A sociedade brasileira convive com um paradoxo gritante: enquanto professores — responsáveis por formar cidadãos, profissionais e lideranças — lutam para sobreviver com salários que mal garantem o básico, governantes recebem remunerações altíssimas, acumulam benefícios e nadam em privilégios.
Este artigo aprofunda a análise dessa contradição, evidenciando como a desvalorização do magistério contrasta brutalmente com os gastos públicos destinados à manutenção da elite política.
1. O Papel do Professor: Pilar da Sociedade
Nenhuma nação se desenvolve sem educação de qualidade. E não há educação sem professores.
O docente é responsável por moldar gerações, transmitir conhecimento, despertar pensamento crítico e construir cidadania. Apesar disso, o Brasil insiste em tratá-los como profissionais de “segunda categoria”, submetendo-os a jornadas exaustivas e salários insuficientes.
Segundo a OCDE (Education at a Glance 2023), os professores brasileiros recebem, em média, menos de 40% do que ganham outros profissionais com a mesma escolaridade. Veja os dados oficiais.
2. O Piso Nacional: Entre a Lei e o Descumprimento
Em 2025, o Ministério da Educação fixou o piso salarial nacional do magistério em R$ 5.130,63 para 40h semanais. Notícia oficial do MEC.
Mas na prática, muitos estados e municípios:
Não cumprem o piso.
Parcelam ou atrasam salários.
Criam artifícios jurídicos para negar reajustes.
Resultado: professores que deveriam ser valorizados pelo Estado vivem como se estivessem pedindo esmolas para exercer sua profissão.
3. O Outro Lado da Moeda: Os Salários dos Políticos
Enquanto os docentes lutam para sobreviver, a elite política desfruta de salários robustos e benefícios vultosos.
Deputados federais e senadores recebem salário base de R$ 41.650,92 (Fonte: Agência Senado).
Além do salário, contam com:
Auxílio-moradia.
Cotão para passagens aéreas, alimentação, divulgação.
Verba de gabinete para contratação de assessores.
Só em 2023, a Câmara dos Deputados gastou R$ 1,1 bilhão com a verba de gabinete parlamentar. Fonte: Câmara dos Deputados.
A Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP) custeia as despesas do mandato, como passagens aéreas e conta de celular. Algumas são reembolsadas, como as com os Correios, e outras são pagas por débito automático, como a compra de passagens.
Nos casos de reembolso, os deputados têm três meses para apresentar os recibos. O valor mensal não utilizado fica acumulado ao longo do ano – isso explica porque em alguns meses o valor gasto pode ser maior que a média mensal.
Verba de Gabinete
Cada deputado tem R$ 133.170,54 por mês para pagar salários de até 25 secretários parlamentares, que trabalham para o mandato em Brasília ou nos estados. Eles são contratados diretamente pelos deputados, com salários de R$ 1.548,10 a R$ 18.719,88.
Encargos trabalhistas como 13º, férias e auxílio-alimentação dos secretários parlamentares não são cobertos pela verba de gabinete – são pagos com recursos da Câmara.
Os deputados federais têm direito a receber auxílio-moradia de R$ 4.253,00 quando não ocupam um dos 447 apartamentos funcionais que a Câmara tem em Brasília. O auxílio-moradia pode ser pago diretamente no contracheque ou por reembolso, mediante a apresentação de recibo de aluguel ou hotel.
Se o aluguel for maior do que o valor do auxílio-moradia, o deputado pode pagar a diferença com verba da cota parlamentar, que ele recebe para arcar com os gastos do mandato. Esse complemento é limitado a R$ 4.148,80. Aqui estão listados apenas os valores do auxílio-moradia.
O salário atual de um deputado federal é R$ 46.366,19. A remuneração mensal leva em conta o comparecimento às sessões deliberativas do Plenário. Ausência não justificada leva a desconto no salário.
O deputado tem direito a receber diárias quando viaja em missão oficial. Nas viagens nacionais, o valor é de R$ 842,00. Nas viagens internacionais, o valor da diária é de US$ 391,00 para países da América do Sul, e de US$ 428,00 para outros países.
4. A Discrepância Escancarada
Vamos comparar realidades:
Professor da rede pública: R$ 4.580,57 (quando recebe o piso corretamente).
Deputado federal: R$ 41.650,92 (quase 10 vezes mais).
E ainda: Um deputado pode ter auxílios e benefícios que, somados, ultrapassam R$ 150 mil mensais. Enquanto isso, professores muitas vezes compram com recursos próprios o material didático que deveria ser fornecido pelo Estado.
Essa discrepância não é apenas injusta — é indecente.
5. O Impacto da Desigualdade Salarial na Educação
A desigualdade salarial entre professores e políticos tem consequências graves:
Desmotivação da carreira docente.
Evasão de talentos para outras áreas mais bem remuneradas.
Dificuldade de atrair jovens qualificados para o magistério.
Precarização do ensino e queda nos índices de aprendizagem.
Segundo o INEP (2022), apenas 2% dos jovens brasileiros querem ser professores — reflexo direto da desvalorização financeira e simbólica da profissão. Relatório do Censo Escolar.
6. A Retórica da Vocação: Uma Armadilha
Governantes costumam justificar os baixos salários dos professores com frases como: “Quem escolhe ser professor, escolhe por amor, não por dinheiro.”
Essa retórica da vocação é perigosa, porque:
Romantiza a exploração do trabalho docente.
Naturaliza a precarização.
Impede que a sociedade cobre melhorias salariais.
Professores têm vocação, sim. Mas vocação não paga contas.
7. A Conta Que Não Fecha: Orçamento Público e Prioridades
O Brasil gasta bilhões com privilégios políticos enquanto mantém a educação pública em condições precárias.
Segundo o Tesouro Nacional (2024), o gasto com benefícios a parlamentares federais foi de R$ 2,6 bilhões em um ano. Fonte: Portal da Transparência.
Esse valor seria suficiente para:
Reformar milhares de escolas.
Garantir piso salarial digno a professores em estados inadimplentes.
Financiar programas de formação continuada.
Ou seja: não faltam recursos, faltam prioridades políticas.
8. A Falácia do “Não Há Dinheiro”
Sempre que professores reivindicam melhores salários, governantes repetem o mantra: “Não há dinheiro em caixa.”
Mas esse discurso não se sustenta diante da realidade:
Há recursos para reajustar salários de deputados e juízes.
Há recursos para auxílios de moradia, carros oficiais, cartões corporativos.
Há recursos para campanhas publicitárias milionárias.
Portanto, o problema não é falta de dinheiro — é falta de vontade política.
9. O Exemplo Internacional
Países que alcançaram excelência educacional (como Finlândia e Coreia do Sul) só conseguiram avançar porque decidiram valorizar financeiramente seus professores.
Na Finlândia, por exemplo:
Professores são tão respeitados quanto médicos e engenheiros.
A carreira docente é uma das mais disputadas.
O salário é atrativo e compatível com a importância da função.
Transparência nos gastos públicos e revisão de privilégios políticos.
Cumprimento imediato do piso salarial em todo o país.
Política nacional de valorização docente, com salários atrativos e planos de carreira sólidos.
Pressão social organizada, para que a sociedade exija que professores recebam, no mínimo, tratamento proporcional à importância que têm.
Conclusão: A Escolha Que Define o Futuro
O Brasil precisa decidir:
Continuará investindo milhões em privilégios para poucos?
Ou assumirá a responsabilidade de valorizar quem forma todas as profissões?
A contradição entre os salários de professores e os privilégios dos governantes não é apenas uma injustiça — é um sintoma de um país que ainda não entendeu que sem educação não há futuro.
Se quisermos mudar essa realidade, precisamos pressionar, denunciar e exigir. Porque educação não é gasto, é investimento — e o professor não pode viver de migalhas enquanto políticos nadam em luxo.