A Educação Vista pelos Olhos das Mulheres


Introdução

Quando falamos de educação, desenho panorâmico e metas macro-políticas dominam o debate: taxas de alfabetização, investimentos públicos, resultados em avaliações internacionais. Mas por trás desses números está um terreno ainda mais íntimo e intenso: o olhar das mulheres que vivem, diariamente, o universo escolar — como alunas, como professores, como gestoras, como multiplicadoras. Este texto se propõe a dar voz a essa perspectiva feminina, expor as contradições entre discurso e realidade, e exigir que os políticos e gestores finalmente vejam o que as mulheres sempre viram: a escola como espaço de esperança, mas também como campo de batalha.


A predominância feminina na educação — e a invisibilidade das demandas

As mulheres compõem uma parte decisiva do sistema educativo brasileiro: conforme dados recentes, cerca de 79,5% dos/as docentes da educação básica são mulheres. Em níveis iniciais da educação esse percentual sobe ainda mais: outros dados mostram que 88,22% dos professores do ensino primário são mulheres. IndexMundiPortal de Periódicos UFSC
Essa predominância, no entanto, coexiste com precariedade, desvalorização e silenciamento. A pergunta que muitos gestores e políticos precisam enfrentar é: quando a maioria de quem ensina é mulher — e de quem se forma é mulher — por que a voz dessas mulheres quase nunca molda as grandes políticas públicas e por que suas demandas são tratadas como “problemas laterais”?

A feminização da docência não garante automaticamente valorização. Uma pesquisa aponta que a escolha por ser professora no Brasil ainda é percebida como um ato de resistência, em meio à “desvalorização da profissão”. PUCRS
Quando mulheres entram em sala de aula, levantam não só crianças e adolescentes: levantam expectativa, sonho, vínculo afetivo — mas também recebem em troca baixos salários, condições de trabalho desfavoráveis e ausência de reconhecimento proporcional.


A educação nas lentes femininas — experiências, desafios e contradições

Como alunas

Para muitas meninas e jovens mulheres, a escola é o primeiro espaço social que lhes promete liberdade — mas que acaba reproduzindo barreiras de gênero e raça. A educação lhes será vendida como porta de saída da desigualdade, mas essa narrativa ignora que o prédio, a sala, o currículo e o corpo docente raramente foram desenhados com elas em mente.

Uma jovem mulher negra ou de periferia, por exemplo, enfrenta argumentos implícitos e explícitos de que “sua trajetória não é prioridade”. Ela pode ver séries de materiais didáticos que a invisibilizam, professores que não reconhecem sua cultura, estrutura física que não acolhe, horários que conflitam com responsabilidades familiares precoces. E ainda assim persiste – porque acredita que educação é caminho. Mas esse caminho se apresenta acentuado, irregular, lento.

Como professoras

Ser professora mulher no Brasil é assumir múltiplas frentes, muitas vezes simultâneas: ensinar, acolher, mediar conflitos, atuar como psicóloga informal, lutar por recursos, trabalhar em condições de precariedade. E tudo isso ocorre num contexto em que a carreira docente é historicamente menos valorizada em termos salariais e simbólicos. A interseção entre gênero e profissão torna-se um ponto de vulnerabilidade.

Além disso, ser mulher — e, em muitos casos, ser mulher negra ou de origem periférica — implica visibilidade reduzida nas instâncias de poder da educação: coordenações, diretorias, decisões de legado curricular. Quando o discurso oficial prioriza “educação para todos”, a mulher-professora espera que isso signifique “educação com equidade para mulheres”. Mas esse detalhe raramente faz parte da agenda prioritária.

Como gestoras/multiplicadoras

Existem mulheres que transcenderam a sala de aula e atuam como gestoras escolares, pesquisadoras, formadoras de professores, articuladoras de redes comunitárias de educação. Mas essas trajetórias são ainda exceção e enfrentam resistências sistêmicas: ausência de mentoria, falta de reconhecimento, sobrecarga de trabalho invisível, falta de recursos para inovação. Quando uma mulher torna-se supervisora, coordenadora pedagógica ou dirige uma escola, ela encontra tanto o desafio do ambiente quanto o legado de que “educação é tarefa natural da mulher” — o que desvaloriza seu papel como líder.


Crítica política e social: o que os governos e a sociedade falham ao não enxergar

A promessa vs. a realidade

Políticos que proclamam “Educação como prioridade” normalmente falam de números: matrículas, passagens, contratos. Poucos falam do olhar feminino dentro da sala de aula. Verdadeira prioridade exigiria garantir que a mulher aluna tenha corpo docente que a reconheça, que a mulher professora tenha formação, salário justo, rede de apoio, e que a mulher gestora tenha poder para decidir.

Quando essas dimensões são ignoradas, a política educacional vira retórica. O fato de que mais de três quartos das professoras são mulheres e mesmo assim a carreira continua sendo mal remunerada ou com condições difíceis não é coincidência — é resultado de negligência política e cultural. A feminização da docência tem sido tratada como evidência de “facilidade” ou “vocação natural”, e não como sinal de necessidade de reparação e valorização.

Diferenças de gênero, raça e classe

A mulher na educação não é um bloco homogéneo. A realidade de uma professora branca de uma escola particular não é equivalente à de uma professora negra de periferia; a trajetória de uma aluna com acesso a apoio familiar não se equipara à de uma jovem mãe que trabalha e estuda. A política que ignora raça e classe ao tratar gênero está falhando. Uma educação verdadeiramente inclusiva exige interseção — não “um único recorte”.

Quando observamos que, no Brasil, apenas 58% dos professores no ensino médio são mulheres. OECD Ou que as mulheres, embora majoritárias nos níveis iniciais, são minoria nas instâncias de direção — verificamos que existe um teto invisível que permanece intacto. Se os governantes e secretarias de educação não consideram essa realidade em suas estratégias, perpetuam-se os processos de invisibilização.

Falta de formação, valorização e apoio institucional

O combate às desigualdades de gênero na educação não se resume a políticas de acesso — trata-se de políticas de permanência, formação contínua, reconhecimento simbólico, condições de trabalho. Quando as professoras denunciam falta de apoio, quando alunas relatam desmotivação, ou quando gestoras veem que sua voz não é ouvida — existe uma falha sistêmica.

O olhar das mulheres exige escuta ativa, por parte de secretarias, deputados, governadores. Ainda mais: exige ação concreta. E essa ação passa por financiamento, monitoramento, metas claras, liderança com representatividade e compromisso com equidade.


O que deve mudar — as propostas que emergem do olhar feminino

Currículos que considerem gênero, diversidade e empoderamento

As mulheres pedem que a escola fale com suas realidades — que haja disciplinas ou conteúdos que discutam corpos, gênero, relações, história das mulheres, diversas vivências femininas. Que os livros, imagens, linguagens — não ignorem nem naturalizem a invisibilidade das mulheres. A escola que vê a mulher como “aluna” ou “professora” deve também vê-la como sujeito: agente, corpo, voz.

Formação e valorização docente com olhar de gênero

As professoras exigem formação que contemple não só metodologia e conteúdo, mas também gênero, diversidade, saúde mental, condições de sala de aula, liderança. Salários e carreira dignos — porque a valorização simbólica depende da valorização efetiva. Que os planos de carreira deixem de tratar “ser mulher” como justificativa de vulnerabilidade e passem a tratar “ser mulher” como vantagem para a pluralidade e qualidade da escola.

Participação feminina nas instâncias decisórias

Não basta haver mulheres nas salas de aula; é preciso que haja mulheres na redação das políticas, nos conselhos, nas diretorias, nas secretarias que definem educação. Garantir cotas de mulheres — e sobretudo de mulheres negras e periféricas — nessas instâncias é reparação simbólica e funcional. O olhar feminino para a educação altera o que é perguntado, o que é medido, o que é priorizado.

Infraestrutura e condições de trabalho que reconheçam a mulher

A mulher–professora muitas vezes acumula dupla jornada: em casa, na escola, além da vida pessoal. Políticas públicas que ignorem essa realidade falham. A escola precisa contar com creches integradas, transporte, segurança, ambiente de trabalho saudável, suporte pedagógico. Reconhecer que muitas mulheres docentes têm responsabilidades familiares que recaem com mais peso sobre elas é reconhecer que educação e justiça social estão interligadas.

Cultura educacional que valorize a mulher enquanto influência e agente

A educação precisa deixar de ver a mulher como coadjuvante ou beneficiária passiva. A mulher é protagonista. Isso exige campanhas, representações, reconhecimento público, visibilidade. Ao ver-se representada, a menina acredita. Ao ver-se valorizada, a professora persevera. E essa cultura exige mudança de narrativa: política, mídia, comunidade e escola.


A urgência do momento

Vivemos um momento crítico: a sociedade brasileira — e globalmente — enfrenta retrocessos nos direitos de gênero, discursos de ódio ganham força, desigualdades se ampliam. Nesse cenário, a educação vista pelos olhos das mulheres é um termômetro: se a escola é ambiente de opressão, o país está falhando. Se a escola é ambiente de emancipação, com mulheres valorizadas, o país ainda tem chance de virar.

Políticos e gestores que dizem “valorizamos a educação” devem provar com dados concretos: quantas mulheres alunas foram promovidas, quantas professoras tiveram progressão na carreira, quantas gestoras assumiram direções e quantas políticas foram desenhadas com recorte de gênero. Sem essa prova, a promessa se desfaz em retórica.

Ao mesmo tempo, as comunidades escolares, sindicatos, redes de mulheres na educação precisam se mobilizar — exigir participação, visibilidade, formação. Não se trata apenas de “incentivar meninas a cursar STEM” — embora isso seja importante — mas de transformar a educação como instituição que sustenta a vida, reconhece a diferença e potencializa o humano.


Considerações finais

“A Educação Vista pelos Olhos das Mulheres” não é só um título para reflexão — é um convite imperativo para ação. Quando a maioria de quem ensina é mulher — e quando o futuro de tantas meninas depende da educação — não podemos mais aceitar que essa educação continue mirando no genérico, ignorando o particular, negligenciando o feminino.

Uma sociedade que verdadeiramente acredita em justiça precisa que a escola seja retrato disso: mulheres que ensinam com dignidade, meninas que estudam sem serem silenciadas, gestoras cujo olhar transforma a estrutura, professoras que não precisam sobreviver, mas prosperar. Quando isso acontecer, a educação deixará de ser promessa e se tornará garantia.

Se não for agora — quando será? Se não for a educação com a mulher no centro — então o que permanece será o velho ciclo: mulher como mediadora, educadora, sem reconhecimento. E é hora de quebrar esse ciclo.

Que a educação brasileira — dos rincões às capitais, das escolas municipais às universitárias — olhe nos olhos das mulheres, ouça o que elas têm a dizer e molde-se em torno das suas demandas. Que se tornem agentes de transformação. Porque, no fim, quando a mulher vê-se reconhecida, toda a sociedade avança.


Links úteis para consulta

  • “Being a teacher is an act of resistance: why choose teaching amid the devaluation of the profession in Brazil” (PUCRS): PUCRS
  • “Women in higher education” (Revista Pesquisa FAPESP): Revista Pesquisa Fapesp
  • “Education in Brazil” report (OECD, 2021): OECD

Obrigado por ler com atenção — que este texto sirva não apenas como leitura, mas como ferramenta de mobilização, pressão e mudança.

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