Introdução
A educação, em sua promessa ideal de emancipação e transformação social, revela-se também como um palco cruel de desigualdades estruturais quando atravessada pela interseção de raça, gênero e classe. No Brasil contemporâneo, as mulheres negras — professoras, alunas, gestoras e multiplicadoras de saberes — jogam diariamente esse jogo desigual. Nossa sociedade lhes promete oportunidade, mas entrega invisibilidade; lhes promete valorização, mas entrega precificação; lhes promete reconhecimento, mas entrega silêncio. Este texto se propõe a dar voz a essa contradição — e denunciar políticos, gestores e instituições que sistematicamente negligenciam a equação da equidade na educação.
A intersecção da opressão na educação
A ideia de que existem diferentes camadas de opressão juntas — raça, gênero, classe — não é apenas uma reflexão abstrata, mas um dado de realidade na vida das mulheres negras brasileiras. O conceito de “opressão tripla” de fato articula esse entrelaçamento: as mulheres negras são simultaneamente oprimidas por machismo, racismo e por uma hierarquia econômica/classista. Wikipédia
Estudos demonstram que, no Brasil, uma mulher negra ganha significativamente menos que seus pares brancos e que a escolaridade não garante automaticamente a quebra desse ciclo de desigualdade. IHU Unisinos
No campo especificamente da educação, essa interseção se manifesta tanto na condição das alunas negras — com menor acesso, maiores obstáculos — quanto das professoras e demais profissionais da educação negra, que enfrentam desvalorização, invisibilidade e carga de trabalho desproporcional. sistemas2.uespi.br
É nesse terreno que emergem duas promessas — de igualdade e progressão — e duas realidades — de estagnação e retrocesso. E é nesse confronto que a responsabilidade política e institucional se revela: quando se omite, legitima; quando se contorna, perpetua; e quando se finge agir, maquilha.
O panorama brasileiro: dados e recortes essenciais
Acesso e permanência
De acordo com dados históricos, no Brasil de meados do século XX, 80% das mulheres negras tinham até quatro anos de estudo, enquanto entre as mulheres brancas esse percentual era menor. Fundação Perseu Abramo
Embora as diferenças exatas possam ter mudado, o cerne persiste: o acesso à educação de qualidade e a permanência no sistema escolar para meninas negras ainda enfrenta barreiras múltiplas — culturais, econômicas, institucionais.
Profissionalização docente e valorização
Para as mulheres negras que escolhem a carreira docente ou outras funções na educação, a luta dupla se converte em desvalorização tripla: de gênero (ser mulher numa profissão historicamente precarizada), de raça (ser negra num campo que reflete uma sociedade marcada por racismo estrutural) e de classe (a educação continua desvalorizada como profissão, em grande parte). Estudos recentes apontam esta realidade como ainda muito presente. sistemas2.uespi.br
O papel das políticas públicas
Há avanços: a adoção de cotas raciais e de renda em instituições de ensino federal brasileiras — que favorecem estudantes negros e de baixa renda — trouxe impactos positivos no longo prazo. arXiv
Entretanto, essa política de admissão não se traduz automaticamente numa estrutura de apoio institucional, valorização docente ou desconstrução de estigmas dentro do ambiente escolar. Ou seja: o ingresso é uma vitória — a permanência, o desenvolvimento e o reconhecimento ainda exigem muito.
Crítica política e social: onde os responsáveis falham
Invisibilidade institucional
Quantas vezes vemos planos de educação — municipal, estadual ou federal — que mencionam genericamente “educação para todos” sem sequer registrar a realidade específica das mulheres negras? Ou coordenadorias que não têm recorte racial/gênero/educacional claro e consistente? A invisibilidade dentro do planejamento institucional reproduz anualmente a desigualdade.
Precarização da carreira docente
As professoras negras — muitas vezes em escolas periféricas, com infraestrutura precária e cargas de trabalho elevadas — vivenciam uma desvalorização que vai desde remuneração, até reconhecimento, apoio pedagógico, condições de trabalho. Políticos que anunciam “valorização do professor” mas mantêm baixos orçamentos, pisos salariais defasados, jornadas extensas e falta de formação contínua falham três vezes: como promotores, como gestores e como transformadores.
Falta de representatividade e poder
É simbólico e concreto: quem decide políticas educacionais? Quem ocupa cargos de direção, supervisão, coordenação, secretaria de educação? Quando a maioria desses cargos é ocupada por pessoas que não refletem a diversidade racial e de gênero das escolas que dirigem, as perspectivas e prioridades mudam — ou melhor, não mudam. A desvalorização de quem forma gera uma produção de futuros que continua alicerçada na invisibilidade e no apagamento.
Resistência como obrigação
Se a educação ainda é vista por muitas mulheres negras como promessa de ascensão e liberdade — elas precisaram carregar essa esperança sozinhas. E dividir o fardo de ensinar, de aprender, de sustentar famílias, de resistir ao racismo estrutural. A sociedade que aplaude discursos de igualdade ainda não pagou esse débito. A nossa crítica é, portanto, contundente: gestores, deputados, secretários, governadores — quantos de vocês realmente ouviram, incorporaram, valorizaram a voz das mulheres negras na educação? Quantos agendaram essa pauta com prioridade real?
Histórias de resistência: docente, aluna, multiplicadora
A professora que resiste
Imagine uma professora negra em uma escola pública de periferia. Ela chegou ali porque viu na educação uma ponte — e encontra tijolos frágeis: salários atrasados, transporte difícil, materiais escassos, turmas superlotadas, falta de apoio institucional. Ao mesmo tempo, ela carrega dentro de si as marcações de ser mulher, de ser negra, de nascer em território onde “educação boa” foi historicamente privilégio. Ela se levanta todos os dias — e ainda sorri, ainda ensina, ainda acredita. Mas não é heroína que se selvagia: heroína que se reconhece e exige mudança.
A aluna que busca
Uma menina negra, primeira da família a almejar a universidade. Enfrenta representações de que “ali não é para mim”, assiste colegas desistirem porque não têm apoio em casa ou escola, enfrenta professores que desconhecem sua história, e um currículo que invisibiliza suas raízes. Se inscreve em cotas, passa — e lá, ainda precisa provar, ainda precisa se ver representada, ainda precisa que a educação institucional olhe para ela e diga: “você importa”. E importa de verdade.
A multiplicadora de saberes
E há aquelas que vão além das salas de aula: mulheres negras que são mentoras, pesquisadoras, ativistas na educação, impulsionam redes, produzem conhecimento, exigem aulas que falem das suas trajetórias, da ancestralidade negro-brasileira, da cultura afro-descendente, da decolonização dos currículos. Nosso sistema educacional promete pluralidade, mas ainda exige que essa pluralidade lute para existir.
Qual é a falha dos políticos? Por que a promessa permanece promessa?
Falta de orçamento e prioridade
Quando se compreende que “educar” não é apenas pagar salário ou distribuir livros, mas transformar realidades, a falha dos políticos se revela na alocação orçamentária. Salário docente congelado, bônus insuficientes, formação continuada negligenciada, adaptação de escolas que não considera diversidade, currículo que perpetua eurocentrismo. A educação das mulheres negras — e por extensão de toda a sociedade — fica como resto, não como centro.
Falta de accountability racial e de gênero
Não basta dizer que “somos todos iguais”. É preciso monitorar, avaliar, reconhecer que mulheres negras enfrentam obstáculos estruturais e que políticas de “universalização” costumam invisibilizá-las. Se as secretarias não trazem recorte de raça/gênero/classe aos seus dados, não haverá medição, muito menos melhoria. E quando não há medição, não há cobrança — e a desigualdade permanece.
Falta de valorização simbólica e cultural
A educação não é apenas técnica — é simbólica, formadora de cultura, de identidade, de pertencimento. Quando as escolas, os currículos, o ambiente não representam as mulheres negras — não veem sua cor, sua cultura, sua história — elas internalizam a mensagem de que não pertencem. Os políticos que não investem em cartilhas, formações, em professores que discutam identidade racial/gênero, em equiparar o saber negro como saber legítimo, falham na base da educação.
Falta de participação das mulheres negras na elaboração das políticas
Quem define as diretrizes da educação? Quantas mulheres negras estão no centro dessas decisões? A falta de participação equitativa reforça a invisibilidade institucional. Os políticos que dizem “representamos todos” e, ao mesmo tempo, ignoram as vozes negras femininas, entregam discurso vazio.
O que deve mudar — e como vai mudar
Currículos antirracistas e decoloniais
Implementação efetiva de currículos que considerem a história e a contribuição das mulheres negras à educação e à sociedade. A articulação entre raça, gênero e classe não pode ser um adendo — deve ser eixo. Estudos mostram que pensar educação decolonial implica reconhecer saberes negros, valorizar epistemologias diversas e combater o epistemicídio.
Formação e valorização docente com recorte racial e de gênero
Não basta “ter professor”. É necessário “ter professora negra valorizada”. Salário digno, carreira estruturada, formação contínua com foco em gênero e raça, apoio institucional para condições de trabalho. Aquelas que diariamente carregam turmas, subdividem atenção entre sala, casa e comunidade, merecem reconhecimento pleno, não aplauso superficial.
Políticas públicas com recorte interseccional
Orçamentos, metas, indicadores e avaliações que considerem explicitamente as mulheres negras na educação — seja como alunas, seja como profissionais. Monitoramento de permanência, evasão, ascensão, promoção. A política precisa auditar o impacto nas mulheres negras com a mesma seriedade com que audita resultados gerais.
Participação ativa das mulheres negras na definição e no controle
A voz das mulheres negras deve estar nas comissões de educação, nas secretarias, nos conselhos escolares, nas instituições de apoio. Sua experiência é capital político, cultural e pedagógico. Os políticos que as excluem perpetuam o ciclo de invisibilidade.
Cultura de valorização e visibilidade
A escola, a comunidade, o país precisam reconhecer publicamente a contribuição das mulheres negras — como professoras, pesquisadoras, gestoras, multiplicadoras. Não para comemoração simbólica, mas para integração real. Espaços de mentoria, redes de apoio, publicações, representações positivas. Quando a aluna vê a professora negra, vê que pode. Quando a professora negra vê a gestora negra, vê que ainda pode mais.
Um chamado à ação política, social e educacional
Educar não é neutralizar, é transformar. E para transformar, não se pode dispensar a consciência crítica, a interseccionalidade, a justiça social. Aos políticos que declaram “educação prioridade”, lembramos: não basta discurso. Prioridade real se vê em orçamento, em condição de trabalho, em currículo, em formação, em representatividade. Aos gestores que comandam secretarias de educação, às escolas que prometem “inclusão”, perguntamos: onde estão as mulheres negras na direção, na supervisão, no debate? Aos sindicatos, às associações de professoras e professores, às comunidades escolares: a luta é de todos — mas é urgente, em especial para as mulheres negras que há décadas sustentam a promessa da educação e continuam sub-valorizadas.
A desvalorização tripla não é inevitável. É construída. E portanto, pode ser desconstruída. A luta dupla das mulheres negras — contra racismo e gênero — não merece ser ampliada pela negligência de classe ou institucional. Quando esse ciclo se romper, teremos não apenas justiça para as mulheres negras — teremos educação para todas e todos de forma integral.
Considerações finais
“Mulheres Negras e a Educação: Luta Dupla, Desvalorização Tripla” não é apenas um título para refletir — é um grito que exige resposta. A educação brasileira está em jogo quando desperdiça o talento, a voz e o saber das mulheres negras. Porque cada professora negra subvalorizada, cada aluna negra invisibilizada, cada política pública que negligencia raça/gênero no campo da educação é uma falha moral e histórica.
Enquanto os políticos continuarem a tratar a educação como custo e não como investimento, como promessa e não como prioridade, as mulheres negras continuarão a pagar a conta mais alta. Mas a conta tem que deixar de existir — e exigir que ela seja quitada é tarefa de todo cidadão, de toda cidadã, de toda instituição.
Se não for agora — quando será? Se não formos nós — quem será?
Que a educação brasileira — de Norte a Sul, de escolas urbanas a rurais, de periferias a capitais — escute, valorize e transforme a vida das mulheres negras, de verdade. Que a luta dupla se torne poder e reconhecimento. Que a desvalorização tripla vire memória — e que a educação se torne o caminho concreto para justiça, igualdade e dignidade.
Links úteis para consulta
- Reportagem “Ser negra e mulher, a discriminação dupla no Brasil” publicada no portal IHU Unisinos: IHU Unisinos
- Artigo “Desafios e desigualdades enfrentadas pelas mulheres negras” (2025) pela UESPI: sistemas2.uespi.br
- Página da wikipédia sobre “Julho das Pretas”, iniciativa que aborda mulheres negras, educação e mobilização social: Wikipédia
Obrigado por ler até aqui. Que esse texto não apenas sensibilize, mas mobilize — porque educação sem justiça não é educação, e justiça sem ação é silêncio.