Quando falamos em educação, frequentemente recitamos slogans bonitos: “valorização do professor”, “respeito à carreira docente”, “educador protagonista”. No entanto, a realidade brasileira — marcada por desigualdades estruturais, precarização profissional e discursos vazios — revela que pouco do que se proclama se materializa de fato. Este artigo propõe uma reflexão filosófica e crítica sobre por que o professor deve ser valorizado, não como gratificação simbólica, mas como pilar ético e social da democracia. A pedagogia do respeito, aqui, não é mero ideal romântico: é condição de justiça e de emergência.
1. O professor enquanto sujeito ético e político
A educação não ocorre em vácuo. Cada sala de aula está imersa em contextos de poder, vínculo, valores, história — e o professor ocupa nela um lugar central. Na filosofia da educação, reconhece-se que ensinar é atuar como mediador de sentido, e não apenas como transmissor de conteúdos. Isso exige respeito — para com o outro, para consigo, e para com a profissão.
O professor deve ser valorizado porque:
- Ele ou ela não apenas transmite conhecimentos, mas forma sujeitos, cidadãos e cidadãs capazes de pensar, agir e intervir no mundo.
- A docência é uma profissão que exige reflexão ética, escuta, compromisso com a diversidade, responsabilidade social.
- O professor enfrenta o cotidiano de desigualdades — de recursos, de expectativas, de reconhecimento — e, ainda assim, sustenta o labor pedagógico.
Valorizá-lo, portanto, não é condescendência; é reconhecer a dignidade da tarefa. Como aponta a UNESCO, “teachers’ voices can shape a more inclusive curriculum.” UNESCO E isso significa que eles devem ter espaço, poder, escuta no sistema educacional.
2. A crise da valorização docente: discursos e práticas desconexas
Apesar dos discursos de valorização, o cenário real está longe do ideal. No Brasil, várias condições apontam para um abismo entre o que se promete e o que se vive: jornadas exaustivas, múltiplos vínculos, baixos salários, falta de preparo contínuo, escassez de recursos. Quando isso acontece, o respeito deixa de existir de fato — e a pedagogia se vê fragilizada.
2.1 A valorização como retórica vazia
Governos proclamam o valor do magistério, enquanto contingenciam verbas, ignoram reivindicações, tratam professores como linhas de custo. Essa contradição mina a confiança, o engajamento e o sentido da profissão.
2.2 A consequência para a aprendizagem e para a sociedade
A valorização docente não é apenas questão de justiça interna da escola; ela impacta diretamente a qualidade da educação. Como aponta a Organisation for Economic Co‑operation and Development (OECD) em estudo sobre valorização dos professores: sistemas em que docentes sentem autonomia, respeito e participação são mais eficientes. OECD
Se o professor não se sente valorizado, ele recua da reflexão, da inovação, da resistência — e a educação vira técnico-mecânica, não projeto de formação humana.
2.3 A docência como local de resistência e dignidade
Em contextos adversos — de periferia, de vulnerabilidade social, de escassez — professores resistem. E essa resistência deve ser reconhecida como parte do valor. O professor que enfrenta adversidades diárias e ainda assim luta por respeito e educação de qualidade é agente moral, ético e político.
3. Respeito profissional: seus componentes e exigências
Se “respeito ao professor” é mais que frase, ele envolve componentes concretos — que sistemas educacionais e sociedades precisam assumir com urgência.
3.1 Condições de trabalho dignas
Respeito se manifesta quando o professor tem:
- Salário adequado e digno, compatível com a responsabilidade social que carrega.
- Infraestrutura escolar mínima: salas equipadas, recursos pedagógicos, tecnologia apropriada.
- Formação contínua, real, não apenas simbólica, mas que suporte o exercício da docência no século XXI.
- Autonomia profissional — para pensar, adaptar, inovar — e escuta nas decisões políticas que o afetam. Conforme o estudo da OECD: “teachers’ ownership of the profession is a must-have rather than an optional extra.” OECD
3.2 Reconhecimento simbólico e cultural
Respeito também significa:
- Que a sociedade valorize a profissão docente como uma profissão de prestígio, e não como “última opção”.
- Que se reconheça a complexidade, a carga emocional, o trabalho invisível — correções fora de horário, planejamento, escuta dos alunos.
- Que o professor seja ouvido nos fóruns de decisão educacional — currículo, políticas, gestão escolar. Segundo a UNESCO: “teacher voices… are crucial for creating effective, responsive and equitable educational systems.” Teacher Task Force
3.3 Participação efetiva nas políticas
Respeito implica em reconhecimento de que o professor não é mera “implementador” de políticas definidas de cima para baixo, mas sujeito de decisão. A valorização requer:
- Mecanismos de co-construção de políticas educacionais.
- Processos democráticos de gestão escolar com voz docente.
- Programas de carreira construída com participação real da categoria.
Como aponta o documento “Valuing our Teachers and Raising their Status”: “Schools need to prepare students for the future… and that is why smart educational policies are so important nowadays.” OECD
4. A crítica política e social: por que os políticos devem parar de adiar
Se valorizar o professor é exigência ética e social, os tomadores de decisão — legisladores, gestores, governos — têm responsabilidades claras. A seguir, a crítica:
4.1 Prioridades equivocadas
Políticos frequentemente colocam a educação em primeiro nos discursos, mas em segundo plano nas práticas. Cortes de orçamento, terceirização da escola pública, reformas intempestivas e sem diálogo com professores evidenciam que a valorização docente não é tratada como prioridade.
4.2 Educação reduzida a estatísticas
Quando o foco da política educacional vira resultado padronizado, exames, rankings, a docência se mede em números e não em formação de sujeitos. O professor deixa de ser protagonista e torna-se executor de protocolos estéreis.
4.3 A mercantilização da escola
A lógica neoliberal invade a escola: terceirização, concursos de “melhor escola”, ênfase em desempenho de mercado. Nesse cenário, o professor é pressurizado, desvalorizado e tratado como custo ou variável de gestão — não como profissional. Esta abordagem subverte a pedagogia do respeito.
4.4 Responsabilidade histórica
Em uma desigualdade estrutural como a brasileira, negligenciar o professor equivale a negligenciar o futuro. Sociedades que não valorizam quem ensina, correm o risco de perpetuar ciclos de exclusão, de ignorância e de subcidadania. A valorização docente é, portanto, questão de justiça social, e não apenas de política educacional.
5. Filosofia e reflexão sobre o respeito à docência
Pensar o professor como sujeito de respeito é pensar a educação como prática filosófica e social. Aqui estão algumas reflexões:
5.1 O professor como formador de consciência
Filósofos da educação assinalam que a escola deve formar não apenas técnicos, mas sujeitos críticos. E isso só é possível se o educador for respeitado em sua condição de pensador e mediador. O respeito profissional permite ao professor exercer a reflexão, a problematização e a liberdade pedagógica.
5.2 Respeito como prática dialógica
Na visão de Paulo Freire, o diálogo entre professor e aluno é central — e esse diálogo pressupõe reconhecimento mútuo. Se a sociedade não respeita o professor, se não reconhece sua autoridade moral e pedagógica, esse diálogo se esfacela. A pedagogia do respeito exige que o professor seja reconhecido como interlocutor no processo educativo.
5.3 O professor como agente de mudança
Valorizar o professor é também reconhecer sua potência transformadora. Ao respeitar o professor, estamos afirmando que a escola não é palco de reprodução social, mas de transformação. Reconhecer o profissional da educação como agente de mudança — e não apenas executante — é fundamental para que a educação cumpra seu papel emancipador.
6. Caminhos concretos para a valorização docente
Não basta refletir: é preciso agir. A seguir, alguns caminhos que sociedades e governos devem trilhar:
6.1 Reformulação da carreira docente
- Plano de carreira com ascensão baseada em mérito, formação e inovação pedagógica.
- Salário compatível com outras profissões de nível similar e com a relevância social da tarefa.
- Formação inicial e continuada de qualidade, com tempo dedicado na jornada profissional para estudo e pesquisa.
6.2 Autonomia e particip ação
- Mecanismos que permitam aos professores influenciar decisões curriculares, metodológicas e de gestão.
- Escuta real da categoria docente em reformas e políticas. Isso cria pertencimento e compromisso.
- Incentivos à pesquisa pedagógica e à partilha de práticas inovadoras.
6.3 Investimento em infraestrutura e recursos
- Escolas equipadas, salas adequadas, tecnologia disponível, bibliotecas acessíveis.
- Apoio administrativo, técnico e emocional para o professor: reconhecendo que o trabalho docente envolve mais que aula.
- Reconhecimento simbólico: campanhas que valorizem o professor, que mudem a narrativa social.
6.4 Cultura social de respeito
- Sociedade que reconhece o professor como profissional de dignidade, intelecto e ética — não apenas como “herói” ou “voluntário”.
- Mídia que retrata a docência em sua complexidade, não apenas em migalhas de reconhecimento simbólico.
- Política que compreende a educação como bem comum e não como mercado.
7. Esperança e desafio: o futuro da pedagogia do respeito
A valorização do professor não é utopia — é condição para que a educação se torne aquilo que precisa ser: projeto de vida, de liberdade, de democracia. É preciso que professores possam exercer sua profissão com dignidade, com autonomia, com respeito social e político.
Quando o professor é valorizado, o aluno sente — e aprende diferentemente. A escola se torna espaço de vida, não de abandono. A sociedade se fortalece. Quando o professor não é valorizado, o futuro se fragiliza.
“O professor merece respeito não porque professa, mas porque transforma.”
Que essa frase ecoe nas salas de aula, nos corredores da política, nas decisões dos governos.
Referências externas verificadas
- Valuing teachers’ voices – UNESCO
- Valuing teacher voices: Towards a new social contract for education – Teacher Task Force
- Valuing Teachers and Their Educational Impact – NASBE
- Valuing our Teachers and Raising their Status: How communities can help – OECD (2018)
Que este texto sirva de convocação: ao professor para que reivindique seu lugar de respeito, à sociedade para que lhe conceda esse lugar, e aos políticos para que transformem discurso em dignidade concreta. A pedagogia do respeito não espera mais — ela exige ação.