Professoras e Maternidade: A Vida de Quem se Divide Entre Dois Cuidar

Introdução

No cotidiano da escola, a figura da professora já carrega consigo responsabilidades múltiplas — preparação de aulas, correção de tarefas, acolhimento de estudantes, mediação de conflitos, além da exigência de inovar e cumprir metas.
Quando a mulher que ensina torna-se mãe, o cenário se complica: ela passa a administrar dois cuidar — o da sala de aula e o do lar — em uma rotina que raramente é reconhecida como trabalho profissional, muitas vezes sendo naturalizada como extensão da condição feminina.
Este artigo mergulha nessa tensão: entre ladainhas de valorização docente, retórica política e a realidade real das professoras-mães no Brasil. Com tom crítico, empático e urgente, por que é preciso finalmente enxergar que educar e cuidar não são missões de voluntariado, mas profissões sociais estruturantes que exigem política, justiça e ação.


1. A feminização da docência e o peso invisível da maternidade

As estatísticas falam por si: as mulheres compõem cerca de 79% do corpo docente da educação básica brasileira — ou seja, 1,8 milhões de professoras de um total de mais de 2,3 milhões de docentes.
Na educação infantil, esse percentual é ainda mais acentuado, chegando a quase totalidade. E, apesar dessa predominância feminina, a valorização estrutural — em salário, jornada, reconhecimento — permanece aquém do que a sociedade exige de uma função tão vital.

No entanto, há um dado que muitas vezes fica oculto por trás desse número: a sobreposição de papéis que muitas professoras acumulam. Ensinar pode significar também cuidar — da aprendizagem, das emoções dos alunos, das tarefas extras. Ao virar mãe, essa professora abre outro front: cuidar da criança, da casa, da rotina doméstica.
É aqui que o “dividir entre dois cuidar” deixa de ser metáfora e se torna rotina exaustiva.


2. Quando o lar e a escola convergem: dupla jornada, dupla invisibilidade

Imagine o cronograma de uma professora-mãe: manhã na escola, tarde planificando, noite corrigindo. Ao fim, ela volta para casa, retoma o papel de mãe: alimentar, dar banho, acompanhar lição, acalmar medos. No fim de semana, talvez acompanhe filho ao médico, organize casa, planeje a semana escolar.
E tudo isso enquanto a profissional exige-se “estar inteira” na sala de aula, dar o seu melhor, inovar, cumprir metas e ainda se ajustar a uma estrutura educacional que frequentemente oferece poucas condições de trabalho.

A jornada dupla da professora-mãe é legitima e complexa. O Estado e as políticas públicas, no entanto, raramente abordam essa interseção entre docência e maternidade de forma articulada. É como se a maternidade fosse tratada como “hora extra não contabilizada” — enquanto a docência permanece subvalorizada e desprovida de garantias reais.
E o resultado? Aumento da sobrecarga, estresse, adoecimento — um desgaste que não é individual, mas sistêmico.


3. A maternidade que não se encaixa no plano de carreira docente

Uma professora mãe lida com contradições: como preservar sua identidade profissional e ainda atender à expectativa social de mãe “presente”? Como buscar qualificação, liderar sala de aula, e ainda atender aos cuidados domésticos? Como manter sua carreira ativa quando a política pública não reconhece esta interseção?
Recente pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) analisou justamente essa interseção entre maternidade e docência, mostrando que a identidade profissional da professora se constrói a partir desse “entre” — nem só mãe, nem só docente, mas ambas e mais.
Esses estudos apontam para o fato de que a maternidade não é apenas uma fase da vida, mas atravessa o percurso profissional e a permanência da mulher na profissão docente.

Entretanto, as políticas de carreira docente — concursadas, estáveis ou não — geralmente não incorporam este debate. Fardos como licença-maternidade reduzida, falta de creche ou suporte à mãe trabalhadora, jornadas que não consideram responsabilidades familiares, permanecem invisíveis.
A consequência? Muitas professoras optam por reduzir horas, abandonar projetos, ou mesmo sair da carreira — uma perda dupla: para elas, e para a escola que fica sem profissional atenta e qualificada.


4. As contradições do discurso político e a realidade vivida

Governos e secretarias de educação falam em “valorização do magistério”, em “capacitação docente”, em “programas de incentivo”. No discurso, a educação é prioridade. Na prática, a condição da professora-mãe permanece desesperadora: turmas grandes, carga de correção elevada, salários defasados, e nenhum suporte real para a conciliação entre vida profissional e pessoal.
Enquanto isso, o Estado aceita a invisibilidade da dupla jornada. Trata-se como se a professora que também é mãe tivesse de “dar conta” sozinha. Como se o fato de ensinar fosse suficiente para dispensar políticas que reconheçam o cuidado.

Além disso, muitas vezes a “missão” da professora é usada como argumento para baixos investimentos: “professor tem vocação”, dizem. Como se vocação excluísse salário digno, jornada compatível, direitos e reconhecimento social.
Essa retórica — de que a mulher‐professora­-mãe é “natural” — funciona como mecanismo político de imposição de tarefas que ultrapassam o papel profissional, contaminando-o de expectativas de cuidado doméstico não remunerado.


5. Altos custos pessoais: saúde, carreira, identidade

A pesquisa “Docência e maternidade: uma análise da precarização do trabalho e da vida de professoras do ensino superior em tempos de pandemia” da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro‑Brasileira (UNILAB) aponta que as professoras mães sofreram intensificação da precarização no trabalho — casa e escola convergiram durante a pandemia, e os limites se tornaram porosos.
Tais elementos têm custos tangíveis: adoecimento físico e emocional, sentimento constante de culpa — por não dar “100 %” em nenhuma esfera —, abandono da carreira ou estagnação profissional, estigmatização (“a professora que já tem filhos não consegue se dedicar”).
Além disso, a identidade profissional da mulher que ensina e cuida fica corrompida por expectativas irreais: espera‐se que seja competente no trabalho, presente em casa, emocionalmente estável — tudo isso em um cenário de falta de reconhecimento e suporte.


6. A maternidade como fator de desigualdade de gênero na educação

Quando se conjuga gênero e docência, a maternidade aparece como um fator crítico de desigualdade. Ela não é apenas uma escolha pessoal — é uma estrutura que afeta diretamente a carreira, a permanência e as condições de trabalho das mulheres na educação.
Enquanto muitos homens professores podem ter respaldo doméstico ou menos cobrança de “presença emocional”, as mulheres professoras enfrentam julgamentos mais severos, cobranças de dedicação total, invisibilidade das demandas domésticas e profissionais que se mesclam.
Os dados mostram que a maternidade afeta negativamente a trajetória profissional da mulher em diversos campos. Em um levantamento sobre pesquisadoras, 81 % relataram impacto negativo da maternidade na carreira.
Se isso já acontece no ambiente universitário, imagine na educação básica — com jornadas extensas, pouca autonomia e pressão de resultados. A maternidade se transforma, para muitas professoras, em barreira silenciosa, institucionalizada.


7. Quem cuida de quem ensina? Suporte insuficiente, políticas ausentes

O Estado brasileiro, via suas políticas públicas, permanece omisso frente à especificidade da professora-mãe. Algumas demandas essenciais que permanecem quase invisíveis:

  • Licença-maternidade compatível com a rotina docente, que leve em conta planejamento, adaptação e não apenas interrupção da tarefa.
  • Políticas de creche ou apoio infantil para professoras, especialmente em jornadas intensas ou pós-expediente.
  • Flexibilidade na carga de planejamento, correção e contato com pais, que considere a condição de mãe.
  • Programas de suporte emocional, saúde mental e acolhimento para as professoras que acumulam funções.
  • Valorização salarial e estrutural — não apenas “bônus” ou reconhecimento simbólico — mas carreira com equidade, perspectiva e condições justas.

A falta desses mecanismos demonstra que a professora-mãe ainda é tratada como “problema individual” e não como parte integrante da política de educação. E isso tem consequências graves para a escola, para os estudantes e para o próprio país.


8. Impactos na qualidade da educação e no futuro da escola

Quando uma professora-mãe está sobrecarregada, exausta ou invisibilizada, quem perde? Perdem os alunos, que recebem menos planejamento, menos inovação, menos vínculo; perde a escola, que vê a rotatividade aumentar; perde o país, que precisa de educação de qualidade para sustentar democracia, equidade e desenvolvimento.
Mais ainda: quando a docente-mãe se torna símbolo de “dedicação heroica” sem condições, cria-se um padrão que normaliza o trabalho excessivo e a falta de suporte. A qualidade da educação se esgarça — em turmas maiores, menos recursos, professores cansados.
Por isso, ao falar de valorização do magistério, é urgente incluir a maternidade, o cuidado e a realidade das mulheres que ensinam como eixo central — e não como adendo. Pensar na professora-mãe como vetor de qualidade educacional significa tratar educação, cuidado e família como política pública integrada.


9. Caminhos para mudança: políticas, cultura e valorização

9.1. Reconhecer a professora-mãe como sujeito de política

É necessário que o planejador de educação considere mulher, mãe e professora como pontos de interseção — não como “um a mais”. Inserir recorte de gênero e maternidade nos planos de carreira e nas políticas de educação.

9.2. Reduzir a carga não-remunerada

Eliminar tarefas burocráticas excessivas, garantir tempo para planejamento e correção, e considerar essa carga como parte do contrato e do reconhecimento profissional.

9.3. Implementar suporte ao cuidado

Creches acessíveis, licenças compatíveis, horários que não penalizem a maternidade — essas medidas são fundamentais para permitir que a docente-mãe atue com excelência e dignidade.

9.4. Valorização salarial real e equitativa

Não basta equidade de gênero na contratação — é preciso reconhecer que a maternidade e o cuidado trazem desafios extras e, portanto, requerem políticas compensatórias e reconhecimento justo.

9.5. Transformar a cultura institucional

Romper com a narrativa da “professora que dá conta de tudo” e construir uma cultura que respeite limites, reconheça o cuidado e valorize o humano por trás da lousa. A escola como espaço de ensino também deve ser espaço de vida digna para quem ensina.


Conclusão: O cuidar que merece reconhecimento

“Professoras e Maternidade: A Vida de Quem se Divide Entre Dois Cuidar” é mais do que um título — é a urgência de uma agenda invisibilizada. Essas mulheres dedicam-se diariamente a construir futuros enquanto gerenciam lares. Elas não são super-heroínas, mas profissionais que exigem condições de trabalho dignas, reconhecimento real e políticas estruturadas.
Quando o sistema educacional as ignora, o impacto recai sobre toda a sociedade. Educar sem reconhecer as professoras-mães é educar pela metade. Valorizar a docente-cuidadora é investir no Brasil inteiro.
Que a política pública se acorde para isso. Que os discursos se convertam em atos. E que a professora-mãe seja não mais dividida entre dois cuidar — mas apoiada, respeitada e incluída. Porque cuidar e ensinar são funções sociais essenciais — e cabe ao Estado, à comunidade e à sociedade garantir que quem ensina e cuida também seja cuidado.

Se você é professora mãe, compartilhe sua história. Se é gestor(a) ou formulador(a) de políticas, ouça-a e transforme essa realidade em prioridade. A educação se fortalece quando quem ensina também é cuidada.

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