Quando o nome Paulo Freire é pronunciado, pulsa nele uma força que ultrapassa décadas, atravessa rupturas políticas e continua ressoando nos corredores das escolas, nas plenárias da educação e nos silêncios das salas de aula. Este texto não pretende apenas homenagear o educador pernambucano — sua biografia já o faz. Aqui, propomos uma reflexão contundente, filosófica e crítica sobre o legado de Freire, a educação que ele sonhou e a realidade que vivemos — sobretudo diante de uma classe política que tantas vezes se mostra inerte ou conivente com a precariedade do ensino público e da valorização docente.
1. O educador que não aceitava neutro
Paulo Freire, nascido em Recife em 19 de setembro de 1921 e falecido em 2 de maio de 1997, constituiu-se como um dos maiores educadores do século XX. Encyclopedia BritannicaBrasil Escola Sua concepção de educação recusou o papel passivo do aluno e a função meramente depositária do professor — o que ele denominou de “educação bancária”. Teachers InstitutePhiloNotas Para Freire, a educação é sempre um ato político — não há neutralidade no ensino: quem ensina, molda; quem aprende, transforma-se ou é transformado.
Ele propôs a educação como prática da liberdade: um processo em que professores e alunos dialogam, questionam o mundo, reconhecem contradições e trabalham para transformá-lo. freire.org Esse “ler o mundo” antes de “ler a palavra” tornou-se um eixo central de sua pedagogia — apenas assim o sujeito percebe que pode atuar sobre seu meio e não ser apenas vítima dele.
2. A pedagogia da libertação e sua atualidade
Freire inaugurou ou popularizou conceitos como conscientização (“conscientização” ou “conscientização crítica”) e “educação problematizadora” ou “problematizadora” — em oposição à educação bancária. WikipediaPhiloNotas Ele acreditava que, para que o ensino seja efetivamente humano, ele precisa abrir caminhos à reflexão crítica, à ação e à transformação.
“Education as the practice of freedom.” Teachers Institute
É nesse sentido que sua voz ainda ecoa. Em tempos em que os cortes orçamentários, a precarização docente, a desvalorização profissional e a mercantilização da escola pública são rotina, a pedagogia de Freire se mostra um farol de repúdio e de esperança. Ele nos convida a perguntar: estamos formando meros consumidores de conhecimento ou sujeitos críticos da sociedade?
3. A classe política e o esquecimento intencional da educação
Enquanto Freire sonhava com uma educação emancipadora, a realidade brasileira vem demonstrando compromisso inverso — ao menos em muitos dos discursos e nas práticas políticas. A seguir, alguns saltos de crítica que merecem atenção:
- O país convive com professores com jornadas extensas, baixos salários, contratos precários e, em muitos casos, condição inexistente de dedicar-se à preparação, à pesquisa e à reflexão. Se o professor não está valorizado — se o ensino não está estruturado — como exigir que a educação seja libertadora?
- A política educacional muitas vezes trata o ensino como custo e não como investimento, como problema e não como prioridade. Diante disso, o discurso da “valorização do magistério” permanece como retórica solta.
- A mercantilização da educação — transformando escolas públicas em espaços de gestão privada, mediadas por resultados estatísticos, foco em exames padronizados, e não em formação humana — vai claramente em contramão da pedagogia freiriana. Freire já alertava que a educação que não liberta reforça o sonho do oprimido de virar opressor. PhiloNotas
- Políticos que ocupam cargos de decisão raramente escutam professores ou a comunidade escolar nas suas reais necessidades. A governança educacional não pode ser tomada por tecnocratas ou lobistas de resultados fáceis; requer escuta, diálogo, participação e, sobretudo, recursos.
Se Freire estivesse entre nós hoje, provavelmente diria que vivemos uma “situação de limite”: ou abandonamos as urgências da educação pública de forma ética, ou permitimos que a desigualdade se cristalize ainda mais. Sua voz ecoa porque foi fundada na esperança — e a esperança exige atitude.
4. Professores, agentes vivos da transformação
Este texto não se limita à crítica; ele rende homenagem aos professores — aos que resistem, lutam e acreditam. Professores que, apesar de contratos instáveis, salários insuficientes, excesso de burocracia e turmas numerosas, continuam a entrar em sala de aula com o sonho de mudar algo.
Seguem-se algumas reflexões para os professores que se inspiram em Freire:
- Você não é mero transmissor de conteúdos — é mediador de sentidos, facilitador de consciência crítica. A pedagogia freiriana exige que você perceba o aluno como sujeito e não como objeto.
- Valorizar-se não é egoísmo; é condição da educação pública de qualidade. Quando você exige dignidade, condições mínimas, respeito — está exigindo educação de fato.
- Participar da política educacional não é opcional: o território da escola está em permanente disputa — de visões de mundo, de interesses corporativos, de modelos mercadológicos. Professores precisam erguer voz, fazer coro, organizar-se.
- Cultivar a solidariedade entre pares, com a comunidade, com as famílias — essa rede é o que dá sustentação à escola como lugar de mudança e não de mera reprodução.
5. Caminhos urgentes para que a voz de Freire não se perca
Para que o legado de Paulo Freire não permaneça apenas no papel ou em citações soltas — e para que a educação pública brasileira não seja tragicamente silenciada — propomos ações que dialogam com ética, política e filosofia da reflexão:
- Financiamento público adequado e estrutural da educação: sem orçamento estável, qualquer projeto de ensino se torna frágil. O Estado deve assumir que educação é prioridade nacional — e não variável de ocasião.
- Valorização real do magistério: salários condizentes, formação continuada, tempo para planejamento, redução de burocracia, reconhecimento social. A profissionalização docente não é luxo: é condição de justiça social.
- Autonomia e participação na escola: professores, alunos, comunidade devem ter voz no projeto pedagógico, no currículo, na gestão dos recursos. A lógica vertical e imposta contraria o diálogo freiriano.
- Foco na formação de sujeitos críticos: nem apenas no “saber fazer” ou “aprender para aprovar”. A escola deve fomentar a capacidade de ler o mundo, identificar contradições, agir e transformar — conforme proposta de Freire. PW Live
- Contra a mercantilização da educação: transformar a escola em ambiente de competição, ranking, terceirização e lucro é abandonar a função social da educação. A escola pública deve reafirmar sua vocação de emancipação, não de reprodução de desigualdades.
- Políticas de longo prazo e não modismos: a educação não pode viver de decretos passageiros, cortes orçamentários ou slogans políticos. O legado de Freire exige continuidade, consistência e profunda reflexão ética.
6. Reflexão final: ecoar é agir
Paulo Freire deixou-nos uma voz — uma voz que continua a chamar para a responsabilidade social da educação. Mas ecoar não é apenas lembrar; ecoar é agir. Se a voz de Freire se reduz a citações em eventos ou murais escolares, então teremos falhado.
Este texto é, portanto, um chamado: à classe política para que pare de adiar, subfinanciar e desvalorizar o ensino público e a profissão docente; aos professores para que continuem resistindo, refletindo, inovando — mesmo contra ventos contrários; e à sociedade para que não aceite a escola como ilha de negligência, mas como laboratório de cidadania.
Se Freire ensinou que a educação é política, histórica e social — então, a pergunta permanece: que tipo de sociedade estamos formando? E mais: quem vai responder por isso?
“A leitura do mundo precede a leitura da palavra.” — Paulo Freire Brasil Escola
Que nos lembremos disso como exigência ética, e não apenas como belíssima frase.
Referências externas verificadas
- Paulo Freire — Britannica
- Freire Institute — Paulo Freire
- Philo-notes: Paulo Freire’s Philosophy of Education: Key Concepts
- Artigo “A filosofia na Pedagogia do Oprimido” (UFU)
Que este texto sirva não apenas como artigo, mas como instrumento de reflexão, de mobilização e de ação. Que a voz de Paulo Freire continue a ecoar — e que não fiquemos em silêncio.