O Professor e a Ética: Um Chamado à Responsabilidade Social


O Professor e a Ética: Um Chamado à Responsabilidade Social

Na encruzilhada entre idealismo e realidade, encontra-se o professor. Ele ou ela — mais frequentemente homens e mulheres que se dedicam a formar gerações — têm em suas mãos o tecido da sociedade: os valores, as competências, os sonhos e as frustrações. Porém, quando esse agente essencial da transformação é esquecido, desprezado ou instrumentalizado pelas engrenagens políticas e econômicas, a educação — e, por consequência, o próprio futuro coletivo — amarga déficits éticos que redundam em desigualdade, precarização e alienação.

Neste ensaio, ancorado na reflexão filosófica, na crítica política e no imperativo social, proponho um olhar contundente e empático sobre a condição do professor no Brasil — sua ética, suas responsabilidades e, principalmente, os obstáculos impostos por um sistema que parece preferir a mediocridade à emancipação.


1. A Ética do Professor: mais do que ofício, vocação

A palavra “ética” não cabe apenas entre as páginas de tratados filosóficos ou deliberações acadêmicas. No contexto do professor, ética significa: assumir a responsabilidade por formar sujeitos críticos, autônomos e capazes de questionar. Significa também resistir à tentação de repetir receitas, de aceitar a docência como rotina homogênea, de tratar a sala de aula como mero espaço técnico de transmissão de conteúdos. É abraçar o compromisso de transformar, de nutrir a consciência crítica — tal como nos ensinamentos de Paulo Freire, que falava da “conscientização” (conscientização) como urgência social. WikipediaSciELO

É por isso que o professor não pode — ou não deveria — ser um mero executor de currículo. Ele precisa entender sua função como parte de um projeto maior: o de uma sociedade mais justa, mais igualitária, menos sujeita aos fetiches do mercado e da performance fácil. A ética profissional, nesse sentido, exige autenticidade, autonomia, solidariedade e uma constante “revisão crítica de si mesmo”. A ética exige que o professor atue não apenas “para” os alunos, mas com eles — construindo juntos sentido, questionando juntos narrativas dominantes.


2. O contexto brasileiro: condições que fragilizam o protagonismo docente

Não faltam evidências da fragilidade da docência no Brasil. Consideremos algumas:

  • Segundo relatório da OCDE sobre políticas de educação no Brasil, embora os alunos relatem ver seus professores com entusiasmo, as condições de trabalho permanecem precárias — contratos temporários, múltiplas escolas, escassez de tempo para preparação — e muitos professores concluem que não há remuneração ou valorização condizente. OECD
  • Há um ordenamento ético formal para a profissão docente no Brasil — o “Ética profissional docente” — mas ele frequentemente carece de efetividade e presença concreta na vida diária da escola.
  • No âmbito da formação docente, a pesquisa mostra que ainda vivemos etapas de transição: a profissionalização, a valorização das pesquisas que apoiem professores, a valorização da carreira. ResearchGate
  • As reformas e a política educacional recente têm sido alvo de controvérsias — projetos como o da Escola Sem Partido indicam tentativas de instrumentalização da educação para narrativas ideológicas, em vez de oportunidades para o pensamento crítico. Wikipedia

Quando essas condições são somadas — desprestígio social, baixos salários, múltiplas exigências, ingerências políticas — o professor vê seu papel de agente de mudança cada vez mais engessado. E a ética desse agente se vê em conflito: como cumprir a missão de formar sujeitos críticos quando o próprio sistema limita, fragmenta ou desconsidera esse agente?


3. A responsabilidade social da docência: além da sala de aula

Ser professor não é simplesmente “dar aula”. É assumir a responsabilidade de participar — ativamente — da construção de uma sociedade mais consciente, mais livre, menos marcada por desigualdades estruturais. Vejamos os vetores dessa responsabilidade:

3.1 Formação crítica dos alunos

Em consonância com Freire, a educação deve levar o sujeito a “ler o mundo” — e somente assim participar da sua transformação. O professor, então, não só transmite conteúdos mas ajuda os alunos a interpretarem o contexto, a identificarem contradições, a compreenderem que a própria história da sociedade é moldada por interesses, lutas e valores.

3.2 Defesa da dignidade profissional

Quando um professor aceita condições indignas — classes superlotadas, falta de recursos, contratos precários — está cedendo à lógica da precarização de uma profissão essencial. A responsabilidade social aqui exige resistência: o professor deve exigir sua valorização, porque a qualidade da educação pública depende disso. Esta não é luta corporativa; é luta social.

3.3 Participação na política educacional

A docência não pode ser alheia à política que decide currículos, verbas, estrutura escolar, jornada de trabalho. A responsabilidade social passa por intervir, debater, exigir transparência e participação. A mera execução passiva de determinações administrativas é abdicar do papel de educador cidadão.

3.4 Ética no exercício cotidiano

Em sala de aula, ética significa tratar cada aluno como sujeito e não como número; fomentar o debate, escutar vozes silenciadas, desconstruir estereótipos; não compactuar com autoritarismos e promover a pluralidade de ideias. É construir ambiente de respeito mútuo, de empatia, de investigação.


4. A crítica aos políticos — e aos dispositivos que travam a educação

Com toda empatia pelos professores — que muito fazem, frequentemente com poucos recursos — cabe também uma crítica contundente àqueles que têm o poder de decidir e não decidem. Aos políticos, governantes, legisladores, cabem perguntas que não podem mais ser ignoradas:

  • Por que a educação continua sendo subfinanciada? Um estudo recente aponta que para o próximo pacto da educação no Brasil — Plano Nacional de Educação 2025‑2035 — o financiamento público é condição básica para que qualquer política de ensino médio tenha êxito.
  • Por que, apesar de tantos discursos de “valorização” do professor, a prática revela contratos precários, jornadas excessivas e remuneração insuficiente?
  • Como esperar ensino público de qualidade num país em que o magistério ainda é visto como “última opção”, com pouca atratividade entre jovens talentos? O relatório SABER-Teachers mostra que há alunos de licenciatura faltando, há evasão da carreira docente por falta de perspectiva. Teacher Task Force
  • Por que a política educacional se submete a correntes ideológicas, a interesses partidários, a mudanças de rumo conforme o vento político, ao invés de ser um projeto de Estado, estável e orientado pelo bem comum? A influência da direita radical nas políticas educacionais, por exemplo, mostra que a escola pode se tornar campo de disputa, não de emancipação. OneEducation
  • Como justificam os cortes ou congelamentos no investimento em educação em um país que ainda convive com dezenas de milhares de jovens fora da escola ou com desempenho escolar muito aquém do desejado? A OCDE reporta que no Brasil a taxa de conclusão do ensino médio está aquém da média, mesmo com aumento de matrícula. OECD

Essa crítica não é mero exercício de indignação: é parte da ética da responsabilidade. Se o professor tem obrigação moral de agir, de conscientizar, o Estado, por meio de seus representantes, tem obrigação moral de criar as condições para que esse agir seja possível — não só em discurso, mas em estrutura, verbas e valorização.


5. Caminhos para a reconstrução — um apelo à ação conjunta

Não basta, portanto, lamentar. A ética exige que se proponga — e que se realize — caminhos para a transformação. Eis alguns princípios e ações que podem orientar essa reconstrução:

5.1 Reconhecer o professor como sujeito de política, não apenas receptor

Valorizar o profissional, investir em sua formação continuada, ouvir suas demandas, incluí-lo nos processos decisórios. Um verdadeiro pacto nacional pela educação implica que os professores sejam parceiros e não meros “recursos”.

5.2 Garantir financiamento público estável e crescente para a educação

Cabe ao Estado assegurar que a educação pública receba recursos suficientes — seja para infraestrutura, seja para capacitação docente, seja para tecnologia ou pesquisa. Sem isso, qualquer plano seguirá sendo letra morta. O documento sobre o PNE 2025-2035 alerta que sem financiamento robusto, políticas ficam inviáveis.

5.3 Dar centralidade à formação ética e cidadã na escola

A escola pública precisa recuperar a dimensão crítica da educação, da reflexão social e do sentido público. O professor deve ter autonomia para mediar debates, problematizar injustiças, articular saberes e valores. Essa é a ética da educação democrática.

5.4 Lutar contra a mercantilização da escola

Não se pode aceitar que a educação pública seja moldada exclusivamente por lógicas de mercado, de resultados imediatistas ou de “aprendizagem” desvinculada da formação humana. A ética profissional exige proteger a escola como espaço público de reflexão, pluralidade e emancipação.

5.5 Cultivar solidariedade entre os pares e com a comunidade

O professor não atua sozinho — ele atua com seu corpo docente, com a família, com a comunidade, com a sociedade civil. Formar alianças, redes de apoio, trocar experiências, articular movimentos de valorização docente. A educação é um projeto coletivo.


6. Reflexão final: o desafio da esperança ativa

Em nossas sociedades marcadas por incertezas — seja econômica, política, ambiental ou moral — a educação emerge como farol possível: não como garantia automática de justiça, mas como campo de luta e esperança. O professor que abraça sua ética profissional sériamente torna-se agente dessa esperança ativa. E a responsabilidade social, então, não é apenas para o “outro” (o aluno), mas para o “nós”: uma sociedade que se reconhece em comunhão.

Para os políticos e gestores: não basta proclamar a “valorização da educação”. É preciso agir — financiar, estruturar, ouvir, participar. Para os professores: que se levantem, dialoguem, reivindiquem, experimentem, ensinem-a pensar e a questionar. Para a comunidade: que exija, participe, reconheça que a educação pública é bem comum, e como tal deve ser cuidada por todos.

Se a ética profissional do professor e a responsabilidade social pela educação pública se entrelaçam, então o nosso chamado é claro: não permitamos que o ensino seja refém de interesses alheios à formação humana plena. Façamos, juntos, da escola um espaço de liberdade, dignidade e crítica — pois a cidadania não se aprende sozinha, se faz. E quem forma a cidadania merece não apenas aplausos, mas condições reais para cumprir sua missão.


“Educar não é encher baldes, mas acender fogueiras.” — Parafraseando Hélder Pinto
Que nossas fogueiras se acendam nas escolas, e que os responsáveis por apagá-las sejam cobrados — e responsabilizados.


Referências externas úteis (para leitura ou aprofundamento):


Que este texto sirva como estímulo à reflexão, ao debate e à ação. Que não seja apenas palavras, mas convite à mudança concreta.

Deixe um comentário