A Voz Feminina na Escola: O Que as Professoras Querem Dizer


Introdução

Quando pensamos na escola brasileira, frequentemente imaginamos carteiras alinhadas, quadros-negros ou digitais, e uma lousa onde se inscrevem fórmulas e datas. Mas por trás dessa imagem — e muitas vezes invisível à sociedade — está uma figura fundamental e persistente: a professora. Guardiã de saberes, construtora de futuros, porta-voz de gerações. E, ainda assim, repetidamente silenciada.

Neste quadro, cabe perguntar: o que as professoras querem dizer? Quais são suas vozes, suas lutas, seus silêncios? Este artigo dedica-se a escutar, refletir e denunciar. Em pleno século XXI, as professoras brasileiras — mulheres que dedicam suas vidas ao ensino — enfrentam a falta de valorização, condições precárias, discriminação de gênero e uma cultura política que prefere ignorar do que reparar.

Através de uma abordagem crítica e empática, vamos percorrer essa paisagem: da feminização da docência ao esmorecimento das promessas políticas, das contradições do gênero na sala de aula às exigências invisíveis da maternidade. E, acima de tudo, vamos ouvir as professoras — não como coadjuvantes, mas como protagonistas da educação que o Brasil deseja (ou deveria desejar).


1. A feminização da profissão docente — e a precarização que a acompanha

Hoje, a docência na educação básica no Brasil é esmagadoramente feminina. Segundo levantamento recente, no segmento da educação infantil, 96,2 % das professoras são mulheres. No ensino fundamental, esse número é de 77,6 %. E ainda que diminua na medida em que avançamos para níveis superiores, permanece majoritário o gênero feminino.

A feminização, entretanto, não trouxe automaticamente reconhecimento ou valorização. Pelo contrário: quando uma profissão se torna “coisa de mulher”, historicamente ela costuma sofrer queda de prestígio, de remuneração e de poder. As professoras percebem que não basta educar o futuro, mas também sustentar invisivelmente a instituição escolar — e isso, muitas vezes, sem suporte real.

Estudos revelam que, entre professoras, a insatisfação no trabalho está correlacionada a maiores taxas de absenteísmo, adoecimento e esgotamento — resultados diretos de jornadas extenuantes, salários baixos e falta de autonomia. Revista de Medicina do Trabalho

Isso exige que nos perguntemos: se as mulheres são maioria no quadro docente, por que continuam em posição de vulnerabilidade? Qual o preço dessa invisibilidade estrutural?


2. Entre o quadro-negro e o afeto: a dupla jornada da professora e da mulher

Ser professora no Brasil frequentemente significa não apenas ensinar, mas cuidar, mediar, acolher — tarefas que se estendem muito além das aulas formais. E se essa mulher se torna mãe, a carga se intensifica. A maternidade, em si, é um emprego de tempo integral; a docência, também. A dupla — ou mesmo a tríplice jornada — torna-se real.

Para muitas, a escola exige disponibilidade além do expediente: reuniões, eventos, planejamento, recuperação, contato familiar. Simultaneamente, a sociedade espera delas “aquela que cuida” em casa — filhos, família, tarefas domésticas. A combinação resulta numa cisão emocional e física: a professora que é mulher passa a dividir seu tempo entre dois cuidar — o da sala de aula, o do lar.

E a política? Quietamente assiste. Poucas iniciativas estruturantes reconhecem esse fardo. Poucas veem que a valorização da professora inclui não só salários dignos, mas também jornadas consideráveis, suporte psicossocial, licença-maternidade adequada, políticas de conciliação entre trabalho e vida privada. A ausência dessa agenda revela o descaso com a figura feminina da escola.


3. A voz da professora negra: enfrentando racismo, machismo e invisibilidade tripla

Ser professora mulher já significa uma batalha; sendo negra, o hiato se torna ainda maior. A interseção entre gênero e raça revela uma realidade de dupla (às vezes tripla) desvalorização. A mulher negra teme não só o apagamento da voz docente, como também o silenciamento da sua identidade, o menosprezo das suas condições de trabalho e a invisibilidade da sua história.

No Brasil, embora não existam dados sempre desagregados suficientes para todas as etapas da docência, sabemos que o cenário da educação é marcado por desigualdades raciais profundas. Políticas públicas afirmam avanços, mas a experiência cotidiana das professoras negras diz outra coisa: “sou a maioria invisível”, “não fui ouvida”, “meus alunos espelham o mundo e reconhecem meu lugar de objeto, não de sujeito”.

Esse contexto exige que a sociedade e os formuladores de políticas públicas reconheçam não só a feminização da docência, mas a diversidade dentro dela — e que lutem para erradicar o racismo estrutural que atravessa a escola. Sem isso, a “voz feminina na escola” será sempre parcial.


4. Silêncios que carregam histórias: o que não se vê na sala de aula

A sala de aula parece um palco onde tudo se vê: alunos atentos, quadro branco, lição aplicada. Mas, por trás das cenas, acumulam-se silêncios — os da professora que corrige sozinha fora do horário; os da que consome seu tempo livre em planejamento; os da que adoecem em silêncio; os da que desistem.

Mesmo em meio ao esforço, muitas relatam que não são vistas como profissionais, mas como extensões naturais da escola — ou pior, da feminilidade. “Ser professora é missão”, ouvem-se com frequência. Como se missão não devesse ser remunerada, protegida, respeitada.

É esse paradoxo que devemos denunciar: a retórica da “missão” sustenta a ideia de voluntariado e culpa; mas a realidade exige competência, profissionalismo e condições dignas. Quando a professora é tratada como voluntária, o Estado se exime de sua responsabilidade. E as vozes femininas na escola são silenciadas.


5. A política que vira cópia: promessas vazias e ausência de ação

Quando examinamos as políticas públicas de educação — planos, metas, “decênios da valorização do magistério” — percebemos um padrão: a promessa de “valorizar o professor” não se traduz em real mudança. A política vira cópia: metas reiteradas, orçamentos cortados, bônus temporários, concursos interrompidos.

Enquanto isso, as professoras assistem à deterioração de suas condições: turmas lotadas, recursos escassos, paternalismo administrativo, salário defasado. Os governos falam em “educação como prioridade”, e ao mesmo tempo investem em turismo, em propaganda, em exposição midiática. E as mulheres da escola? Continuam cuidando, ensinando, acolhendo — sem que se reconheça seu protagonismo.

Por exemplo, o relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que o investimento por aluno no Brasil está entre os mais baixos da comunidade, e que a remuneração e a valorização docente estão longe de equiparar-se aos padrões internacionais. OECD

Se a política não vê essas mulheres, a sociedade se curva ao esquecimento. E a educação segue refém da invisibilidade.


6. Vozes-professoras: demandas claras, urgência maior

Então, o que as professoras querem dizer? A seguir, uma síntese da mensagem que ecoa nas salas de aula, nas comunidades e nos corredores das escolas:

  • Valorização salarial e estrutural: que os salários sejam dignos, compatíveis com a importância social da profissão; que as jornadas sejam respeitadas; que as condições de trabalho sejam sustentáveis.
  • Autonomia pedagógica real: que não se espere apenas cumprir fichas e protocolos, mas que se reconheça o saber docente, a criatividade, o vínculo com os alunos.
  • Reconhecimento da mulher-cuidadora: que a escola e o Estado reconheçam que ensinar não é apenas transmitir conteúdo, é também cuidar de vidas; que a maternidade e a docência não sejam impostas numa culpa silenciosa.
  • Combate ao machismo e ao racismo dentro da escola: que as professoras negras, indígenas, periféricas tenham voz e condição de protagonizar; que o silêncio institucional acabe.
  • Política educacional comprometida e coesa: que não sejam mais metas vazias ou slogans, mas um plano nacional de valorização que reconheça quem está frente às salas de aula — em grande maioria: mulheres.
  • Respeito e dignidade social: que a sociedade compreenda que, sem professoras valorizadas, não há educação digna; que a escola não é só lugar de aprendizagem técnica, mas de vida, de transformação.

Essa é a voz que vem das professoras. E não é voz de manifesto vazio — é voz de urgência histórica.


7. O impacto para além da sala de aula

Quando se ouve as professoras, percebe-se que sua valorização não beneficia apenas quem ensina. A valorização do magistério feminino produz impactos profundos:

  • Para os alunos: meninas e meninos que veem mulheres como referência em autoridade, competência e intelecto. As professoras-modelos quebram estereótipos.
  • Para a comunidade: a escola se torna espaço de transformação social, e a professora, agente de mudança.
  • Para o país: se negligenciarmos a figura da professora, comprometemos o futuro. A educação não é um “departamento” de governo — é pilar da democracia, da justiça social, da igualdade.
  • Para a mulher que ensina: reconhecer-se profissional, dar sentido ao tempo e ao esforço, desligar-se da ideia de missão sacrificial e adotar a ideia de profissão socialmente imprescindível.

Quando se investe em professoras, investe-se no Brasil inteiro. E ignorá-las é uma escolha política — que pesa no presente e se cobra no futuro.


8. Caminhos para a mudança ― com protagonismo feminino na central

Para que essa voz deixe de ser apenas um eco na sala dos professores e passe a ser diretriz de políticas e práticas, apresento aqui caminhos concretos, nos quais as professoras devem estar no centro — não como beneficiárias, mas como protagonistas.

8.1. Políticas públicas com recorte de gênero

É imprescindível que os planos de educação incluam a equidade de gênero no magistério. Isso significa: analisar os salários e condições de trabalho por gênero, garantir suporte específico para professoras-mães, promover programas de mentoria e liderança para mulheres docentes. Por exemplo, estudos da Universidade Estadual de Campinas indicam que mulheres em carreira acadêmica sofrem barreiras de promoção e remuneração. Jornal da Unicamp

8.2. Valorização real do trabalho docente

Isso envolve orçamentos adequados, infraestrutura nas escolas, redução da carga excessiva de tarefas burocráticas, reconhecimento formal da docência como profissão complexa. Como sugere relatório da Education International para o Brasil, a situação de professores — em especial mulheres — exige atenção imediata.

8.3. Formação contínua e carreira com igualdade

As professoras devem ter acesso a formação de qualidade, com tempo, suporte e incentivo para crescimento. A carreira docente deve ser estruturada com transparência e igualdade de oportunidades, independentemente de gênero.

8.4. Cultura institucional que respeite gênero e diversidade

A escola deve ser um ambiente onde a voz da mulher seja ouvida, onde o machismo seja enfrentado, onde a diversidade racial e de gênero se reflita no corpo docente, na autonomia e no protagonismo.

8.5. Visibilidade e narrativa positiva

As professoras precisam aparecer como sujeitos — nas comunicações, nas políticas, nos meios de mídia. Que se conte sua história, que se valorize seu trabalho, que se rompa o mito da “professora-virgem-sacrifício” e construa a narrativa da professora-profissional, da professora-poderosa.


9. Conclusão: Uma escuta ativa exige ação

Ao chegarmos ao final deste texto, fica claro que o que as professoras querem dizer vai muito além de um apelo emotivo: é um convite à justiça, à política que funciona, ao reconhecimento que transforma.

Quando ignoramos a voz feminina na escola, fechamos os olhos para uma das chaves mais poderosas da mudança social. As professoras não são apenas umas entre tantos educadores — são maioria, são ponte entre gerações, são investidores de futuro. E merecem ser ouvidas, respeitadas e incluídas nas decisões.

Se o Brasil quer escola de qualidade, o Brasil deve primeiro querer professoras de qualidade — e isso implica reconhecê-las. Fazer isso é caminhar para uma educação de verdade, igualitária, digna.

Que esta voz feminina na escola não seja apenas ouvida, mas reverberada. E que reverbere em políticas, em valor, em mudança.


Leia também:
Relatório da UNESCO sobre igualdade de gênero na educação
Estudo sobre insatisfação no trabalho e ausentismo entre professores brasileiros

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