Há uma cena silenciosa que se repete em milhares de casas pelo Brasil. Depois de um dia inteiro em sala de aula, uma professora chega em casa, tira os sapatos, suspira — e liga o computador. Corrige provas, preenche relatórios, prepara planos de aula. A jornada que deveria ter acabado no sinal continua madrugada adentro.
Essa é a rotina de milhares de educadores brasileiros, especialmente mulheres, que enfrentam jornadas duplas e triplas entre o trabalho na escola, as tarefas domésticas e, muitas vezes, um segundo ou terceiro emprego.
A profissão que deveria ser sinônimo de vocação e dignidade tornou-se, para muitos, uma batalha diária pela sobrevivência — emocional, financeira e física.
O Trabalho Invisível que Sustenta o Sistema
De acordo com o MEC, mais de 70% dos professores da educação básica no Brasil são mulheres. Entre elas, uma grande parte acumula tarefas domésticas e responsabilidades familiares — o que significa uma sobrecarga mental que o Estado ignora e a sociedade naturaliza.
O tempo que deveria ser dedicado ao descanso é consumido por planejamentos, reuniões, correções e plataformas digitais que não param nem aos finais de semana.
E o mais cruel: a maioria desses trabalhos não é remunerada. A docência brasileira é sustentada por uma engrenagem de trabalho invisível, feito por amor — mas explorado pela falta de políticas públicas que valorizem o tempo do educador.
O Estado que Cansa, Cobre e Culpa
Os professores brasileiros são cobrados como se tivessem acesso às melhores condições de trabalho, mas convivem com salas superlotadas, salários defasados e falta de apoio emocional.
Segundo dados da FCC, quase 40% dos docentes da rede pública trabalham em mais de uma escola — uma realidade que empurra o profissional ao limite do corpo e da mente.
O discurso meritocrático que domina a política educacional culpa o professor pelo fracasso escolar, ignorando que o sistema foi desenhado para sobreviver à custa de quem ensina.
A precarização se disfarça sob o nome de “modernização”. A tecnologia invade o espaço escolar, mas o Wi-Fi falha, os computadores são obsoletos e o suporte técnico inexiste. O professor se torna técnico, psicólogo, gestor, conselheiro — tudo, menos humano.
A Mulher que Ensina e Não Descansa
No Brasil, a profissão docente é atravessada por uma questão de gênero.
Grande parte das mulheres que lecionam são também mães solo, provedoras e cuidadoras de familiares. A jornada dupla (ou tripla) é uma realidade cruel e silenciosa.
Um levantamento da Fundação Carlos Chagas aponta que professoras dedicam, em média, 52 horas semanais ao trabalho — incluindo atividades fora da escola. Esse número ultrapassa o limite saudável e explica o aumento alarmante de casos de burnout e depressão entre educadoras.
❤️ Reportagem: Professoras e o Burnout
Entre o Salário e a Sobrevivência
Em muitas cidades, o salário base de um professor mal cobre o custo do transporte e da alimentação.
De acordo com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), 16 estados brasileiros ainda pagam abaixo do piso nacional.
Com isso, cresce o número de docentes que precisam dar aulas em três turnos — manhã, tarde e noite — para garantir o básico.
A profissão mais nobre tornou-se uma das mais exaustivas e menos valorizadas.
Enquanto políticos exaltam a “importância da educação”, professores lutam para pagar o aluguel.
Adoecer Não é Fraqueza: É Consequência
A saúde mental dos educadores entrou em colapso. Segundo a Fiocruz, mais de 60% dos professores relatam sintomas de ansiedade, estresse e exaustão.
O cansaço deixou de ser físico. Ele é emocional, estrutural e institucionalizado.
O professor que adoece é tratado como incapaz, quando, na verdade, é vítima de um sistema que se alimenta da sua dedicação até o limite da resistência.
⚠️ Pesquisa Fiocruz: Ansiedade e Estresse Docente
Políticas que Cansam Mais do que Ajudam
As reformas educacionais recentes — como a BNCC e o Novo Ensino Médio — prometiam inovação.
Mas, na prática, trouxeram mais burocracia, menos autonomia e mais pressão sobre o professor.
O resultado? A docência virou um campo de sobrevivência.
Enquanto as escolas privadas investem em bem-estar docente, as redes públicas tratam o professor como mero executor de políticas impopulares.
O educador é cobrado para formar cidadãos críticos, mas não tem tempo nem de cuidar da própria saúde.
A Força que Resiste
Apesar de tudo, há resistência.
Professores se organizam em redes de apoio, coletivos e sindicatos que lutam pela dignidade do magistério.
Movimentos como o Educação em Pauta e outros trazem à tona o debate sobre o adoecimento docente e o direito ao descanso.
E há esperança na solidariedade entre educadores — que compartilham materiais, trocam experiências e se apoiam mutuamente para continuar.
O Que o Brasil Precisa Entender
Ensinar é um ato de amor — mas amor não paga conta, não cura burnout e não substitui políticas públicas.
A valorização do professor passa por salário digno, estrutura adequada, tempo para planejar e direito ao descanso real.
O país que desvaloriza seus mestres sabota o próprio futuro.
O professor não é inimigo da eficiência. Ele é o motor da mudança. Mas para que essa mudança aconteça, é preciso cuidar de quem ensina.
Conclusão: O Cansaço que Também é Coragem
A jornada dupla e tripla do magistério não é apenas um problema profissional — é uma crise de humanidade.
O professor brasileiro ensina, cuida, consola, improvisa.
Mesmo exausto, continua acreditando que pode transformar vidas.
Mas nenhum ideal resiste sem condições de existir.
O que os professores precisam não é de discursos inspiradores, mas de respeito, estrutura e políticas que os façam viver — e não apenas resistir.
🔥 Lute pela Valorização Docente
Texto de opinião jornalística e social desenvolvido para o projeto “Realidade do Professor” — parte da série sobre o cotidiano e os desafios da educação pública no Brasil.