O Orgulho de Ser Professor: Uma Realidade Longe do Brasil

No Brasil, a profissão docente carrega um paradoxo cruel: ao mesmo tempo em que muitos professores dedicam suas vidas à missão de transformar gerações, a sociedade e os poderes públicos raramente devolvem o reconhecimento, as condições ou o prestígio compatíveis com esse papel. Este ensaio — jornalístico, empático e crítico — investiga por que o orgulho de ser professor permanece uma realidade para poucos, e por que o Brasil se afasta de tornar esse orgulho uma norma.


1. A vocação que resiste

Ser professor não é só aplicar conteúdos escolares: é apostar no futuro, é acreditar em vidas que ainda se escreverão. Há relatos de educadores brasileiros que começaram a carreira quase por acaso, mas se descobriram na rotina de sala de aula. Em um artigo recente, vemos a fala de uma professora de Paranaguá (PR):

“Ser professora é uma profissão exigente, mas que traz reconhecimento todos os dias, seja no sorriso, na palavra ou em uma lição aprendida.” Folha do Litoral News

Esse sentimento – de vocação, de propósito – existe de fato entre muitos docentes. Contudo, a persistência desse orgulho está ameaçada pela falta de respaldo institucional, pela sobrecarga e pela sensação de invisibilidade. Para cada professor que diz “sou educador por amor”, há sistemas que dizem “você é funcionário de segunda”.


2. O Brasil que não permite o orgulho docente

2.1 Profissão sem prestígio social

Um estudo da OECD sobre educação no Brasil aponta com clareza: “the teaching profession fails to attract able young entrants in Brazil: teacher salaries are lower than for other tertiary-educated careers, the profession is not socially valued…” OECD Em outras palavras: quando se pergunta à sociedade sobre se “o professor é prestigiado”, o Brasil responde com silêncio ou descrédito.

Outro levantamento menos técnico e mais direto afirma que o Brasil vive uma “profissão em risco”: “Low wages are just the tip of the iceberg … the lack of recognition that doesn’t appear on a paycheck is propaganda.” CPG Click Petróleo e Gás Ou seja: o problema não é só remuneração – é reconhecimento, é valor simbólico.

2.2 O orgulho sob pressão

A pesquisa publicada na revista Psicologia Escolar e Educacional indica que 57% dos professores relataram que “orgulham-se de sua profissão” — o que significa que 43% não o fazem. SciELO Essa erosão do orgulho não é trivial: ela afeta motivação, permanência na carreira, qualidade do ensino. Se o professor não sente orgulho, quem sustenta a educação pública?

2.3 A jornada dupla e invisível

Além do desafio de ensinar, muitos docentes acumulam horas fora de aula, lidam com falta de materiais, trabalham em mais de uma escola ou função. Um relatório da OECD aponta que 57% dos professores brasileiros de nível secundário trabalham em regime parcial — muito acima da média de países da OCDE. OECD Essa realidade fragiliza a condição profissional: não há estabilidade, não há tempo para planejamento, não há sensação de carreira sólida.


3. Por que “orgulho” importa — e por que ele abandona a sala de aula

3.1 O orgulho como combustível

Quando o professor sente orgulho, ele assume sua posição como agente de transformação, não apenas executor de tarefas. O orgulho intenso permite que ele crie vínculos mais forte com alunos, supere adversidades e se engaje em inovação pedagógica. Educação de excelência exige mais do que presença física: exige paixão, identificação, esperança. E isso nasce do orgulho.

3.2 Consequências da ausência de orgulho

Sem orgulho, a profissão se esvazia de sentido. Vemos professores cansados, desmotivados, buscando “sobrevivência” em vez de ensino. Com menos orgulho, a circulação de talentos se acelera para outras carreiras, a entrada de jovens se retrai. A própria pesquisa da OECD afirma que a profissão docente no Brasil “falha em atrair” novos perfis. OECD O resultado: escolas que embarcam numa rotina de mediocridade e abandono.

3.3 O orgulho como questão política

Não se trata apenas de “queremos mais reconhecimento”. Trata‐se de uma falha de Estado, de um desprezo institucional, de uma cultura pública que não entende que valorizar o professor é investir no futuro. Quando os governantes não agendam a valorização docente como prioridade, o orgulho se torna ato de resistência. E resistir cansa.


4. A teia de fatores que destrói o orgulho

4.1 Infraestrutura e recursos insuficientes

Como pode o professor sentir orgulho quando sua sala de aula carece do básico – livros, laboratórios, infraestrutura decente? A falta de apoio material e humano torna o exercício da profissão uma luta diária. O estudo da FAPESP mostra que o Brasil está enfrentando “teaching-degree crisis” justamente porque muitos desistiram de se tornar docentes diante da perspectiva de precariedade. Revista Pesquisa Fapesp

4.2 Sobrecarga e condições de trabalho

O desgaste do magistério é real: correção de provas em casa, acúmulo de funções, salas superlotadas, falta de apoio de gestão. Um dos relatos denuncia: “verbal aggression or threats” a mais de metade dos professores em algumas redes. CPG Click Petróleo e Gás Quando a sala de aula vira campo de batalha, sobra pouco espaço para o orgulho florescer.

4.3 Baixos salários e carreira desestruturada

Se o salário do professor está abaixo de outras profissões com nível similar de formação, como apontado pela OECD, o recado é claro: “ensinar não vale tanto quanto outras carreiras”. OECD Quando a sociedade fala com o bolso, o professor escuta. E o orgulho esmaece.

4.4 Falta de reconhecimento público e simbólico

Valorizar o professor não significa apenas pagar melhor, mas reconhecer socialmente seu papel. O Brasil falha no reconhecimento simbólico: quem ensina ainda aparece como “gasta” ou “função de menor prestígio”. Um levantamento lamenta que apenas 12,6% dos professores brasileiros acreditam que “a profissão de professor é valorizada na sociedade”. nces.ed.gov

4.5 Políticas públicas episódicas e sem visão de longo prazo

O orgulho docente também requer estruturação de carreira, apoio educativo, programas contínuos de formação. No Brasil, a intermitência de políticas públicas fragiliza a profissão. Estudos apontam que a forma de apoio e desenvolvimento para o professor ainda é limitada. OECD


5. Exemplos de orgulho docente que resistem — e o Brasil os ignora

Em meio ao cenário adverso, há milhares de professores que mantêm o orgulho. Histórias de superação, de dedicação, de comunidades transformadas. No município de Paranaguá, uma educadora com quase três décadas de magistério afirma ter encontrado “realização” no ensinar – mesmo diante de condições difíceis. Folha do Litoral News

Esses exemplos deveriam servir de base para políticas de valorização — mas, ao contrário, muitas vezes são tratados como casos isolados, anedóticos, em vez de regra a ser estimulada.


6. O que os professores brasileiros dizem sobre orgulho e profissão

Em uma pesquisa recente, professores brasileiros responderam a questionários sobre motivação, satisfação e orgulho. Como já mencionado, apenas 57% disseram sentir orgulho, e menos de metade se sentia plenamente satisfeita com o trabalho profissional. SciELO

Esse dado sinaliza algo importante: o magistério não está em combustão máxima, mas em processo de esgotamento silencioso. Quando o orgulho se dissipa, o ensino perde não apenas qualidade, mas humanidade.


7. O custo social da falta de orgulho docente

7.1 Evasão de jovens talentos

Quando a carreira docente não atrai os melhores ou jovens de alto desempenho, perdemos capital humano. A pesquisa “Teaching Profession at Risk” informa que a taxa de jovens que pretendem se tornar professores no Brasil é menor do que a média internacional. Revista Pesquisa Fapesp A consequência? Faltam professores — e com eles, aulas, futuro, esperança.

7.2 Desigualdade educacional ampliada

Professores desvalorizados atuam em redes menos favorecidas, com menor formação, menos recursos. O ciclo se fecha: condições difíceis geram ensino mais fraco, o que aprofunda desigualdades. Valorizar o professor é também estratégia de equidade.

7.3 Desconexão entre sociedade e escola

Se a sociedade sinaliza que o professor não importa – por meio de salários baixos, condicionalidades negativas, discurso depreciativo – a escola abandona o compromisso social de ser agente de transformação. E os professores, por sua vez, sentem-se abandonados.

7.4 Comprometimento da democracia

O ensino não serve apenas ao mercado: serve à cidadania, à formação de sujeitos críticos, ao fortalecimento da democracia. Se o orgulho do professor se apaga, a educação perde potência de formar cidadãos comprometidos. Valorizar o professor é valorizar a própria democracia.


8. O chamado urgente à política e à sociedade

8.1 Quanto vale um professor – e por que isso importa

A política educacional brasileira precisa, urgentemente, tornar visível que professor não é gasto, mas investimento estrutural. Não é discurso de ocasião, é contínuo. Não é privilégio, é justiça.

8.2 Reestruturação da carreira docente

Carreira com progressão, estabilidade, formação de qualidade, mentoria — tudo isso alimenta o orgulho e fortalece o compromisso. A profissão de professor deve ser tratada como carreira de Estado, não de governo.

8.3 Reconhecimento público e simbólico

Campanhas de valorização, destaque social ao professor, reconhecimento real – não só medido em salário, mas em prestígio. Quando o país disser “ser professor é motivo de orgulho”, muitos começaremos a acreditar.

8.4 Condições de trabalho dignas

Infraestrutura, apoio institucional, redução de burocracia, combate à violência e aos abusos — são condições para que o orgulho floresça. Sem essas, o professor pode até querer, mas não consegue.

8.5 Engajamento da sociedade

Pais, comunidade, mídia, gestores precisam reafirmar o valor do professor. A escola só engrena quando todos os agentes entendem que o magistério é central — e não secundário.


9. Vislumbrar um futuro possível

Imagine um Brasil onde o professor ao entrar na sala de aula sinta que está sendo respeitado, valorizado, apoiado. Imagine escolas em que os professores têm tempo, recursos, reconhecimento — e que isso se reflita em aprendizagem real, em cidadania efetiva. Esse não é um sonho utópico, mas a consequência lógica de políticas públicas sensatas e de uma sociedade disposta a tratar seus educadores como merece.

E se disséssemos que esse Brasil já existe em potencial – basta que tenhamos vontade política, mobilização social e coragem de mudar. O orgulho do professor não é apenas sentimento individual: é condição necessária para que a educação seja pública, democrática, transformadora.


10. Conclusão: reavivar o orgulho — pelo futuro de todos nós

Quando o professor sente orgulho, ele transfere isso aos alunos, às famílias, à comunidade. Quando ele deixa de sentir, perde-se um elo vital no sistema educativo. O orgulho de ser professor não é piegas: é poder, é política, é construção de futuro.

Se o Brasil quer uma escola de qualidade, mais cidadania e menos desigualdade, deve começar por aí — valorizando quem ensina. Porque o professor não é apenas quem educa: é quem acredita no amanhã. E se esse amanhã não tiver orgulho, começamos a concretizar o atraso.

Que cada escola, cada rede, cada política e cada cidadão entenda: ser professor deve ser motivo de orgulho. Até que isso vire regra, continuaremos insistindo no fracasso quando poderíamos estar construindo excelência.


Referências para consulta adicional:

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