O preço que o Brasil insiste em pagar
Há um custo que não aparece nas planilhas do Ministério da Fazenda, nem nas previsões otimistas dos economistas de ocasião: o preço da desigualdade.
E entre as parcelas mais caras dessa dívida histórica está a desvalorização dos professores, um fenômeno que ultrapassa o campo educacional e se infiltra em cada camada da sociedade.
O Brasil — um país que insiste em sonhar com desenvolvimento — continua a tratar seus educadores como peças descartáveis de uma engrenagem burocrática. O resultado é visível: uma nação presa ao passado, incapaz de romper o ciclo da pobreza e da ignorância.
A desigualdade, longe de ser uma consequência inevitável, é um projeto político e econômico sustentado pela omissão deliberada do Estado e pela conveniência das elites.
E a sala de aula, onde deveria começar a mudança, tornou-se o espelho mais fiel desse fracasso coletivo.
A desvalorização docente como política de Estado
Não há neutralidade quando o assunto é educação.
Desde a redemocratização, sucessivos governos — à direita e à esquerda — mantiveram o magistério na base da pirâmide salarial e simbólica, enquanto discursos sobre “valorização” se acumulam em campanhas eleitorais e documentos ministeriais.
Segundo a CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação), mais de 60% dos professores da rede pública recebem abaixo do piso nacional, e o piso, por sua vez, está longe de garantir uma vida digna.
O problema, porém, não é apenas orçamentário: é estrutural e intencional.
O Estado brasileiro opera sob uma lógica que beneficia a desigualdade.
Um sistema educacional forte, crítico e autônomo representaria um risco para as elites políticas e econômicas, que dependem de um povo mal instruído para perpetuar seus privilégios.
Como já advertia Paulo Freire, “a educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas, e pessoas transformam o mundo”. Por isso mesmo, impedir essa transformação tornou-se, para muitos, uma estratégia de poder.
O magistério como classe invisível
Em países onde o desenvolvimento se consolidou, o professor é figura central.
Na Finlândia, na Coreia do Sul e no Canadá, a docência é tratada como uma das carreiras mais prestigiadas da sociedade, associada à autoridade intelectual e à responsabilidade pública.
No Brasil, ao contrário, o magistério foi empurrado para a margem simbólica e econômica da estrutura social.
A invisibilidade docente é mais que uma metáfora: é uma política de apagamento.
Ela começa no salário, se consolida na sobrecarga e se perpetua na culpa.
O professor é cobrado por resultados, mas raramente apoiado; é responsabilizado pelo fracasso da escola, mas nunca ouvido nas decisões sobre ela.
Como descrevi no artigo “Professores, os Inimigos Invisíveis do Sistema Político”, essa desvalorização cumpre uma função precisa: neutralizar a força transformadora do educador.
Um magistério empobrecido e exausto não mobiliza, não protesta e não ameaça as estruturas de poder.
A desigualdade como projeto político
Falar em “crise da educação” no Brasil é, muitas vezes, um eufemismo.
O que se chama de crise é, na verdade, a execução disciplinada de um projeto de desigualdade.
A lógica é simples e cruel: quanto menor o investimento em educação pública, maior o abismo entre ricos e pobres; quanto menos crítica for a escola, mais previsível será o eleitorado; quanto menos autônomo for o professor, mais controlado será o pensamento coletivo.
Segundo dados do Banco Mundial (2023), o Brasil ocupa uma das piores posições da América Latina em investimento por aluno.
E, paradoxalmente, é também um dos países com maior evasão docente — professores que abandonam a profissão por exaustão, depressão ou descrença.
A UNESCO, em relatório recente, classificou o Brasil entre os países com maior desmotivação entre professores da rede pública, associando o fenômeno à “falta de reconhecimento social e condições de trabalho indignas”.
Em outras palavras: não é apenas a escola que está em ruínas, é a própria ideia de futuro.
A educação como espelho da desigualdade
Toda desigualdade educacional é, no fundo, um espelho das escolhas políticas de uma nação.
Enquanto escolas privadas oferecem laboratórios equipados e professores bem remunerados, as escolas públicas lutam para pagar contas básicas e garantir giz.
Esse contraste, longe de ser casual, reforça o sistema de castas invisíveis que organiza a sociedade brasileira.
No artigo “A Escola Abandonada: O Reflexo da Política Antissocial”, discuti como a precarização do espaço escolar é a materialização concreta da desigualdade estrutural.
A escola pública, que deveria ser o território da igualdade, torna-se o cenário da exclusão.
Um aluno da periferia, educado por um professor desvalorizado e sobrecarregado, enfrenta uma dupla exclusão:
- é excluído do direito a uma formação de qualidade;
- e, ao mesmo tempo, de um futuro com oportunidades reais.
O resultado é um círculo vicioso que alimenta a pobreza, a violência e a alienação política.
A desvalorização que empobrece o país
Há uma ilusão persistente de que investir em professores é um gasto.
Mas, na realidade, é o investimento mais produtivo que uma nação pode fazer.
Pesquisas da OCDE e do Instituto Ayrton Senna demonstram que cada real investido em valorização docente gera retorno econômico direto, reduzindo desigualdade e aumentando produtividade social.
Mas o Brasil parece ignorar sistematicamente essa equação.
A consequência é visível nas estatísticas:
- Baixa proficiência em leitura e matemática;
- Crescente evasão escolar;
- E um mercado de trabalho cada vez mais desigual.
O que a economia chama de “baixo capital humano” é, na verdade, o resultado direto da desvalorização do magistério.
Sem professores bem formados, respeitados e bem pagos, nenhum país se desenvolve — apenas sobrevive.
O silêncio conveniente das elites
A elite brasileira, historicamente, nunca quis uma escola pública forte.
Desde o Império, a instrução foi privilégio de poucos, e a massa foi mantida em ignorância funcional.
Hoje, essa herança se perpetua sob novas formas: a privatização do ensino, a terceirização da educação básica e o desmonte das universidades públicas.
Ao mesmo tempo em que a retórica da “meritocracia” se fortalece, o sistema educacional continua reproduzindo desigualdades estruturais.
É o que o sociólogo Jessé Souza chama de “ralé estrutural”: uma classe mantida na base da sociedade por mecanismos simbólicos e materiais de exclusão.
A escola pública, enfraquecida, não ameaça o status quo.
Ela apenas reproduz o papel que lhe foi imposto: o de conter sonhos, disciplinar corpos e naturalizar a desigualdade.
A pedagogia da resistência
Apesar de tudo, os professores resistem.
Mesmo sem reconhecimento, mesmo diante da precariedade, há uma força silenciosa que mantém viva a esperança.
É a pedagogia da resistência, conceito inspirado em Freire, que emerge das práticas cotidianas de quem insiste em ensinar num país que desaprendeu a ouvir.
No artigo “A Vergonha Nacional: O Brasil e a Desvalorização Docente”, explorei como essa resistência se manifesta nas pequenas vitórias — na leitura que floresce, no aluno que desperta, na aula que transforma.
Esses gestos, embora invisíveis para o sistema, são atos políticos de primeira ordem.
Cada professor que continua acreditando na educação, apesar do Estado, desafia o projeto da desigualdade.
E é justamente isso que torna o magistério uma das formas mais puras de resistência democrática.
Entre a apatia e a transformação
A crise da educação brasileira não é falta de recursos — é falta de prioridade e coragem política.
Há dinheiro para anistiar dívidas bilionárias, para sustentar privilégios tributários, para financiar campanhas milionárias.
Mas quando se fala em valorização docente, o discurso muda: “não há orçamento”.
A verdade é que o orçamento da educação reflete o valor que uma sociedade atribui ao seu próprio futuro.
E o Brasil, ao continuar negligenciando seus professores, declara em alto e bom som o quanto despreza o amanhã.
É preciso romper com a apatia coletiva.
Enquanto a desigualdade for tratada como destino, a educação continuará sendo administrada como caridade — e não como direito.
A urgência de um novo pacto educacional
A saída não virá de reformas cosméticas ou de slogans publicitários.
O Brasil precisa de um novo pacto educacional, baseado em três eixos fundamentais:
- Valorização integral do magistério, com salários dignos, formação continuada e autonomia pedagógica real.
- Fortalecimento da escola pública, com infraestrutura adequada e gestão democrática.
- Participação social efetiva, para que a educação deixe de ser pauta de gabinete e volte a ser tema de mobilização nacional.
A UNESCO reforça que países que priorizam professores colhem melhores índices de desenvolvimento humano, equidade social e inovação econômica.
A valorização docente não é um luxo — é o alicerce da soberania nacional.
Conclusão – O futuro que o Brasil insiste em negar
A desvalorização docente é o nó invisível que amarra o Brasil à desigualdade.
Cada salário indigno, cada escola abandonada, cada aula dada sob cansaço e descrença representa um pedaço do futuro que estamos perdendo.
Mas há, ainda, uma esperança que resiste — discreta, obstinada, quase teimosa.
Ela está na sala de aula, no gesto de quem ensina apesar de tudo, e na consciência de que educar é um ato de coragem política.
Enquanto o país não entender que valorizar o professor é investir na própria dignidade, continuará refém de sua própria ignorância.
E, talvez, esse seja o preço mais alto da desigualdade:
um país que tem medo de aprender.