A face feminina da educação brasileira
Há uma verdade silenciosa que atravessa a história da educação no Brasil: as mulheres sempre estiveram na linha de frente — mas raramente no comando.
Elas são a maioria nas salas de aula, nos corredores das escolas e nos diários de classe; porém, continuam minoria nos cargos de decisão, nos orçamentos públicos e nas narrativas políticas.
Mais de 80% do magistério brasileiro é composto por mulheres, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP, 2024).
Elas são o coração da educação nacional — e, paradoxalmente, também suas maiores vítimas.
A feminização do magistério, que poderia ser símbolo de emancipação, tornou-se o retrato mais cruel da desigualdade de gênero no país.
Por trás da imagem romantizada da “professora dedicada” esconde-se uma realidade de precarização, sobrecarga e invisibilidade.
A origem histórica da desvalorização feminina na docência
A relação entre o magistério e o feminino não nasceu por acaso.
Durante o século XIX, a educação básica passou a ser vista como uma extensão do papel doméstico, atribuído às mulheres.
Ensinar as crianças era considerado uma “vocação natural” — e não uma profissão.
Essa herança patriarcal moldou o imaginário social e o mercado de trabalho educacional:
- Se é tarefa “feminina”, pode ser mal paga.
- Se é “vocação”, não exige valorização.
- Se é “cuidado”, não merece poder.
A professora, então, foi enquadrada na lógica da maternagem simbólica, onde afeto substitui salário e abnegação substitui direitos.
Essa estrutura persiste até hoje, alimentando a dupla exploração: o machismo social e o abandono estatal.
A dupla exploração: entre o lar e a sala de aula
O termo “dupla jornada” tornou-se quase um clichê quando se fala do trabalho feminino, mas, no caso das professoras, ele assume dimensões dramáticas.
Após longas horas de aula, planejamento e correções, a maioria retorna para uma segunda jornada não remunerada, cuidando de filhos, idosos e tarefas domésticas.
Segundo pesquisa do IBGE (PNAD Contínua 2023), as mulheres brasileiras dedicam, em média, o dobro do tempo dos homens a atividades domésticas.
No magistério, essa carga se soma à exaustão emocional, ao acúmulo de turmas e à instabilidade contratual.
Como se não bastasse, a violência simbólica se disfarça de elogio:
“Professora é guerreira, é mãe de todos, é vocacionada.”
Esse discurso, aparentemente inocente, naturaliza a exploração.
Transforma o sofrimento em virtude e a negligência em reconhecimento simbólico.
No artigo “O Preço da Desigualdade: Como a Desvalorização Docente Alimenta o Atraso Nacional”, já vimos como a desvalorização docente é motor da desigualdade.
No caso das mulheres, essa desigualdade ganha gênero e rosto — e carrega marcas de classe e raça.
As intersecções entre gênero, classe e raça
Nenhuma análise sobre a educação pode ignorar as intersecções que estruturam o magistério.
A maioria das educadoras brasileiras é composta por mulheres negras, de baixa renda e trabalhadoras da rede pública, segundo o Censo Escolar (INEP, 2023).
Isso significa que a desvalorização docente tem cor e território.
Enquanto as professoras brancas das redes privadas enfrentam desafios salariais, as mulheres negras da educação pública vivem em condições de verdadeira exclusão estrutural:
- Recebem menos;
- Trabalham mais;
- Sofrem discriminação racial e sexual;
- E ainda carregam o peso histórico de uma sociedade que nunca reconheceu plenamente sua humanidade.
O feminismo branco liberal costuma celebrar a presença feminina na educação como “empoderamento”, mas, na realidade brasileira, é o sintoma da desigualdade:
as mulheres estão na base do sistema porque o topo foi reservado aos homens.
Machismo estrutural e o mito da vocação
A noção de que o magistério é um “dom” é uma das mais sutis formas de violência simbólica de gênero.
Ela despolitiza o trabalho docente e legitima salários baixos e condições precárias.
Como explica a filósofa Simone de Beauvoir, o mito do feminino como “ser para o outro” cria uma armadilha: a mulher que se doa é louvada, mas a que exige é punida.
Na escola, isso se manifesta no controle das emoções, da aparência e até da autoridade da professora — uma autoridade constantemente questionada por alunos, pais e gestores, justamente por ser feminina.
A professora é, portanto, autorizada a cuidar, mas não a comandar.
É respeitada enquanto silenciosa, e censurada quando reivindica.
É o retrato perfeito da submissão social disfarçada de doçura.
Educar e resistir: o fardo emocional invisível
Ensinar nunca foi apenas transmitir conteúdo.
É um ato afetivo, relacional e político — e, para as mulheres, isso significa carregar também o peso do trabalho emocional invisível.
A professora precisa “dar conta” do aprendizado, da disciplina, do afeto e, muitas vezes, das carências emocionais dos alunos.
Tudo isso sem apoio psicológico institucional e sem tempo remunerado para cuidar de si.
Essa sobrecarga emocional é a nova fronteira da exploração.
Enquanto o Estado economiza em políticas de bem-estar docente, as mulheres adoecem em silêncio, vítimas de ansiedade, burnout e depressão.
Um estudo da Fiocruz (2022) mostrou que as professoras da rede pública têm o dobro de incidência de transtornos mentais em relação à média nacional.
A escola, que deveria ser espaço de transformação, tem se tornado espaço de sofrimento crônico.
O Estado como cúmplice da desigualdade
Quando o Estado omite-se diante dessa realidade, ele não é neutro — é cúmplice.
A ausência de políticas de valorização docente com recorte de gênero reforça o ciclo de desigualdade.
O Plano Nacional de Educação (PNE) fala em equidade, mas sem medidas efetivas:
não há políticas salariais específicas, nem planos de combate ao machismo institucional nas redes de ensino.
A igualdade de gênero permanece como retórica em documentos e discursos, enquanto o cotidiano das escolas continua a reproduzir o patriarcado em sua forma mais bruta.
Assim, o Estado brasileiro terceiriza sua responsabilidade histórica, mantendo as mulheres professoras presas entre o dever e o sacrifício.
A romantização da docência e o apagamento político
Há um fenômeno cultural que precisa ser nomeado: a romantização da professora.
Ela aparece nas campanhas do Dia dos Professores, nos comerciais de TV e nos discursos oficiais — sempre sorridente, dedicada, maternal.
Mas esse retrato é uma armadilha.
Ele apaga o conflito político e a luta de classes que atravessam o magistério.
Ao transformar a professora em “heroína”, a sociedade evita enxergar a precarização e o machismo que sustentam o sistema.
O herói, afinal, não precisa de direitos — basta-lhe coragem.
E assim, enquanto se celebra a “missão” das professoras, o país continua a negar-lhes condições mínimas de dignidade.
O feminismo na educação: entre o discurso e a prática
Nos últimos anos, o avanço do debate sobre gênero e educação trouxe conquistas importantes — mas também resistências violentas.
O discurso da “ideologia de gênero”, amplificado por grupos conservadores, criminalizou o debate feminista dentro das escolas.
Essa ofensiva não é casual: ela busca silenciar as vozes das mulheres educadoras que ousam questionar o patriarcado.
A professora feminista, no imaginário conservador, é vista como ameaça à ordem moral, não como agente de transformação.
A filósofa bell hooks já alertava que a sala de aula pode ser um espaço radical de libertação — e é justamente por isso que ela se tornou alvo.
Ao reivindicar a igualdade e a liberdade, as mulheres professoras subvertem o papel que lhes foi imposto: o de servir, e não o de pensar.
A urgência de uma nova pedagogia feminista
Romper o ciclo da dupla exploração exige uma pedagogia feminista e emancipatória, capaz de repensar a própria estrutura da escola.
Isso implica:
- Reconhecer o magistério como trabalho político e não como vocação.
- Garantir políticas salariais e previdenciárias com recorte de gênero.
- Implementar formação continuada feminista e antirracista nas redes públicas.
- Promover a ocupação de cargos de gestão por mulheres educadoras.
- Combater o assédio moral e sexual dentro das instituições escolares.
Essas medidas não são privilégios — são condições mínimas de justiça social e reparação histórica.
Sem elas, a educação continuará sendo um espelho distorcido da desigualdade que finge combater.
Conclusão – O futuro será feminino ou não será educacional
A professora brasileira é, ao mesmo tempo, pilar e prisioneira do sistema educacional.
Pilar, porque sustenta a escola com sua dedicação e inteligência.
Prisioneira, porque é mantida cativa em uma estrutura que a explora, silencia e romantiza.
Mas há algo que nem o machismo nem o abandono conseguiram apagar:
A força das mulheres que, mesmo cansadas, continuam ensinando.
Enquanto elas existirem, a educação resistirá — e com ela, a esperança de um país mais justo.
Mas é preciso mais do que resistência: é preciso transformação estrutural, uma revolução que comece pela escuta e pelo reconhecimento.
Porque o futuro da educação brasileira será feminista, democrático e libertador —
ou não haverá futuro algum.
Fontes de referência: