O Racismo e o Machismo Dentro da Sala de Aula


Introdução

Quando olhamos para a escola como espaço de formação e esperança, é angustiante perceber que, para muitas alunas e alunos, esse ambiente ainda reproduz as opressões que deveriam transformar. O casal de chagas ­– racismo e machismo – invade salas de aula, quadros, cantos de lazer e corredores, corroendo a promessa de liberdade que a educação deveria cumprir. Este texto denuncia a omissão política, a lentidão institucional e a resistência invisível de tantas educadoras e professores que tentam virar o jogo. Porque não basta que a escola exista — ela precisa ser de fato antirracista, antifeminista-machista, democrática e justa.


O panorama da sala de aula brasileira

Racismo no interior do espaço escolar

Uma recente pesquisa do Observatório Fundação Itaú em parceria com a Equidade.Info revela que 54% dos professores brasileiros já presenciaram casos de racismo entre alunos nas salas de aula. anoticiaal.com.brTV BrasilRádio Itatiaia A incidência é ainda mais alta no Ensino Fundamental II, chegando a 67%. Sociedade OnlineEducação Integral Entre professores negros, a percepção é de 56%, enquanto entre os brancos é de 48%. UOL Notícias
Também foi observado que a sensação de acolhimento dos estudantes diminui à medida que avançam nas etapas da educação: 86% no Ensino Fundamental I afirmam sentir-se acolhidos, mas esse índice cai para 77% nos anos finais e para 72% no Ensino Médio. Rádio Itatiaia Esses números trazem à tona que o racismo na escola não é pontual — é estrutural.

Machismo não declarado, mas presente

O machismo dentro do ambiente escolar muitas vezes é invisível porque se disfarça em micro-violências, piadas “inocentes”, desvalorização das alunas, invisibilidade de seus corpos, trajetórias e vozes. Em estudo realizado com alunas de um instituto federal no Rio Grande do Sul, foi identificado que as violências de gênero continuam a permear o cotidiano acadêmico, apesar dos avanços retóricos na igualdade de gênero. Editora Realize Em algumas regiões, apenas 15,8% das unidades escolares relatavam trabalhar com projetos que abordam o machismo. Agência Pará Assim, o machismo muitas vezes se mantém porque não é visibilizado, não é nomeado — e, sem nomear, não se enfrenta.

A articulação entre racismo e machismo

O que vemos é que essas duas opressões — racismo e machismo — não atuam de forma isolada dentro da sala de aula, mas se reforçam mutuamente. Uma aluna negra, por exemplo, está duplamente exposta: ao racismo por sua cor ou ascendência, ao machismo pela sua condição de mulher. A invisibilidade da interseção (raça + gênero) torna-se terreno fértil para abandono, invisibilização, silenciamento e precarização. Politicamente, é mais fácil tratar “igualdade de gênero” ou “combate ao racismo” separadamente — mas essa separação silencia quem está nos dois grupos.


Crítica política e institucional

Falta de prioridade orçamentária e de implementação real

Quando governos anunciam “valorização da educação”, “combate às desigualdades” e “inclusão social”, a concretude dessas promessas esbarra em realidade: currículos que não incorporam a história da população negra, disciplinas que esquecem de incluir gênero, falta de formação das e dos docentes para lidar com racismo e machismo no cotidiano, e ausência de monitoramento eficaz sobre esses temas. A política pública se resume a slogans enquanto a sala de aula permanece um território hostil para muitas alunas e alunos.

Formação docente deficiente para o enfrentamento

Se mais da metade dos professores afirmam ter presenciado casos de racismo e mais de 1 em cada 5 professores brancos declara não saber o que fazer em tais situações, então há um déficit brutal de formação, preparo e apoio institucional. Noticia Preta – NP A negligência aqui não é apenas omissão: é conivência. Quando se capacita mal quem atua no cotidiano da educação, deixa-se o caminho livre para micro agressões, para o silêncio, para o abandono.

Direção e representatividade ausentes

É simbólico e concreto: quantas diretoras e diretores, supervisores e supervisoras, coordenadores e coordenadoras de escola são mulheres negras ou pessoas que vivenciaram racismo e machismo? Quando a gestão escolar não reflete a diversidade, as políticas institucionais dificilmente serão sensíveis à realidade que manifestamente está presente nas salas de aula. A ausência de representatividade gera invisibilidade, e a invisibilidade gera tolerância — e a tolerância, perpetuação.


A escola como espaço de resistência e transformação

Professores como agentes de mudança

Apesar das adversidades, existem educadoras e educadores que resistem: que decoram suas salas com representações diversas; que abordam o racismo e o machismo explicitamente; que convidam alunas e alunos a pensar sobre cabelo, raça, roupa, gênero; que estruturam rodas de diálogo; que rompem o silêncio e criam espaços de empoderamento. Esses gestos são menores em escala, mas imensos em significado. A política pública deveria reproduzir, escalar e apoiar esses exemplos — mas muitas vezes atira água fria sobre eles.

Alunas e alunos que se formam na resistência

Para muitas jovens, o simples ato de entrar na escola é um ato de resistência; o ato de continuar nela, de concluir, de ousar falar, de questionar, já é vitória. Quando uma moça negra pergunta “por que eu não vejo minha cor, minha história, meu cabelo retratados aqui?”, ela também está exigindo dignidade. A escola que cala essa pergunta está permitindo que o racismo e o machismo se façam invisíveis.

A comunidade e o currículo como espaços de luta

Um currículo que ignora a história afro-brasileira, que naturaliza homens brancos como protagonistas e mulheres negras como coadjuvantes, que não questiona os papéis impostos pela sociedade — esse currículo é parte do problema. Portal Em Tempo As escolas que promovem projetos com cultura, arte, diálogo, identidade, gênero e raça ampliam o poder de transformação. A comunidade, a família, a escola: todos devem estar mobilizados.


O que deve mudar — propostas concretes

Currículos integrados e obrigatórios contra racismo e machismo

Além da obrigatoriedade da Lei 10.639/03 (ensino da história e cultura afro-brasileira e africana) e da Lei 11.645/08 (ensinando também história indígena), é preciso que a lei contemple formação humana, gênero e sexualidade, enfrentamento ao machismo, práticas democráticas de sala de aula, desconstrução do racismo institucional. As escolas precisam de materiais atualizados, representativos e realístas.

Formação docente contínua e obrigatória

A formação inicial e continuada dos professores deve incluir obrigatoriamente módulos sobre racismo, machismo, interseccionalidade, micro-violências, práticas pedagógicas inclusivas e reflexivas. Os professores não podem mais “não saber o que fazer” em casos de racismo ou machismo — afirmar desconhecimento, numa instituição que se propõe educativa, é uma falha institucional inaceitável.

Monitoramento, avaliação e responsabilização

As secretarias de educação — municipais, estaduais e federais — devem implementar indicadores específicos sobre racismo e machismo nas escolas: número de casos, protocolos de ação, formação docente, permanência de alunas negras, evasão por gênero, denúncias atendidas, condições de acolhimento. A invisibilidade dos dados favorece a perpetuação da situação.

Valorização simbólica e efetiva de diversidade

Além de infraestrutura, materiais pedagógicos, formação e currículo, a escola precisa visibilizar a diversidade racial e de gênero no seu dia a dia: fotos, livros, cartazes, currículos que retratem mulheres negras e homens negros como protagonistas, assim como meninas e meninos de todas as identidades de gênero. A valorização simbólica cria clima, pertencimento, autoestima — fatores essenciais para sucesso educacional.

Participação ativa de estudantes, famílias e comunidade

Os principais protagonistas da escola são as estudantes e os estudantes. Permitir que meninas e meninos expressem, questionem, constituam espaços de diálogo — e que famílias e comunidade participem — é essencial. O machismo e o racismo se mantêm porque se reproduzem também fora da escola; portanto a escola precisa se abrir para além dos muros.


Um chamado à ação política e social

Políticos que anunciam “Educação como prioridade” precisam entender que isso vai além de alocar verba ou reformar prédios. Educação de qualidade exige transformação social, foco em equidade, enfrentamento de opressões históricas. Quem ignora que machismo e racismo se manifestam dentro da sala de aula está perpetuando o problema — não o resolvendo. Aos secretários de educação, às diretoras e diretores de escolas, às coordenações pedagógicas: a hora é agora. O silêncio institucional já declarou sua cumplicidade demais.

A sociedade civil, os sindicatos, as entidades de apoio ao professorado e as redes de estudantes precisam manter o foco e a pressão: queremos escolas livres de racismo e machismo. Queremos professoras e professores preparados. Queremos meninas vendo refletida sua cor, seu gênero, sua voz — e meninos entendendo que o patriarcado e o racismo também os aprisionam. Não deleguem essa luta apenas à comunidade escolar — ela é uma responsabilidade coletiva.


Considerações finais

“O Racismo e o Machismo Dentro da Sala de Aula” não é apenas tema para denunciar — é chamada para transformar. A educação brasileira permanece vulnerável se

  • não reconhecer que o racismo se reproduz nas interações cotidianas da escola;
  • não aceitar que o machismo se disfarça mas existe em silencios, piadas, invisibilização;
  • não entender que enfrentar essas opressões requer políticas públicas, formação e mudança cultural simultâneas.

Enquanto políticas públicas e discursos festivos continuarem ignorando o cotidiano das alunas e alunos que vivem racismo e machismo, estaremos mantendo um sistema que marginaliza metade ou mais da garotada — e, ao fazê-lo, comprometendo o futuro de todos nós. Porque uma escola que deixa meninas negras, meninas pobres, meninos negros e de periferia para trás não educa — ela reproduz iniquidades.

Se não for agora — quando será? Se não for nós — quem será?
Que a sala de aula brasileira pare de exigir que quem sofre calado resista sozinho. Que ela comece a exigir mudanças. Que ela se torne, finalmente, o espaço promissor que deveria ter sido. Que professores e professoras sejam realmente apoiados. Que as alunas possam dizer “eu pertenço aqui”. Que os alunos entendam que igualdade é verbo, não utopia.


Links úteis para consulta

  • Pesquisa sobre casos de racismo entre alunos nas escolas brasileiras (Observatório Fundação Itaú / Equidade.Info): link
  • Estudo sobre (micro)violências de gênero no ambiente escolar: link
  • Artigo sobre escolas em Parauapebas que debatem racismo e machismo: link

Deixe um comentário