma como uma sociedade concebe sua própria projeção no futuro: investimento em conhecimento, formação de cidadãos, fortalecimento da democracia. Nesse contexto, o salário docente funciona como termômetro da importância atribuída à educação e ao professor. Este texto analisa comparativamente os salários de docentes no mundo, o lugar que o Brasil ocupa nessa escala e o que isso revela sobre nossas prioridades políticas e sociais. Com empatia para quem ensina, crítica para quem legisla e omite — porque não há futuro coletivo sem professores valorizados.

1. O panorama global dos salários docentes

Conforme relatório recente do Organisation for Economic Co‑operation and Development (OECD), os salários estatutários de professores com 15 anos de experiência variam amplamente entre países: em muitos países da OCDE, o valor para professores de nível pré-primário chega a cerca de US$ 55.725 em média para 15 anos de experiência. OECD
No nível próprio de “salário real” (incluindo adicionais, bônus etc.), professores em nível de educação primária nos países da OCDE com 25-64 anos recebiam em 2024 cerca de US$ 57.399 em média. OECD
Entretanto, há extremos: em alguns países da OCDE, professores com 15 anos de experiência ganham mais de US$ 90.000 (por exemplo: Alemanha, Luxemburgo, Países Baixos) para o nível primário. OECD
Em contrapartida, em países com menor valorização da função ou menor investimento — ou em economias emergentes — os valores são muito inferiores. Por exemplo, a Slovak Republic registra salários estatutários de cerca de US$ 26.913 para o nível primário com 15 anos de experiência. OECD
Em síntese: há uma enorme disparidade internacional. E não se trata apenas de valores absolutos, mas de valores relativos — ou seja, quanto esses salários representam em comparação com outras profissões de nível terciário, qual o poder de atração da carreira, qual o prestígio social da função.

2. O caso brasileiro: onde o Brasil se posiciona

O Brasil, segundo relatório da OCDE sobre o país, informa que em 2023 o salário mínimo estatutário (iniciante) de professores do ensino médio ou equivalente (“lower secondary”) equivalia a US$ 23.018, ou seja, cerca de 47% abaixo da média da OCDE que era US$ 43.058. OECD
Além disso, observa-se que no Brasil mais de metade dos professores trabalham em contratos parciais ou com jornadas que não são as ideais — isso fragiliza ainda mais a “carreira docente” como profissão atrativa. OECD
Outro dado expressivo: em 2022, os salários médios docentes no Brasil correspondiam a cerca de 83% dos rendimentos de trabalhadores com ensino superior, contra cerca de 65% em 2012. Ou seja: alguma recuperação, sim — mas ainda uma distância para “equivalência” plena. OECD
Portanto: o Brasil está abaixo da média dos países OCDE em termos absolutos de salário docente, e ainda insuficiente em termos relativos. Isso significa, na prática, que o professor brasileiro muitas vezes ganha menos — em poder aquisitivo, reconhecimento, progressão — do que seria razoável para a responsabilidade que assume.

3. Por que esses números importam tanto

3.1 Atratividade da carreira docente

Se o salário do professor for baixo ou não competitivo, jovens talentos tendem a não optar por essa carreira, ou então optam mas permanecem pouco tempo. O relatório da OCDE já assinala que salários mais baixos resultam em menor retenção de profissionais qualificados. OECD

3.2 Prestígio profissional e reconhecimento social

Salário não é tudo — mas é um dos indicadores mais visíveis de como a função docente é tratada socialmente. Quando professores ganham valores próximos ou superiores aos de outros profissionais de nível semelhante, isso envia uma mensagem: “essa profissão importa”. Quando ganham muito menos, a mensagem é inversa. Contribui para que a docência seja vista como “última opção” ou “sacrifício invisível”.

3.3 Qualidade da educação e equidade

Salários baixos podem levar a alta rotatividade, menos investimento em formação continuada, menos motivação e, consequentemente, impacto direto na qualidade do ensino. Em especial em contextos de desigualdade — como o Brasil — isso afeta os estudantes mais vulneráveis.

3.4 Responsabilidade política e social

Os valores salariais são também um espelho de prioridade: quando o Estado e o poder público investem de fato em professores, o fazem porque reconhecem que a educação forma a democracia, o emprego, a participação cidadã. Quando não o fazem, deixam de honrar essa prioridade e, em última instância, falham com a sociedade.

4. Crítica contundente aos agentes políticos e institucionais

É preciso que se diga de forma clara: muitos agentes políticos — nas esferas municipal, estadual e federal — tratam a educação como caixa-preta eleitoral ou campo de discurso, mas não como política estrutural que exige remuneração digna, progressão real, condições de trabalho adequadas.
Quando se anuncia “valorização da educação” mas os dados mostram que os professores continuam recebendo valores que os colocam claramente abaixo da média internacional e abaixo de qualquer parâmetro de “profissional com ensino superior”, é hipocrisia.
Quando orçamento de educação é tratado como mero gasto, e a carreira docente como variável de ajuste ou de contenção, estamos assistindo à desvalorização de quem forma futuros trabalhadores, cidadãos, pensadores.
Além disso: a imensa disparidade entre estados brasileiros — que paga melhor, que paga pior — adiciona um traço de injustiça regional à injustiça salarial. Professores que fazem o mesmo trabalho recebem condições distintas dependendo de estado ou município. Isso é uma falha ética e política grave.
Se o Brasil aspira a “educação de qualidade para todos”, não basta discurso: remuneração docente compatível é condição mínima. Ignorá-la equivale a fraudar a promessa democrática da educação.

5. Comparações que incomodam

Para dar uma ideia mais concreta:

  • Em países como Alemanha, Países Baixos ou Luxemburgo, professores de ensino primário ou secundário com 15 anos de experiência podem ganhar mais de US$ 90.000 anuais. OECD
  • No Brasil, começando, o salário “mínimo estatutário” está em torno de US$ 23.018 para professores do ensino médio em 2023. OECD
  • Em termos relativos à renda de outros profissionais com ensino superior, a média dos países da OCDE situa-se entre 83%-91% da renda desses profissionais para professores com 15 anos de experiência. OECD
  • No Brasil, o montante de 83% da renda de trabalhadores com ensino superior foi registrado em 2022. OECD
    Esses números mostram que o Brasil não é “destaque”, é “exemplo de média baixa” — e isso revela escolhas orçamentárias, políticas públicas e sociais que subestimam a educação.

6. Implicações para o Brasil: para além dos números

6.1 Retenção de profissionais e evasão da carreira

Quando professores percebemo-se como menos valorizados, existe risco elevado de evasão da profissão ou de migração para redes privadas ou outras ocupações. Isso fragiliza a base da escola pública.

6.2 Desigualdade educacional e territorial

Estados e municípios com menor capacidade orçamentária tendem a remunerar ainda pior, gerando condições de ensino mais desfavoráveis — justamente onde a educação poderia funcionar como instrumento de mobilidade social.

6.3 Desmotivação e perda de autoridade profissional

Salários baixos afetam autoestima, autoridade em sala de aula, investimento pessoal. Professores que se sentem desvalorizados têm menos condições de assumir papel formador além da mera transmissão de conteúdo: acompanhamento, inovação pedagógica, atenção individualizada.

6.4 Crise de modelo: educação tratada como “roteiro” e não como “projeto de longo prazo”

Quando a política educacional se resume a “meta de avaliação” ou “índice” e não a plano de carreira, valorização e reconhecimento, a remuneração é tratada como custo variável, não como componente estratégico. Isso transforma professores em peças de reposição, não em protagonistas da educação.

7. Caminhos para mudança (e para que o Brasil “encaixe” melhor)

7.1 Fixar remuneração compatível com responsabilidades

Não basta apenas “aumentar um pouco” — é preciso que o salário docente se aproxime de uma faixa que torne a carreira financeiramente competitiva com outras profissões de nível comparável.

7.2 Progressão real e reconhecimento

Mais do que aumentos pontuais: carreiras com progressão clara, bônus por mérito, apoio à formação continuada, incentivo à especialização, valorização da experiência.

7.3 Uniformização mínima nacional com atenção à desigualdade regional

Evitar que o local de atuação (município ou estado) determine de forma drástica o valor do salário. Garantir piso nacional que garanta dignidade e complementar local para diferenciação positiva.

7.4 Transparência política e orçamento adequado

Os parlamentares, gestores estaduais e municipais precisam tratar a educação — e a docência — como investimento estratégico. Os valores salariais, as condições de trabalho, devem constar em orçamento, metas e prestação de contas.

7.5 Cultura de valorização da profissão docente

Valorização pública, em mídia, em comunidade, em política urbana — professores como agentes centrais da transformação social, não apenas como “funcionários da escola”. Isso também ajuda a recuperar prestígio e justificar remunerações melhores.

8. Empatia para os professores brasileiros

Aos professores que, todos os dias, entram em sala com expectativas de formar, inspirar, mediar, aprender junto — o Brasil deve muito. Vocês atravessam jornadas longas, enfrentam turmas numerosas, infraestrutura deficiente, salários que não refletem a magnitude da tarefa.
Essa não é uma crítica abstrata: é admiração e exigência ao mesmo tempo. Admiração pelo que vocês fazem apesar das condições. Exigência de que o Estado e a sociedade façam a parte deles. Vocês merecem mais do que promessas: merecem valorização concreta, digna e perene.
Sentir-se valorizado não é “mimimi”: é condição para que a educação pública funcione, para que a sociedade avance, para que as desigualdades se revertam.

9. Conclusão

“Salários docentes” não são tema corporativo — é tema de futuro coletivo. Onde o Brasil se encaixa? Em posição de desvantagem, de dívida histórica. Mas isso não é destino inevitável: depende de política pública, de sociedade que pressiona, de professores que se organizam, de gestores que assumem responsabilidades.
Se quisermos que o professor seja agente de transformação, não de desgaste; se quisermos que a escola pública seja espaço de qualidade, equidade e esperança; então é imperativo que os salários docentes deixem de ser tratados como gasto a ser contido e passem a ser tratados como investimento estratégico.
Enquanto o Brasil continuar a pagar aos professores valores incompatíveis com a magnitude da função, estaremos alimentando uma lógica de precariedade — e depositando a conta no futuro dos estudantes, da cidadania, da democracia.
O lugar que merecemos ocupar — e que os professores merecem — é aquele onde a docência é reconhecida, paga à altura, valorizada socialmente. É hora de cobrar isso.


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