Introdução
Em 2024, dados do IBGE e do Inep confirmaram uma marca histórica: quase 80% dos profissionais da educação básica no Brasil são mulheres.
À primeira vista, poderíamos ler esse dado como símbolo de emancipação e empoderamento. Mas, ao olhar mais de perto, o cenário revela outra narrativa — a da desvalorização estruturada sob o signo do gênero.
A pergunta é inevitável:
A predominância feminina no magistério representa um avanço civilizatório ou uma armadilha disfarçada de conquista?
Responder a essa questão implica observar a história e as estruturas que sustentam um dos maiores paradoxos sociais do Brasil: quanto mais feminino o trabalho, menor seu valor simbólico e material.
Quando ensinar virou extensão do cuidar
A feminização da docência tem raízes no século XIX, quando a educação pública passou a ser vista como extensão moral da família.
O Estado, em expansão republicana, delegou às mulheres a tarefa de educar as crianças da nação, baseando-se em uma ideologia de “vocação natural para o cuidado”.
Essa ideologia, embora tenha aberto portas de emprego para mulheres, estabeleceu uma armadilha simbólica: o magistério deixou de ser visto como profissão de saber e passou a ser tratado como um prolongamento do lar.
A “educadora” se tornou mãe coletiva, e o “dom feminino” justificou a precarização.
Segundo dados do INEP, a remuneração média das professoras da educação básica é 30% inferior à de outras profissionais com o mesmo nível de escolaridade.
A naturalização dessa diferença não é fruto do acaso — é o resultado direto de uma lógica que transforma cuidado em dever moral e trabalho intelectual em extensão doméstica.
O valor simbólico do trabalho docente
A feminização do magistério está intrinsecamente ligada à desvalorização social da docência.
Segundo relatório da ONU Mulheres, profissões associadas ao cuidado são sistematicamente subvalorizadas, mesmo quando exigem alto grau de formação e responsabilidade social.
O problema não é o número de mulheres nas escolas — é o modo como a sociedade interpreta e remunera o seu trabalho.
Enquanto o médico é “herói”, a professora é “vocacionada”.
Enquanto o engenheiro é “fundamental”, a professora é “dedicada”.
A diferença semântica traduz a desigualdade simbólica:
“Quando o trabalho tem rosto de mulher, o sistema o chama de missão, não de profissão.”
Essa distinção define não apenas salários, mas lugares sociais e políticos.
É por isso que, mesmo dominando o espaço educacional, as mulheres seguem sub-representadas nos cargos de decisão.
O teto de giz: poder e exclusão
O conceito de “teto de vidro” — barreiras invisíveis que impedem mulheres de ascender — encontra sua versão perfeita na educação: o teto de giz.
As mulheres dominam as salas de aula, mas rara vez chegam aos gabinetes, conselhos ou secretarias.
De acordo com o IBGE, embora as professoras representem quase 80% do magistério, menos de 35% ocupam cargos de direção educacional de alto nível.
Ou seja, elas educam o país, mas não decidem os rumos da educação.
Essa exclusão não é apenas administrativa, mas simbólica.
O discurso meritocrático que domina as reformas educacionais ignora que o ponto de partida nunca foi igual: a maternidade, a dupla jornada e a sobrecarga mental limitam as possibilidades reais de ascensão.
O magistério, portanto, se tornou o espelho perfeito do patriarcado moderno — aquele que “reconhece” o valor da mulher desde que ela não questione a hierarquia.
A dupla jornada: entre o ensinar e o cuidar
Ensinar é uma das atividades mais desgastantes emocionalmente.
Mas, para milhões de mulheres, o trabalho não termina quando o sinal toca.
De acordo com o Instituto Península, 72% das professoras brasileiras relatam exaustão extrema e sintomas de burnout, e 63% afirmam levar trabalho para casa todos os dias.
Elas corrigem provas, preparam aulas e ainda são responsáveis pelo cuidado com filhos, idosos e tarefas domésticas.
A “dupla jornada” é, na verdade, tripla: trabalho formal, trabalho doméstico e trabalho emocional.
E o mais perverso é que esse esforço não é reconhecido como parte da jornada profissional.
É o preço invisível pago por viver em uma sociedade que ainda acredita que a mulher deve dar conta de tudo.
“O sistema educacional brasileiro é sustentado pela sobrecarga feminina — e sustentado à custa dela.”
— Relatório da CNTE, 2024
Quando gênero, raça e classe se cruzam
Falar em feminização da educação sem falar de raça é ocultar parte essencial do problema.
Nas escolas públicas brasileiras, a maioria das professoras é negra e de baixa renda.
Segundo o IBGE, mulheres negras compõem cerca de 40% do magistério, mas são também as que recebem os menores salários e trabalham nas escolas mais vulneráveis.
Isso cria o que a socióloga bell hooks chamou de “múltipla marginalidade”: a sobreposição de opressões que tornam o corpo da mulher negra o principal pilar invisível do sistema educacional.
Ela é quem ensina cidadania em um país que ainda lhe nega a cidadania plena.
Em suma, a feminização da educação é também uma racialização da desigualdade — e compreender isso é o primeiro passo para desmontar as estruturas que fazem da docência feminina um território de resistência e de exploração simultâneas.
A armadilha neoliberal e o novo rosto da precarização
Nas últimas décadas, o discurso da “modernização” educacional tem servido de verniz para uma reconfiguração profunda: a precarização travestida de eficiência.
Sob a lógica neoliberal, o professor — e especialmente a professora — é convidado a ser empreendedor de si mesmo, gestor da própria miséria e entusiasta da própria exploração.
As reformas educacionais inspiradas em metas de desempenho e resultados mensuráveis — amplamente defendidas por organismos internacionais como o Banco Mundial — transferem a responsabilidade pelo fracasso do sistema para o indivíduo, apagando as causas estruturais da desigualdade.
A professora, já sobrecarregada, passa a ser também culpabilizada pelo baixo rendimento dos alunos.
A retórica da meritocracia se combina com a da “vocação”, formando uma dupla armadilha:
“Se você não aguenta, é porque não nasceu para isso.”
“Ser professora é um dom, não um emprego.”
Esses discursos servem ao mesmo propósito político: naturalizar o sofrimento feminino como parte inerente à profissão, e assim manter o sistema funcionando sem custo político para o Estado.
O apagamento simbólico e o silêncio institucional
A feminização da educação é também um processo de apagamento político da voz docente.
Enquanto a professora se multiplica em jornadas, o poder público reduz o debate sobre valorização à mera questão orçamentária.
Mas o que está em jogo é muito mais profundo: trata-se de um projeto de silenciamento social.
Em tempos de polarização e autoritarismo crescente, a figura da professora — antes vista como “mãe da nação” — passa a ser retratada como ameaça ideológica, “doutrinadora”, “inimiga do sistema”.
O mesmo Estado que se apoia em seu trabalho para manter o país de pé, a persegue simbolicamente quando ela reivindica direitos ou pensamento crítico.
Esse fenômeno ecoa o que já discutimos em “Professores, os Inimigos Invisíveis do Sistema Político” e “A Escola Abandonada: O Reflexo da Política Antissocial”:
a desvalorização docente não é apenas econômica — é um projeto de controle social e ideológico.
O discurso do amor e o preço da idealização
Uma das estratégias mais eficazes de manter a docência feminina submissa é transformar o amor em instrumento de contenção.
A ideia de que “professoras ensinam por amor” mascara a violência cotidiana que estrutura suas relações de trabalho.
O amor é invocado para justificar a ausência de salário digno, de infraestrutura, de reconhecimento.
Ele serve para humanizar a precariedade e estetizar o sofrimento.
Mas, como nos lembra a filósofa Silvia Federici, “não há emancipação no amor que se exige como dever”.
Enquanto o sistema se apoia nesse discurso sentimental, a realidade se impõe: as professoras estão adoecendo.
Segundo levantamento do Instituto Península, mais de 70% relatam sintomas de ansiedade, depressão ou exaustão — e 1 em cada 4 pensa em deixar a carreira nos próximos cinco anos.
Entre a vocação e a resistência
No entanto, apesar do quadro de exploração, as professoras têm sido as principais vozes de resistência democrática no país.
Elas organizam greves, mobilizam comunidades, denunciam cortes e censuras.
Em muitos municípios, são elas as primeiras a enfrentar governos locais que atacam direitos trabalhistas e desmontam políticas públicas.
Como vimos em “O Professor e a Resistência em um País em Crise”, o magistério é também um campo de luta simbólica:
a luta para que o trabalho de ensinar volte a ser ato político, e não caridade social.
Essa resistência cotidiana — feita de pequenas insubmissões, gestos solidários e coragem pedagógica — é o que impede o colapso completo da escola pública brasileira.
A professora resiste, mesmo quando o Estado lhe vira as costas.
A feminização como espelho do Brasil
A feminização da educação não é um fenômeno isolado — ela reflete o próprio desenho da sociedade brasileira.
Um país que valoriza o capital mais do que o cuidado, que explora as mulheres enquanto exalta sua força, e que aplaude professoras no discurso enquanto as abandona na prática.
Ao olhar para as salas de aula, enxergamos o espelho do Brasil:
- um país onde o trabalho feminino sustenta a base social;
- onde a desigualdade se disfarça de vocação;
- e onde a emancipação é usada como retórica para perpetuar a exclusão.
A feminização do magistério é, portanto, a síntese de um paradoxo histórico: o da mulher empoderada no discurso e explorada na realidade.
A urgência de uma revolução simbólica
Não bastam políticas de valorização salarial — é preciso uma revolução simbólica.
Enquanto o ensino continuar sendo interpretado como extensão do cuidado, as professoras continuarão a carregar o fardo da desigualdade.
Precisamos reconstruir o imaginário coletivo sobre o que significa ensinar.
Ensinar é ato de criação e poder social, não caridade.
É produção de conhecimento, não apenas cuidado afetivo.
E reconhecer isso é o primeiro passo para restituir à docência o prestígio que lhe foi roubado — e às mulheres, o direito de exercer sua profissão sem a sombra da culpa e da abnegação.
Epílogo — Ensinar é um ato de liberdade
Num país onde o ensino é majoritariamente feminino, a luta pela valorização docente é também uma luta feminista e democrática.
Não há emancipação possível enquanto o trabalho das mulheres continuar sendo base invisível da economia e da cultura.
E não há futuro para o Brasil enquanto as professoras continuarem a carregar sozinhas o peso da esperança nacional.
“Educar é um ato político, mas também um ato de fé.
Fé na palavra, no outro, no que ainda pode vir a ser.”
— Paulo Freire
O Brasil precisa ouvir as vozes que sussurram das salas de aula: as vozes das mulheres que, todos os dias, ensinam apesar do país.
A feminização da educação será um avanço apenas quando for também a feminização da justiça, da igualdade e da dignidade.
Até lá, o quadro segue claro:
Elas não são apenas professoras — são as guardiãs da democracia.
🧭 Interlinks recomendados
- Professores, os Inimigos Invisíveis do Sistema Político
- A Escola Abandonada: O Reflexo da Política Antissocial
- A Vergonha Nacional: O Brasil e a Desvalorização Docente