Introdução
Vivemos em um cenário educacional onde sonhos parecem cada vez mais distantes — para muitos professores, para alunos, para comunidades escolares. Mas é justamente em meio à adversidade que a utopia ganha corpo e a resistência se transforma em esperança concreta. Este texto, alinhado ao tema “Resistência e Esperança”, busca amplificar a voz dos professores que se recusam a deixar de sonhar e que entendem que a educação pública é, antes de tudo, uma utopia necessária — um lugar de dignidade, equidade e emancipação.
É também uma crítica firme à política que abandona a escola pública, silencia o magistério, e prefere discursos vazios a investimento real. No entanto, é sobretudo um hino à utopia viva — aquela que se mantém enquanto houver quem ensine, enquanto houver quem aprenda, enquanto houver quem se negue a aceitar menos.
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1. A utopia do ensino público como ato de resistência
Quando falamos de utopia no contexto educacional, não nos referimos a idealismo ingênuo — mas à crença fundamentada de que a escola pública de qualidade é possível e que o professor não está ali apenas para cumprir um conteúdo, mas para construir futuros. Essa utopia é, por si mesma, resistência:
- Em Organisation for Economic Co‑operation and Development (OECD), relatório aponta que no Brasil o gasto por aluno da educação primária ao ensino superior é de cerca de US$ 3.762, cerca de um terço da média dos países da OCDE — o que mostra o quadro de subinvestimento. OECD
- Estudo do Economic Commission for Latin America and the Caribbean (ECLAC) mostra que desigualdades educacionais no Brasil persistem ao longo da vida econômica — ou seja, a utopia da mobilidade social via educação permanece distante para muitos. CEPAL
- Conforme relatório de desigualdade, a educação pública brasileira ainda reproduz privilégios quando deveria corrigi-los: “students’ social and economic background […] have a significant impact on learning outcomes” — OU seja, a utopia da igualdade ainda enfrenta forte resistência na prática. OECD
Portanto, o professor que mantém viva a utopia está resistindo — resistindo ao discurso de que “já está bom”, ao apagamento da escola pública, à invisibilidade da docência. Ele está dizendo: não basta sobreviver à escola, a escola precisa florescer.
2. A contradição política: promessa de prioridade e prática de abandono
O sonho de uma educação pública forte bate de frente com uma realidade política de negligência, cortes, silenciamento. A utopia se faz ainda mais urgente enquanto a política falha em cumprir sua parte:
- A lógica de investimento público mostra que apesar de esforços, os recursos ainda são insuficientes e mal distribuídos. Um estudo enfatiza que a educação é um fator de mobilidade social — mas “Brazil allows schools to reproduce inequality, a thing of the past generation”. imdsbrasil.org
- A política educacional muitas vezes trata a escola como variável de ajuste: contingenciamentos, retração de investimentos, falta de participação social. Mesmo com avanços, “disadvantaged individuals face barriers both in accessing and remaining in education” no Brasil. OECD
- Quando a utopia se encontra com a omissão: professores que recebem salários atrasados, escolas com infraestrutura precária, turmas superlotadas, sobrecarga de trabalho — e políticos que fotografam com cartazes de “educação em prioridade” enquanto pouco fazem para mudar o cotidiano.
É nesse hiato entre promessa e prática que a utopia do professor torna-se resistência — e que resistir passa a ser, literalmente, exigir que a política faça jus ao compromisso público com a educação.
3. O professor como agente da utopia — entre a exaustão e a esperança
Para que a utopia não fique somente no discurso, é necessário que o professor a encarne — no cotidiano, dentro da sala de aula, na articulação com a comunidade escolar. Esse agente enfrenta desafio após desafio, mas continua acreditando.
- Professores frequentemente relatam jornadas duplas ou triplas, falta de material didático adequado, salas sem ventilação ou com mobiliário inadequado, falta de apoio técnico e pedagógico. Ainda assim mantêm a missão de ensinar.
- Cada atividade realizada, cada projeto desenvolvido, cada aluno motivado é semente da utopia. Quando o professor enxerga sua função para além da “transmissão de conteúdo” — como formador de cidadãos, de consciência, de critica social — a utopia se concretiza em prática.
- A utopia também se alimenta da comunidade escolar. Pais, alunos, vizinhos que reconhecem a importância da escola, que pressionam por melhorias, que participam da gestão — tudo isso fortalece o professor e amplia a esperança.
Assim, o professor que sonha não é o que fantasiosamente acredita em resultados fáceis, mas o que teme resignar-se ao “já dá para sobreviver”. Ele é o que acredita que a escola pública valiosa é possível e trabalha para transformá-la — mesmo que isso implique luta.
4. Utopia vs Realidade: indicadores que desafiam e mobilizam
Para manter viva a utopia, é necessário confrontar os dados — os fatos que não podem ser ignorados — e usar-los como alavanca para mudança.
- A proporção de jovens de 18-24 anos que não estão em educação, emprego ou treinamento (NEET) no Brasil em 2024 era de 24%, acima da média da OCDE de 14%. OECD
- A desigualdade salarial entre trabalhadores com ensino superior e aqueles com apenas ensino médio é de cerca de 148% no Brasil — muito acima da média da OCDE. CEPAL
- Um estudo destaca que cada estudante que não conclui o ensino médio gera uma perda social estimada em mais de R$ 200 mil em produtividade e condições de vida. imdsbrasil.org
Esses números mostram que a utopia da educação transformadora não é apenas desejável — é urgentemente necessária. E para que seja alcançável, ela exige investimento, participação, valorização docente e uma política que acorde para a escola pública como centro da equidade social.
5. Caminhos para transformar a utopia em prática — propostas e mobilização
Sonhar ainda é preciso — mas sonhar com olhos abertos, com estratégia, com ação. A utopia do professor e da escola pública pode virar realidade se trabalharmos com decisões concretas, articulação coletiva e pressão política coerente. Algumas diretrizes:
a) Valorização docente plena
- Reajuste salarial regular, vinculado ao custo de vida, à inflação e à importância social da docência.
- Plano de carreira estruturado, progressão baseada não apenas em tempo, mas em qualificação, inovação pedagógica, impacto real.
- Formação continuada e real autonomia pedagógica, para que o professor seja agente e não funcionário.
b) Investimento em infraestrutura e equidade
- Garantir que todas as escolas públicas tenham salas ventiladas, iluminação adequada, bibliotecas, laboratórios, internet de qualidade — não apenas “algumas escolas-modelo”.
- Focar recursos prioritariamente nas escolas e redes com maior vulnerabilidade (periferia, zona rural, comunidades historicamente excluídas) para diminuir a disparidade que impede a utopia.
- Transparência no recurso público para a educação, e participação da comunidade escolar na fiscalização e decisão.
c) Políticas educacionais integradas e disruptivas
- Currículo que inclua cidadania, cultura crítica, história das desigualdades, educação para a democracia — não apenas disciplinas técnicas.
- Gestão democrática: conselhos escolares com representação de professores, pais, estudantes, comunidade, decidindo parte dos rumos da escola.
- Avaliação que sirva não para punição, mas para melhoria contínua, com apoio aos professores e recursos adequados para a aprendizagem.
d) Mobilização social e política contínua
- Professores e sindicatos organizados, exigindo que a utopia da educação pública seja assumida como prioridade de Estado — e não como retórica de campanha.
- Estudantes, famílias, sociedade civil unindo-se para reconhecer que a escola pública não é “última opção”, mas opção fundamental de futuro coletivo.
- Cobrança política permanente: orçamentos, cumprimento de legislação (como piso nacional do magistério), responsabilização por falhas no sistema.
Esses caminhos exigem coragem — dos professores, das escolas, dos gestores, da sociedade. Mas a utopia se alimenta dessa coragem.
6. Conclusão
“O Professor e a Utopia: Sonhar Ainda é Preciso” não é encapsular ingenuidade — é afirmar que numa sociedade marcada por desigualdades profundas, o sonho de educação pública digna é ato político, ato de resistência, ato de esperança.
A cada professor que entra na sala de aula, mesmo quando os recursos lhe faltam; a cada escola que funciona em território vulnerável; a cada aluno que acredita que pode mais — a utopia se aviva. E enquanto ela existir, a resistência estará viva, e a esperança não se extinguirá.
Aos políticos, gestores, representantes públicos: saibam que a utopia dos professores não é confortável para quem quer manter o status quo. Porque quando a escola pública funciona, a desigualdade recua, a cidadania avança, o país se transforma.
Aos professores que resistem: saibam que não estão sozinhos; seus sonhos ecoam e se multiplicam. A educação pública não será apenas sobrevivida — ela será tomada, por nós, como instrumento de emancipação.
Sonhar ainda é preciso. Mas também agir ainda é imprescindível. Porque a utopia do professor só se concretiza quando a escola pública deixa de ser reflexo de abandono e passa a ser espelho de dignidade. E isso é uma esperança viva.