Em meio ao turbilhão da política brasileira, entre discursos de promessas vazias e cortes orçamentários que ferem a alma da educação pública, ergue-se uma força que pulsa, resiste e revela — a da categoria docente. São professores e professoras que, no cotidiano da sala de aula, enfrentam não apenas o desafio de ensinar, mas de sustentar a esperança e cultivar a resistência. Este texto é para eles. É para que suas vozes sejam ouvidas. É para que o silêncio imposto por governantes e gestores neoliberais seja rasgado por marchas, greves, diálogos e transformações.
1. Brasil: uma longa ficha de descaso
Quando analisamos o cenário educacional do país, deparamos com uma realidade que grita: décadas de desvalorização, condições precárias, superlotação em salas de aula, remuneração defasada e ausência de políticas consistentes para garantir que o ensino público se fortaleça como instrumento de justiça social, mobilidade e emancipação. Nesta ocupação política de sentidos, os professores não podem — e não devem — ser vistos apenas como executores de tarefas. Eles são sujeitos políticos, atores essenciais na construção de um projeto civilizatório que ainda teima em não se concretizar.
No caso das redes estaduais, como em São Paulo, a greve dos professores do estado se tornou a maior da história da categoria, com mais de 83 dias de paralisação e pautas que ultrapassam o reajuste salarial, atingindo a qualidade da educação e a dignidade do trabalho docente. Partido dos Trabalhadores
Nas universidades federais, a mobilização docente recente destacou-se por enfrentar não apenas arrocho salarial, mas a tentativa de captura do movimento sindical por correntes governistas. Adusp
E ainda: movimentos históricos, como a greve de 1979 no Rio de Janeiro, emergiram em plena ditadura para afirmar que “educação é direito” e que professores eram, também, resistência política. Seperj
Não se trata de invocar a luta por si mesma — trata-se de reconhecer que, em cada interrupção de aula, em cada faixa carregada, em cada voz levantada num auditório, há uma denúncia firme: os políticos falharam. Falharam com a educação, falharam com a democracia, falharam com o futuro desta nação.
2. Resistência: mais que palavra, atitude
“Resistência” não é mero figura de linguagem. É ato concreto. É obrigar a máquina pública a negociar. É fazer com que pautas históricas — carreira, titulação, conciliação entre ensino, pesquisa e extensão, condições de trabalho, infraestrutura escolar — deixem de ser segredos de gabinete e passem a ser reivindicações sociais. Um exemplo recente está com os professores da rede pública do Distrito Federal: após 22 dias de greve, conseguiram arrancar do governo local uma proposta mínima que reconheceu parte de suas demandas.
Mesmo com recuos parciais, há a evidência de que quando o professorado se movimenta, quando as vozes se congregam na rua, nas assembleias, os governos são forçados a recuar. Esta força coletiva, porém, exige organização, coragem, solidariedade — e sobretudo: visão.
Mas há a contrapartida amarga: políticos e gestores educativos que, com sorriso protocolar e microfone na mão, fazem discurso em defesa da educação pública, enquanto dissolvem no orçamento a possibilidade de condições dignas para os professores. São promessas que se acumulam e se transformam em letras mortas. É a política que ignora os atores da educação e deixa que a escola se torne depósito de precariedade.
3. Esperança: o horizonte a manter
Se a resistência ocorre no presente, a esperança aponta para o futuro. E a esperança não é ingenuidade: ela se funda na confiança de que outra educação é possível — uma educação pública, laica, gratuita, de qualidade, com professores valorizados e autonomia real de criar, ensinar, inovar.
Quando professores decidem cruzar os braços, saem para marchar, ocupam auditórios e redes sociais, não o fazem apenas para garantir aumento de salário: fazem para que se garanta aos estudantes uma trajetória de vida melhor, e à sociedade um tecido coletivo mais robusto. Eles sonham — e lutam — por escolas onde cada criança tenha condições de se desenvolver, aprender e protagonizar seu destino.
A fé nessa transformação se constrói também na memória: lembrar das greves de 1980, das associações docentes que se ergueram em plena ditadura, da história esquecida de quem lutou para que a universidade pública resistisse. Por exemplo, a greve de 1980 que envolveu 19 universidades autárquicas e 7 escolas isoladas reivindicava reajuste salarial, plano de carreira e 12% do orçamento da União para a educação. adufepe.org.br
Esse legado nos diz que resistir no presente não é ato isolado — é continuação de uma longa caminhada coletiva pela dignidade docente e pela educação como bem social.
4. Crítica política e social: porque a educação não sobrevive no vácuo
Políticos que reduzem a educação a slogan vivem de falácias. É preciso olhar para os números reais, para as decisões orçamentárias, para os cortes, para a adoção de contratos temporários que precarizam o magistério, para a superlotação, para o descaso com infraestrutura. Todos esses sintomas refletem uma escolha política — não falta de verba por acaso.
Quando gestores ignoram as salas de aula, quando fecham concursos, terceirizam professores, rejeitam reajustes, tratam a educação como custo e não como investimento — eles demonstram uma visão retrógrada: a de que educação de qualidade não é prioridade. E é sobre isso que incide a crítica.
As greves docentes não são “problema” do governo — são sintoma de que a política educacional falhou. Quando sentenciamos que “professor ganhou aumento” como argumento de que “tudo vai bem”, estamos evitando olhar para o abismo que permanece. O abismo da equidade, da permanência, da qualidade, da interdisciplinaridade e da formação cidadã.
Por isso, a crítica deve ser firme, empática — com os professores — e contundente — contra os que atuam como se a educação fosse gasto e não investimento. A esperança que alimentamos não pode ser cooptada por discursos vazios. E a resistência tem que ser estratégica, pública, visível.
5. Caminhos para além da greve: propostas e compromisso coletivo
- Valorização da carreira docente: criação, implementação e monitoramento de planos de carreira, titulação, concursos públicos, estabilidade. Sem isso, a docência vira território da precariedade.
- Investimento público robusto na educação: não apenas na remuneração, mas em infraestrutura, laboratórios, bibliotecas, escolas em bom estado, acesso digital, e especialmente, tempo para que o professor planeje, estude e se recupere.
- Dialogo efetivo entre governo, sociedade e professores: greves e marchas são instrumentos legítimos, mas não podem substituir o canal permanente de negociação que exige transparência, participação e resultado.
- Educação como política de Estado, não de governo: para que não seja desmantelada a cada mudança de administração. Isso requer compromisso institucional, com metas claras, orçamento vinculado, fiscalização do cumprimento.
- Reconhecimento do ensino como trabalho intelectual: professor não é funcionário de apoio – é agente de transformação. O tratamento profissional e salarial deveria refletir isso.
6. Por fim: um chamado à ação
A pluma de um professor escreve mais que uma lição de casa. Escreve futuro. A voz de um docente, num corredor de escola, num auditório ou numa marcha, ecoa mais que reivindicação: ecoa resistência. A esperança se faz não apenas no ato de ensinar, mas no ato de lutar para que ensinar seja digno.
Se você é professor, docente universitário, estudante ou cidadão que acredita em educação como pilar da democracia — não se cale. Orgulhe-se da categoria, apoie-a, faça dela pauta sua também. E aos governantes e parlamentares que se escondem atrás de métricas e discursos para justificar o não-ato: saibam que a sociedade os está observando — e que a educação pública não será silenciada.
Porque nesta história — a da classe docente — cada greve, cada marcha, cada discurso e cada sala de aula ocupada reivindica: resistir hoje para que possamos, todos juntos, esperar um amanhã mais justo.
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