A Resistência do Magistério Frente ao Descaso Político


Introdução

É com indignação e também com esperança que olhamos para os corredores longos e silenciosos das escolas públicas brasileiras, para as salas improvisadas, para o olhar dos professores que continuam a resistir mesmo quando parece que o mundo esqueceu que eles existem. Neste texto, dedicado ao tema “Resistência e Esperança”, voltamos nosso foco para o magistério — aqueles que, apesar das promessas vazias de tantos políticos, seguem firmes na missão de lecionar, formar, cuidar — e que ainda hoje enfrentam o descaso institucional, os cortes de investimento, a banalização da educação pública.

A crítica que fazemos é dura: não se trata apenas de exigir melhores salários ou infraestrutura decente — embora isso seja urgente — mas de cobrar uma mudança de paradigma na política educacional, um compromisso real com o futuro das crianças, adolescentes e jovens deste país. A esperança, por sua vez, reside na coragem de professores, servidores, famílias, comunidades escolares que recusam o silêncio e permanecem ativos na luta.


1. O cenário atual: educação sob ataque

Vivemos uma fase em que a educação pública, a escola como direito social, está postergada, marginalizada, invisibilizada pela maioria dos agentes políticos. Vejamos alguns dados e fatos que corroboram essa realidade:

  • Segundo reportagem da Nature, mais de 60 universidades federais brasileiras enfrentaram greves de docentes e técnicos, exigindo melhores salários e infraestrutura digna. Nature
  • A Education International (EI) divulgou que, em 2020, uma greve nacional da educação no Brasil foi convocada contra cortes de orçamento e medidas de precarização do ensino público. Education International
  • Em São Paulo, professores relataram que o retorno presencial às aulas foi exigido pelas autoridades municipais sem garantir segurança sanitária, condições mínimas de trabalho e infraestrutura adequada. Progressive International

Esses exemplos expõem que o problema vai além de “falta de verba”: revela-se um projeto político de educação que não valoriza quem ensina, tampouco quem aprende; que trata a escola como enfeite, como subsídio para outros interesses, e não como pilar de cidadania e transformação social.


2. Os professores: entre a exaustão e a esperança

É nesse contexto que os profissionais da educação — professores, auxiliares, técnicos, gestores escolares — desempenham seu papel essencial. Mas podem fazê-lo com dignidade? Com reconhecimento?
Os desafios são múltiplos: salas com infraestrutura precária, falta de recursos didáticos, turmas superlotadas, baixos salários, instabilidade de carreira e falta de autonomia. Ainda assim, muitos permanecem. Por quê? Porque acreditam na potência da educação como instrumento de justiça social, na capacidade formativa de uma aula bem dada, no vínculo com os alunos.

E essa crença torna-se resistência. Resistência quando se recusa a aceitar currículo imposto sem participação; resistência quando se organiza para exigir reajuste salarial, melhores condições; resistência quando defende a educação pública frente ao discurso de privatização e mercantilização.

Mas não basta resistir: a esperança se mantém porque existem ações coletivas, mobilizações, professores que protagonizam novas formas de ensino, redes que se articulam, comunidades escolares que se recusam ao abandono.


3. O papel (ou a omissão) dos políticos e gestores

Aqui, a crítica política precisa ser explícita. As falhas não são apenas pontuais ou administrativas: são políticas. Muitos gestores e parlamentares preferem liberar recursos para grandes eventos, privatizar serviços, cortar orçamento da educação ou tratá-la como caixa-preta. Por exemplo: quando há reajustes para prefeitos, vereadores, mas a merenda dos alunos vira contingência; quando se adia reparos nas escolas, mas se inaugura obra vistosa para foto.

Talvez a pior omissão seja a invisibilidade: tratar a educação como se fosse um gasto opcional, e não como um investimento de Estado e sociedade. Aqui está o cerne da contradição: enquanto se eleva o discurso sobre “competitividade” e “inovação”, na prática as escolas públicas brasileiras seguem sem básicos itens como biblioteca funcional, laboratório de ciências, ou até mesmo manutenção adequada.

Essa omissão gera duas consequências graves: primeiro, a desmotivação e esgotamento de profissionais da educação; segundo, a perpetuação de desigualdades — porque os que menos têm ficam ainda mais à margem. E se os professores resistem, são colocados à prova; se os alunos esperam, frequentemente aguardam em vão.


4. A educação como espaço de esperança e mudança

Apesar de tudo, existe esperança — e ela mora dentro das escolas, nos professores que acordam cedo e no brilho do aluno que conclui uma tarefa difícil. A educação pública é um dos últimos espaços de democratização real do país: onde menino pobre, menina negra, criança da periferia, podem ter acesso — ou, ao menos, ter a promessa — de transformação.

A resistência do magistério é, por si só, uma semente de mudança. Quando professores se organizam em sindicatos ou redes de apoio; quando comunidades escolares participam ativamente; quando se propõe currículo que dialogue com a realidade dos estudantes — tudo isso fortalece a educação como direito, não como mercadoria.

A esperança funda-se também na ideia de que outra política educacional é possível: uma em que se invista no professor, em sua formação contínua, em sua valorização; em que a escola seja espaço de acolhimento, de cultura, de cidadania. Em que a merenda, o transporte, a infraestrutura e o material sejam garantias, não luxos.


5. Chamado à ação

Chegou o momento de articular uma frente comum: sociedade civil, sindicatos, pais, estudantes, professores e gestores comprometidos com a educação pública precisam cobrar dos representantes — vereadores, prefeitos, secretários, deputados, senadores — que a educação deixe de figurar como joguete político e seja elevada a prioridade efetiva.

Algumas ações concretas que podemos apoiar e exigir:

  • Reajuste real e imediato dos salários dos professores e profissionais da educação, com base na inflação e no custo de vida.
  • Garantia de infraestrutura escolar adequada: salas ventiladas, bibliotecas, laboratórios, internet de qualidade, mobiliário digno.
  • Valorização da carreira docente: concursos regulares, plano de carreira claro, progressão salarial vinculada à qualificação e ao mérito coletivo.
  • Participação democrática da comunidade escolar nas decisões sobre currículo, orçamento e infraestrutura.
  • Transparência nos gastos com educação, com prestação de contas acessível à população.
  • Proteção contra projetos que visam privatizar ou precarizar a escola pública, como o movimento Escola sem Partido. Wikipedia

Essas não são promessas vazias: são exigências legítimas de quem acredita que a educação pública é bem social e alicerce da democracia.


6. Conclusão

A Resistência do Magistério frente ao Descaso Político não é apenas um ato simbólico: é gesto de fé, de coragem, de afirmação de dignidade. Professores e profissionais da educação resistem, e essa resistência carrega em si a promessa de esperança — de que a política volte a ter educação como central, de que a escola pública volte a ser referência de igualdade, de que o futuro deixe de ser mercadoria para voltar a ser construção coletiva.

Aqueles que ocupam os palácios, os gabinetes, que decidem orçamentos e prioridades, precisam escutar essa voz que vem das salas de aula, dos pátios escolares, das comunidades escolares. Porque ignorar a educação é apostar na decadência — apostar na perpetuação de injustiças. E apostar na educação é apostar no país.

Que este texto sirva como tributo aos que resistem — e como convocação a todos que possuem alguma responsabilidade política, moral ou social para cobrar: façam da educação pública uma prioridade. Porque não podemos mais esperar. A hora é agora. A hora é com o magistério, a hora é com a esperança.

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