“Professor deve trabalhar por amor, não por dinheiro.”
— frase atribuída a Cid Gomes que, desde 2011, reverbera como síntese de um problema estrutural: o amor que move a docência não pode (e não deve) ser usado como justificativa para a escassez de condições, salário e respeito.
Introdução — uma frase que dói
Houve um momento, em 2011, em que a declaração pública do então governador do Ceará, Cid Gomes, sobre o papel do professor — “professor deve trabalhar por amor” — transformou-se em vento que atravessou salas de aula, assembleias sindicais e parlamentos. Para milhares de docentes, não soou como um elogio: soou como desdém. Soou como a repetição, por parte de um governante, da ideia de que a dedicação é suficiente para compensar a falta de reconhecimento material. Desde então, a frase virou símbolo: o professor que ama o ofício é considerado por muitos gestores políticos como um custo maleável — um ator voluntário que, por vocação, pode suportar condições indignas.
O contexto da fala: quando discurso e prática se desencontram
A polêmica envolvendo Cid Gomes — e que foi repetida em diferentes versões com repercussões e notas públicas de sindicatos e movimentos — não é um incidente isolado. É sintoma. Governantes, em níveis municipal, estadual e federal, frequentemente “cantam” a valorização do professor em campanhas e discursos. Mas quando o assunto exige sacrifício político — cortar privilégios próprios para redirecionar recursos à educação, alterar orçamentos, criar carreiras estáveis e bem remuneradas — faz-se silêncio, tecnicalidades e adiamentos.
Quem é o professor hoje: formação e esforço (dados essenciais)
O professor brasileiro não é um profissional despreparado ou descompromissado. Ao contrário: há décadas o corpo docente investe em formação e pós-graduação, mesmo sem garantia de retorno salarial compatível.
🟦 Acesse o perfil completo dos professores brasileiros (INEP)
Esses dados mostram esforço e qualificação que não se refletem integralmente em remuneração ou condições de trabalho. Esses números deveriam estimular políticas públicas generosas: planos de carreira robustos, formação continuada financiada, vagas efetivas por concurso e valorização material.
Retrato econômico: quanto vale um professor (e quanto vale um discurso)
A comparação internacional ajuda a explicar o choque: a remuneração média dos professores no Brasil está muito abaixo da média dos países desenvolvidos.
🟦 Education at a Glance 2024 — Relatório OCDE
Segundo o relatório, o salário mínimo estatutário para docentes de ensino médio inferior no Brasil é de cerca de US$ 23.018/ano, cifra 47% inferior à média da OCDE.
A lógica perversa do “amor que sustenta”
Por que é tão danoso reduzir a argumentação à ideia de que “é por amor”?
Porque o amor não compra materiais, não conserta escolas, não paga plano de saúde, não garante aposentadoria digna.
Precariedade contratual e perda da estabilidade
Nos últimos anos houve uma mudança estrutural nas formas de contratação no setor público educacional. Concursos, que deveriam assegurar previsibilidade e autonomia profissional, têm sido substituídos por contratações temporárias em muitos lugares.
🟦 Censo Escolar da Educação Básica 2024 — INEP
A perda de estabilidade tem efeitos imediatos: professores ficam mais sujeitos a pressões políticas e à rotatividade, o que afeta diretamente os alunos e o clima escolar.
Infraestrutura e recursos: o buraco por trás do aplauso
Além do salário e da estabilidade, a infraestrutura escolar é condição básica para que o amor pela profissão produza efeitos reais. Em muitos municípios, a lista de carências é extensa: salas improvisadas, falta de merenda adequada, prédios sem manutenção.
A fala de Cid Gomes como metáfora — e o efeito nas lutas sindicais
Quando um governante diz que o professor “deve” trabalhar por amor, o dano é simbólico e material. Sindicatos e associações apontam que esse tipo de frase legitima políticas de contenção salarial e enfraquece greves e reivindicações.
🟦 Nota da CNTE sobre declarações de desvalorização da docência
Impacto humano: vidas que não cabem em gráficos
As estatísticas — salários, percentuais, comparações internacionais — são essenciais, mas escondem algo impossível de quantificar: o efeito humano do desprezo institucional.
A política fiscal do descaso
A escolha de priorizar gastos é política. Quando se cortam verbas para educação e se mantêm privilégios parlamentares e isenções, a mensagem é clara: o magistério não é prioridade.
O efeito no estudante: quem perde com o desprezo?
Quando o professor é precarizado, todos perdem:
- Interrupção de projetos pedagógicos
- Perda de vínculo entre aluno e docente
- Rebaixamento da qualidade do ensino
- Aumento da desigualdade educacional
Caminhos possíveis: o que deve mudar
- Cumprimento do piso nacional docente com mecanismos de fiscalização
- Plano nacional de concursos públicos
- Reestruturação das carreiras com valorização progressiva
- Investimento em infraestrutura escolar real
- Transparência e controle social sobre os gastos da educação
Responsabilidade política: quem deve agir
- Executivos: cumprir piso e investir em escolas
- Legislativos: fiscalizar e legislar pela valorização
- Tribunais de Contas: auditar e punir desvios
- Sociedade civil: pressionar e acompanhar políticas
Conclusão — o preço calculável e o preço humano
A frase de Cid Gomes cristaliza um risco: transformar o amor pela profissão em justificativa para abandono institucional.
O preço é calculável — perda de qualidade, evasão, desigualdade — e também humano — saúde abalada, sonhos adiados.
Cuidar do professor é cuidar do futuro.
Sem isso, o país continuará cultivando o desprezo e chamando-o de vocação.
Fontes e Leitura Recomendada
🟩 Education at a Glance 2024 — OCDE
🟩 Perfil dos Professores — INEP
🟩 Censo Escolar da Educação Básica 2024
🟩 CNTE — Nota sobre desvalorização docente