A crise da educação não nasce dentro da sala de aula, tampouco é causada pela falta de empenho dos professores. Ao contrário do discurso dominante, que frequentemente responsabiliza o docente pelos baixos índices educacionais, existe um mecanismo silencioso e persistente que sustenta esse cenário: a política do desgaste. Trata-se de uma estratégia estrutural que, ao longo do tempo, fragiliza o professor física, emocional e financeiramente, reduzindo custos às custas da dignidade humana e da qualidade do ensino. Não é um erro do sistema — é o funcionamento dele.
Essa política não se anuncia em decretos explícitos nem assume forma direta. Ela se manifesta na sobrecarga, na precarização, na burocratização excessiva e na desvalorização contínua. É uma economia cruel: em vez de investir na educação, o sistema opta por explorar o limite humano do professor, até que ele adoeça, se cale ou desista.
O professor como recurso descartável
Em muitos sistemas educacionais, o professor deixou de ser visto como profissional estratégico e passou a ser tratado como um recurso substituível. A lógica é simples e perversa: se um docente adoece ou abandona a carreira, outro ocupará seu lugar, muitas vezes em condições ainda mais precárias. Essa visão transforma o professor em peça de reposição, e não em sujeito do processo educativo.
Contratos temporários, salários defasados, ausência de planos de carreira sólidos e instabilidade funcional fazem parte desse modelo. A insegurança constante impede o professor de planejar o futuro, investir em formação de longo prazo ou estabelecer vínculos duradouros com a escola. A rotatividade se torna regra, e o sistema economiza ao evitar compromissos trabalhistas mais robustos.
A sobrecarga como estratégia
Um dos pilares da política do desgaste é a sobrecarga sistemática. O professor não é apenas responsável por ensinar conteúdos, mas também por preencher relatórios, alimentar plataformas digitais, cumprir metas administrativas, lidar com conflitos sociais, acolher demandas emocionais dos alunos e responder às expectativas de famílias e gestores. Tudo isso sem redução de carga horária ou aumento salarial proporcional.
A multiplicação de tarefas dilui o tempo dedicado ao planejamento pedagógico e transforma o trabalho docente em uma corrida contra o relógio. O cansaço deixa de ser circunstancial e passa a ser permanente. O professor trabalha além do horário formal, leva trabalho para casa, sacrifica fins de semana e feriados. O sistema economiza contratando menos profissionais e exigindo mais de quem permanece.
A burocracia como forma de controle
A burocratização excessiva não é apenas ineficiência administrativa; ela também funciona como mecanismo de controle. Relatórios intermináveis, avaliações padronizadas e metas desconectadas da realidade escolar afastam o professor do núcleo do seu trabalho: ensinar. Ao mesmo tempo, criam a ilusão de eficiência e monitoramento, enquanto ignoram as condições reais em que o ensino ocorre.
Essa lógica transfere a responsabilidade pelos resultados exclusivamente para o docente, desconsiderando fatores estruturais como desigualdade social, falta de recursos e políticas públicas inconsistentes. O professor é cobrado por números, não por processos. O sistema economiza ao reduzir a educação a indicadores e culpabilizar quem está na ponta.
A normalização do adoecimento
A política do desgaste também se revela na naturalização do adoecimento docente. Ansiedade, depressão, síndrome de burnout e afastamentos por problemas de saúde tornaram-se tão comuns que passaram a ser vistos como parte da profissão. Em vez de questionar as causas, o sistema trata os sintomas, quando trata.
Licenças médicas são frequentemente encaradas como fraqueza ou falta de comprometimento. O professor adoece, mas sente culpa por se afastar. Ao retornar, encontra o mesmo ambiente que o adoeceu. Não há prevenção, apenas remendos. Essa lógica é conveniente: enquanto o adoecimento é individualizado, o sistema se isenta de responsabilidade.
Salários baixos e a economia da sobrevivência
Outro elemento central da política do desgaste é a manutenção de salários insuficientes. A remuneração baixa obriga muitos professores a assumirem múltiplos vínculos empregatícios para garantir a subsistência. O resultado é uma rotina exaustiva, com pouco tempo para descanso, estudo ou lazer.
Essa economia da sobrevivência impede o professor de se dedicar plenamente a uma única instituição, fragmenta sua energia e compromete a qualidade do ensino. Ainda assim, o sistema se beneficia: paga menos, contrata mais barato e mantém a engrenagem funcionando à custa do esgotamento humano.
O discurso da vocação como ferramenta de exploração
A ideia de que o professor trabalha por vocação é frequentemente utilizada para justificar a precarização. O amor pela educação, que deveria ser respeitado, é transformado em instrumento de exploração. Espera-se que o docente aceite condições injustas em nome de um ideal, como se exigir dignidade fosse incompatível com compromisso ético.
Esse discurso é perigoso porque desumaniza o professor. Ele deixa de ser trabalhador com direitos e passa a ser visto como alguém que deve se sacrificar. O sistema economiza ao substituir políticas públicas por apelos morais.
Impactos na qualidade da educação
A política do desgaste não afeta apenas o professor; ela compromete diretamente a qualidade da educação. Profissionais cansados, adoecidos e desmotivados têm menos condições de inovar, acompanhar individualmente os alunos e construir projetos pedagógicos consistentes. A escola perde sua capacidade transformadora e passa a operar no limite da sobrevivência.
Além disso, a evasão da carreira docente afasta profissionais experientes e desestimula novas gerações. Jovens observam a realidade da profissão e optam por outros caminhos. O sistema economiza no presente, mas paga um preço alto no futuro.
Uma economia que custa caro à sociedade
Economizar na educação por meio do desgaste docente é uma falsa economia. Os custos aparecem em forma de desigualdade social, baixa qualificação profissional, aumento da violência e fragilidade democrática. Uma sociedade que desvaloriza seus educadores compromete sua própria capacidade de pensar criticamente e construir soluções coletivas.
O professor é um investimento, não uma despesa. Quando o sistema escolhe quebrá-lo para economizar, escolhe também limitar o desenvolvimento social.
Conclusão
A política do desgaste é uma escolha estrutural. Ela não é resultado do acaso, mas de decisões que priorizam contenção de gastos em detrimento da dignidade humana. Quebrar o professor para economizar na educação é uma estratégia míope, injusta e insustentável.
Valorizar o docente exige romper com essa lógica. Exige investimento real, respeito profissional, condições dignas de trabalho e reconhecimento concreto. Sem isso, o sistema continuará funcionando às custas do adoecimento e da desistência de quem sustenta a educação todos os dias.
E nenhuma sociedade que se pretenda justa pode prosperar quebrando aqueles que ensinam.