A Força e o Sofrimento das Mulheres Educadoras no Brasil


O peso de uma profissão sustentada por mulheres

O Brasil é um país onde a educação tem rosto feminino. Segundo o IBGE, o magistério brasileiro é composto por mais de 78% de mulheres, número que chega a 94% na educação infantil. Elas são, portanto, a espinha dorsal da formação nacional — e, paradoxalmente, as que mais sofrem com a desvalorização, a sobrecarga e o abandono do Estado.

De acordo com o Inep, o salário médio das professoras da rede pública é 25% inferior ao dos professores homens que exercem funções equivalentes. Já o relatório da ONU Mulheres de 2024 reforça que o Brasil segue entre os países com maior disparidade de gênero em profissões de cuidado, como a docência, a enfermagem e o serviço social.

Esses números não são apenas estatísticas — são retratos de um país que romantiza o sofrimento feminino enquanto ignora o custo humano da desigualdade.
As educadoras brasileiras não apenas ensinam; elas resistem, cuidam, alimentam, acolhem e sustentam a esperança coletiva de um país que, dia após dia, insiste em testá-las até o limite.


A “força feminina” como retórica da exploração

A sociedade brasileira construiu um mito conveniente: o da mulher forte, resiliente e naturalmente capaz de suportar o insuportável.
Essa ideia — frequentemente celebrada em discursos oficiais, campanhas e manchetes — é uma armadilha ideológica. Ao enaltecer a força das educadoras, o Estado naturaliza o sacrifício e transforma o sofrimento em virtude.

É um elogio envenenado:

“Elas são guerreiras”, dizem.
“Elas dão conta de tudo.”
“Elas têm vocação.”

Mas o que se esconde por trás dessas frases é a negação de direitos.
A romantização da resistência feminina serve para justificar a ausência de políticas públicas, a precarização do trabalho docente e a negligência com o bem-estar emocional e físico das educadoras.

O resultado é uma pedagogia do sofrimento, onde a abnegação substitui o reconhecimento, e o heroísmo se torna sinônimo de exploração.


A sobrecarga invisível: o trabalho que não termina nunca

O relatório “Trabalho Docente no Brasil” (CNTE, 2023) mostra que mais de 60% das professoras levam atividades para casa diariamente, dedicando, em média, dez horas semanais não remuneradas à correção de provas, planejamento e preenchimento de relatórios.

Além da jornada escolar, há o peso do cuidado doméstico.
Segundo o IBGE – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2024, as mulheres dedicam o dobro do tempo dos homens a tarefas domésticas e cuidados familiares. Para as educadoras, isso significa uma dupla jornada exaustiva, onde o trabalho nunca termina.

E, ainda assim, a sociedade lhes cobra sorriso, paciência e afeto — como se o amor fosse antídoto para a exaustão.
É nesse contexto que nasce uma cultura de auto culpa e esgotamento, onde a professora acredita que falhou se não for capaz de suportar tudo.


A precariedade como política de Estado

A precarização do magistério não é consequência da crise econômica: é uma decisão política histórica.
Desde a década de 1990, com o avanço das políticas neoliberais e a gestão empresarial da educação, o Estado brasileiro tem transferido responsabilidades sem transferir recursos. A escola pública tornou-se campo de resistência, e as educadoras, suas guardiãs abandonadas.

As políticas educacionais tratam as professoras como mão de obra barata e infinita. Em muitos municípios, o salário-base está abaixo do piso nacional estabelecido pela Lei nº 11.738/2008, e o reajuste é constantemente judicializado.
Enquanto isso, as demandas aumentam: turmas maiores, burocracias mais complexas, metas inalcançáveis e ausência de suporte psicológico.

O Estado empurra para as professoras a responsabilidade de resolver problemas sociais que ele próprio produz: pobreza, violência, evasão, fome, racismo, desigualdade.
A professora é chamada a ser psicóloga, assistente social, mediadora de conflitos — e, quando não consegue dar conta, é acusada de não ter “comprometimento”.


A sala de aula como território de resistência

Apesar de tudo, a escola pública sobrevive — porque as educadoras resistem.
Resistem quando improvisam aulas sem material; quando acolhem alunos com fome; quando transformam escolas sem teto em refúgios de dignidade.
Resistem porque sabem que ensinar é mais do que cumprir horário — é um ato político de afirmação humana.

A educadora é a guardiã da democracia cotidiana.
Em um país que desrespeita o pensamento crítico, ela é quem defende o diálogo, a escuta e o questionamento.
Sua força está em não desistir, mesmo quando tudo desaba — e é justamente essa força que o sistema explora e esconde.

Como afirma a UNESCO, “não há qualidade educacional sem valorização docente”.
Mas, no Brasil, a valorização das professoras segue sendo um discurso vazio em meio a práticas de abandono.


Entre o amor e a exaustão: o custo emocional do magistério

O adoecimento silencioso

O sofrimento psíquico das professoras é uma das faces menos discutidas da desigualdade de gênero.
Pesquisas recentes da Fiocruz e da CNTE indicam que transtornos de ansiedade e depressão estão entre as principais causas de afastamento de docentes da rede pública, especialmente entre mulheres.

A sobrecarga emocional é alimentada por múltiplos fatores: excesso de trabalho, baixos salários, violência escolar, desrespeito institucional e a permanente sensação de impotência.
O corpo feminino é pressionado a suportar o insuportável — e quando adoece, é culpabilizado.

A educação brasileira tem um custo oculto: o da saúde mental das suas educadoras.


A dupla violência: machismo e desvalorização

O magistério é uma das profissões onde o machismo estrutural se manifesta de forma mais sutil — e, por isso, mais devastadora.
A professora é cobrada a ser maternal, paciente, cuidadosa, afetiva.
Mas, quando reivindica melhores condições, é rotulada como “radical” ou “insatisfeita”.

O discurso social sobre as educadoras é profundamente ambíguo:
São exaltadas como heroínas, mas deslegitimadas como trabalhadoras.
São lembradas no Dia dos Professores, mas esquecidas no orçamento público.
São a base da formação nacional, mas raramente ocupam espaços de decisão.

Segundo o Censo Escolar mais recente (2023), as mulheres são, na verdade, maioria esmagadora tanto no corpo docente quanto nos cargos de gestão escolar no Brasil: INEP

  • Corpo Docente: As mulheres representam aproximadamente 79,5% (quase 80%) dos professores da educação básica.
  • Gestão Escolar: A maioria dos cargos de direção também é ocupada por mulheres, totalizando cerca de 81,6% (mais de oito em cada dez gestores). SINEPE

Portanto, os dados oficiais do INEP não sustentam a afirmação de que apenas 37% dos cargos de gestão são ocupados por mulheres ou que a direção é um “privilégio masculino”. Pelo contrário, as mulheres são a força dominante tanto na sala de aula quanto na administração das escolas brasileiras.

Apesar dessa predominância em número, outros estudos e dados gerais do mercado de trabalho no Brasil apontam que, mesmo sendo mais escolarizadas e ocupando mais cargos, as mulheres ainda enfrentam desafios como a desigualdade salarial em comparação com homens em posições similares. IBGE


Raça e classe: o peso que dobra nas mulheres negras

Nenhuma análise sobre o sofrimento das educadoras pode ignorar o recorte racial.
De acordo com o IBGE – Estatísticas de Gênero 2024, mais da metade das professoras da rede pública são mulheres negras.
Elas enfrentam a tríplice opressão de gênero, classe e raça, trabalhando nas escolas mais precárias, com os menores salários e em contextos de maior vulnerabilidade social.

São as que mais sofrem com o racismo institucional, a violência simbólica e a ausência de políticas de proteção.
E, ainda assim, são as que mantêm vivo o sentido comunitário da escola pública, transformando o ato de ensinar em resistência ancestral.

Como lembra a pesquisadora bell hooks, “ensinar é um ato de liberdade”. No Brasil, para as mulheres negras, é também um ato de sobrevivência.


Entre a fé e o desalento: o cotidiano da esperança

Mesmo diante da precariedade, há algo que resiste em cada sala de aula: a fé na transformação.
A força das educadoras brasileiras não nasce da resignação, mas da esperança teimosa.
Elas acreditam no poder do conhecimento, mesmo quando o Estado não acredita nelas.

Em comunidades onde a escola é o único espaço público de acolhimento, a professora é a linha tênue entre o caos e o cuidado.
Ela é a referência moral e emocional de gerações.
Mas essa fé, quando não é sustentada por políticas públicas, se converte em sofrimento.

A esperança, sem estrutura, é uma forma de martírio.


Interlinks


O futuro que nasce do reconhecimento

Do discurso à ação

Valorizar as educadoras não é apenas uma questão de justiça — é condição para o desenvolvimento nacional.
Nenhum país pode se dizer democrático quando trata suas professoras como descartáveis.

A ONU Mulheres e a UNESCO são unânimes: a igualdade de gênero na educação é pilar essencial para o progresso sustentável.
Isso significa garantir salários justos, formação continuada, proteção emocional, políticas de equidade e o reconhecimento do magistério como profissão estratégica.

Mas, para além das políticas, é necessário um mudança cultural profunda:
Parar de romantizar o sofrimento das mulheres e começar a reconhecer sua força como direito, não como destino.


Conclusão: A força que o Brasil ainda não soube merecer

O sofrimento das educadoras brasileiras é o espelho de um país que ainda não compreendeu o valor de quem o ensina a pensar.
Essas mulheres sustentam o que há de mais sagrado em uma nação: o conhecimento.
E o fazem, muitas vezes, à custa de sua própria saúde, tempo e dignidade.

Elas não precisam de flores no Dia dos Professores.
Precisam de salário justo, voz política, respeito institucional e espaço de poder.
Precisam ser vistas — não como heroínas, mas como cidadãs plenas.

Enquanto o Brasil continuar exaltando a força das suas educadoras sem enfrentar o sofrimento que as sustenta, continuará condenado à desigualdade e à ignorância.
Porque um país que não cuida de quem educa, escolhe permanecer refém da própria miséria moral.


Referências Externas:


(Artigo por Alberto Araújo – Série “Gênero e Educação”)

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