Educação, Gênero e Desigualdade: Um Retrato do Magistério


O rosto feminino da educação brasileira

Em 2023, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) e o IBGE confirmaram uma realidade conhecida, mas raramente problematizada: cerca de 80% dos profissionais da educação básica no Brasil são mulheres. No ensino infantil, essa proporção ultrapassa 95%.
Esses números, longe de representarem empoderamento, revelam uma face cruel da desigualdade de gênero — a naturalização da mulher como cuidadora social, mesmo quando isso significa salários mais baixos, carga de trabalho desumana e ausência de reconhecimento institucional.

Segundo a ONU Mulheres (2024), o Brasil é um dos países latino-americanos onde o trabalho feminino em setores essenciais — como educação e saúde — é mais precarizado. Enquanto o magistério se torna um espaço “feminizado”, a autoridade, os cargos de gestão e as políticas de decisão continuam predominantemente masculinos.

“A feminização da docência não veio acompanhada da valorização do trabalho docente. Ao contrário, ela serviu para justificar salários menores e menor prestígio.” — Relatório ONU Mulheres Brasil, 2024


A herança patriarcal do magistério

A origem histórica dessa desigualdade remonta ao século XIX, quando o Estado brasileiro, em processo de construção da escola pública, designou às mulheres o papel de educar crianças — não como profissionais do saber, mas como extensões do lar.
A figura da professora era descrita como uma mulher “dedicada”, “piedosa” e “vocacionada”, e não como uma trabalhadora de direitos. Essa herança cultural persiste até hoje, travestida de elogio à “missão docente”.

O resultado? Um discurso que romantiza a precarização e despolitiza o sofrimento. A professora é exaltada como heroína, mas nunca ouvida como cidadã.

Essa herança machista está diretamente ligada à estrutura da desigualdade social no Brasil. O Estado — historicamente controlado por elites masculinas — mantém o magistério como profissão de sacrifício, fundamental para o funcionamento da sociedade, mas sem retorno econômico ou simbólico.


O ciclo da desvalorização: salário, carga e invisibilidade

Dados do IBGE (PNAD Contínua, 2024) revelam que professoras do ensino básico recebem, em média, 70% do salário de outros profissionais com formação superior.
No Nordeste e no Norte, essa defasagem pode ultrapassar 50%. Em estados como Maranhão e Pará, há casos em que docentes com 40 horas semanais recebem menos que o salário mínimo por aluno atendido.

Além da questão financeira, há a sobrecarga invisível: jornadas duplas ou triplas, responsabilidade emocional com os alunos e violência simbólica constante.
Segundo levantamento da CNTE (2023), mais de 60% das professoras afirmam sofrer algum tipo de violência psicológica no ambiente escolar — seja de pais, alunos ou gestores —, muitas vezes naturalizada pela cultura institucional.

Essa sobrecarga tem cor: mulheres negras e periféricas formam a base da pirâmide educacional e recebem os piores salários.
Em muitas escolas públicas, especialmente nas redes municipais, o magistério é sustentado por mulheres negras com vínculos temporários, sem plano de carreira e sem garantias trabalhistas.

“A precarização do trabalho docente é, em larga medida, um fenômeno racial e de gênero.” — Ipea, Desigualdades e Trabalho, 2023


Entre o amor e o cansaço: a pedagogia da exaustão

A imagem da professora “apaixonada pelo que faz” é amplamente usada por gestores e campanhas oficiais. Mas por trás do discurso do amor ao ensino, esconde-se uma pedagogia da exaustão.
Essa retórica serve como anestésico social: transforma a docência em missão moral, diluindo a noção de direito trabalhista.

É comum que professoras ouçam frases como:

  • “Quem ama o que faz não reclama do salário.”
  • “Educar é uma vocação, não uma profissão.”
  • “Se está difícil, é porque você não tem o dom.”

Essas falas reproduzem o imaginário da servidão feminina, presente tanto na família quanto no Estado.
Ao invocar o amor como justificativa para o sacrifício, a sociedade perpetua o abuso institucional: menos salário, mais trabalho, e nenhuma proteção.


A tríplice exploração: gênero, classe e raça

De acordo com o relatório “Mulheres e o Trabalho no Brasil” (ONU Mulheres, 2024), o magistério é um dos setores onde a interseção entre gênero, classe e raça se manifesta de forma mais brutal.
Entre as professoras da rede pública:

  • 65% são negras (pretas e pardas);
  • 78% ganham até dois salários mínimos;
  • 84% trabalham em mais de uma escola ou cargo.

Essas mulheres são a base silenciosa de um sistema educacional em colapso.
Elas garantem o funcionamento diário das escolas, a alfabetização das crianças e a sustentação de políticas públicas que não as reconhecem.
Enquanto isso, os homens — que representam menos de 20% do magistério — ocupam mais de 60% dos cargos de direção escolar e coordenação pedagógica, segundo o Inep (Censo Escolar, 2023).

Essa desigualdade hierárquica reflete uma lógica de poder antiga: as mulheres ensinam, os homens mandam.


Invisibilidade política e simbólica

Apesar de sua presença esmagadora no sistema educacional, as professoras permanecem ausentes dos espaços de formulação de políticas públicas.
Nas secretarias de educação estaduais e municipais, as decisões estratégicas ainda são dominadas por homens brancos de classe média alta.

A invisibilidade simbólica é outro componente do problema: a professora raramente é representada como intelectual, pensadora ou agente política.
Quando aparece na mídia, é como vítima, mártir ou personagem idealizada.
Essa representação reforça a exclusão epistêmica das mulheres educadoras — elas são a base do saber, mas não reconhecidas como produtoras de conhecimento.

O filósofo Paulo Freire, em Pedagogia da Autonomia, já advertia:

“Ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho. Os homens se educam em comunhão.”

Mas essa comunhão, quando atravessada por relações de gênero, se converte em dominação silenciosa.
As professoras seguem educando, mas raramente são ouvidas.


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O Estado como perpetuador da desigualdade

A desigualdade de gênero no magistério não é apenas reflexo cultural — é também política de Estado.
Os baixos salários e a ausência de investimento na carreira docente funcionam como mecanismos de controle social e fiscal.
O discurso do “ajuste orçamentário” serve, em muitos casos, como instrumento de manutenção da hierarquia patriarcal.

Em 2024, o Banco Mundial publicou o relatório “Education at a Crossroads”, destacando que o Brasil investe proporcionalmente menos na remuneração docente do que países com desempenho educacional semelhante.
Mesmo quando há aumento de orçamento, a maior parte vai para infraestrutura, tecnologia e gestão — não para quem ensina.

Esse modelo perpetua uma divisão simbólica do trabalho educativo:

  • o Estado planeja (homens no topo da pirâmide);
  • as mulheres executam (professoras na base).

É uma pedagogia da desigualdade travestida de política pública.


Quando o trabalho docente se torna resistência

Apesar de toda precarização, o magistério feminino também é um espaço de resistência política.
As professoras, historicamente, lideram movimentos sindicais, greves e pautas de transformação social.
Desde as manifestações pela redemocratização até as recentes marchas contra o desmonte da educação pública, as vozes femininas têm sido o pulso da resistência docente.

Segundo a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), mais de 70% das lideranças sindicais locais são mulheres — embora continuem sub-representadas nos cargos de direção nacional.
Essa contradição revela uma força silenciosa: a mulher professora é, ao mesmo tempo, o pilar e o protesto do sistema educacional.

O saber e o silêncio: quando as mulheres educam o mundo e o mundo não escuta

Há uma ironia amarga na paisagem educacional brasileira: quanto mais as mulheres ocupam as salas de aula, menos são vistas como intelectuais.
Em um país onde a docência se tornou profissão feminina, o conhecimento perdeu prestígio social.
O que deveria ser símbolo de emancipação tornou-se sinônimo de “trabalho leve”, “vocação”, “cuidado”.
Esse é o paradoxo da feminização do magistério: o que é essencial para o futuro é tratado como secundário no presente.

A professora não é apenas mediadora do saber — é a guardiã da memória social, a primeira a abrir o mundo para milhões de crianças.
No entanto, a sociedade a recompensa com invisibilidade.
Ela ensina, mas não é citada.
Ela alfabetiza, mas não é lembrada.
Ela sustenta o país, mas segue sem voz nas decisões que definem o destino da educação.


O apagamento simbólico e o custo da indiferença

Quando se fala em “educação”, raramente se fala em quem educa.
Os debates sobre inovação, tecnologia e desempenho escolar costumam tratar os professores como variáveis abstratas, não como sujeitos de carne e osso.
Essa abstração é funcional: ela desumaniza o trabalho docente, transformando-o em um dado estatístico e, portanto, em algo descartável.

A indiferença social diante da precarização das professoras é uma forma de violência institucional.
E toda violência institucional é, antes de tudo, uma forma de negação da humanidade.


A esperança como forma de resistência

Mas há algo que o sistema não consegue anular: a esperança que habita cada ato de ensinar.
Mesmo sob exaustão, há uma ética silenciosa que move essas mulheres.
É o gesto que acolhe, a palavra que transforma, o olhar que reconhece o outro.
É uma esperança ativa, não ingênua — a esperança freiriana de quem compreende que ensinar é também um ato político de resistência.

A professora resiste porque sabe que o seu trabalho, embora invisível, é o fundamento de toda cidadania.
Ela ensina apesar do Estado, apesar do patriarcado, apesar da desigualdade.
E é nesse “apesar” que reside sua força revolucionária.


Um chamado à escuta

O Brasil só será verdadeiramente democrático quando ouvir suas educadoras.
Não basta homenageá-las no Dia do Professor, nem chamá-las de heroínas em campanhas publicitárias.
É preciso remunerar com justiça, garantir condições de trabalho, promover igualdade racial e de gênero, e sobretudo, reconhecer o magistério como profissão de pensamento.

Cada sala de aula é um microcosmo de país.
E em cada professora há um projeto de futuro que insiste em florescer, mesmo em solo árido.
Ignorá-las é condenar o Brasil a repetir seu próprio atraso.
Ouvi-las — finalmente ouvi-las — é o primeiro passo para reconstruir a educação como ato de liberdade.


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