Por Ansiedade Avassalada — Realidade do Professor
O retrato de uma classe que vive em movimento
É madrugada. O sol ainda não nasceu, mas o professor João já está de pé.
A primeira escola fica a 17 quilômetros de casa; a segunda, a quase 40.
Entre uma e outra, um ônibus lotado, uma marmita fria e um salário que mal paga a passagem.
O professor itinerante é o rosto da precarização silenciosa da educação brasileira. Ele carrega nas costas o peso de uma estrutura que o obriga a correr — não apenas entre escolas, mas contra o tempo, o cansaço e a invisibilidade.
A geografia da sobrevivência
De acordo com um levantamento da Fundação Carlos Chagas, 20% dos professores brasileiros precisam trabalhar em duas ou mais escolas para compor uma renda mínima.
Essa “itinerância forçada” não é uma escolha — é uma condição de sobrevivência.
O professor que sai de casa antes do amanhecer e retorna após as 22h vive uma rotina que beira o desumano.
Ele não é um profissional multitarefa por vocação, mas por necessidade.
As longas distâncias entre escolas — especialmente em regiões rurais e periferias urbanas — transformam cada dia em uma maratona. O tempo que poderia ser dedicado a preparar aulas ou descansar é consumido nas estradas, nos ônibus e nos engarrafamentos.
O cansaço que o Estado não vê
Há uma romantização perigosa da “vocação docente”.
Como se amar ensinar fosse suficiente para suportar jornadas fragmentadas, contratos precários e a ausência de direitos básicos.
O professor itinerante é tratado como um recurso descartável.
Quando adoece, o sistema o substitui rapidamente, sem plano de saúde, sem estabilidade e sem empatia.
Um relatório recente da Agência Brasil mostra que os transtornos de ansiedade e depressão estão entre as principais causas de afastamento no magistério.
O cansaço físico se soma ao emocional: medo da violência, falta de apoio psicológico e ausência de políticas de valorização.
As fronteiras invisíveis da docência
Ser itinerante não significa apenas deslocar-se fisicamente.
É também atravessar fronteiras sociais e emocionais todos os dias.
Em uma manhã, o professor dá aula em uma escola pública carente, com infraestrutura precária e alunos famintos.
À tarde, está em uma instituição privada, onde a cobrança é outra — desempenho, resultados, fluência em inglês.
Esse contraste constante mina a autoestima e reforça a sensação de não pertencimento.
O professor sente-se um visitante permanente — nunca integralmente parte de lugar algum.
A logística cruel da precarização
Cada hora-aula é contada como um tijolo na sobrevivência.
Mas o que o sistema não contabiliza são os quilômetros percorridos, os atrasos inevitáveis e o desgaste mental.
A jornada de deslocamento, muitas vezes, consome o dobro do tempo de trabalho em sala.
E, ironicamente, o professor paga do próprio bolso para se locomover entre escolas.
Segundo o Censo Escolar 2019, mais da metade dos docentes brasileiros precisam se deslocar para municípios vizinhos para cumprir carga horária integral.
Um número que revela não apenas a falta de estrutura, mas também o abandono institucionalizado da categoria.
A fragmentação da identidade docente
“Eu nunca sei onde estou almoçando”, confessa uma professora do interior do Paraná.
“Às vezes almoço no carro, outras vezes no corredor, quando dá tempo.”
O cotidiano do professor itinerante destrói a ideia de identidade profissional.
Não há tempo para construir vínculos com a comunidade escolar, conhecer famílias ou acompanhar o progresso dos alunos a longo prazo.
Essa fragmentação afeta diretamente o aprendizado dos estudantes.
Um professor exausto, apressado e emocionalmente esgotado não consegue ensinar com qualidade — e a culpa recai injustamente sobre ele.
O abandono por trás das políticas públicas
As políticas educacionais brasileiras falam em “inclusão”, “equidade” e “inovação”.
Mas o cotidiano docente mostra outra realidade:
a falta de investimento e a ausência de planejamento de mobilidade.
O professor itinerante é o sintoma de um sistema que não planeja nem distribui adequadamente seus recursos humanos.
Enquanto alguns estados enfrentam déficit de professores, outros concentram contratos temporários e instabilidade.
O resultado?
Uma categoria cada vez mais adoecida e descrente do próprio propósito.
A violência do deslocamento
A cada dia, professores cruzam zonas perigosas para chegar às escolas.
Enfrentam assaltos, transporte precário e a ausência de segurança pública.
Esses trajetos não aparecem nas estatísticas oficiais, mas compõem o cenário de violência cotidiana invisível.
O medo constante e o esgotamento se tornam parte do uniforme.
A precarização como política de Estado
O itinerário do professor é, na verdade, o mapa do desmonte educacional brasileiro.
Contratos temporários, ausência de plano de carreira e remuneração defasada se tornaram regra — e não exceção.
O professor itinerante sobrevive onde o Estado se omite.
Ele é o elo mais frágil da cadeia, mas também o mais resistente.
Enquanto o governo fala em “educação de qualidade”, o professor mal consegue pagar o aluguel, o combustível ou a passagem do transporte público.
A resistência no meio do caos
Apesar de tudo, há resistência.
Ela se manifesta nos olhares dos alunos, nas pequenas conquistas diárias e na coragem de não desistir.
O professor itinerante é, antes de tudo, um sobrevivente político.
Sua rotina é um ato de resistência silenciosa, um lembrete de que a educação pública só existe porque alguém insiste em sustentá-la.
O que precisa mudar — e com urgência
- Valorização salarial e unificação de jornadas: nenhum professor deveria precisar trabalhar em três escolas para viver com dignidade.
- Políticas de mobilidade docente: incentivo à fixação de professores em comunidades carentes, com infraestrutura e segurança.
- Apoio à saúde mental: acompanhamento psicológico gratuito e constante.
- Fim da precarização: redução de contratos temporários e fortalecimento de carreiras estáveis.
- Reconhecimento social: devolver ao professor o respeito que lhe foi retirado.
Conclusão: o mapa da exaustão
O professor itinerante é o retrato mais cruel de um país que se acostumou a ver seus educadores adoecendo em silêncio.
Entre o cansaço e a esperança, ele segue — um viajante sem descanso, um guerreiro sem escudo.
Se há algo que ainda sustenta a escola brasileira, é o corpo cansado e a alma persistente desses profissionais.📰 Leitura complementar: CartaCapital — O professor itinerante e o desmonte da educação pública
Leitura complementar: CartaCapital — O dia do desmanche da educação pública
💬 Reflexão final
“O professor não quer ser herói.
Ele só quer ensinar — sem precisar correr.”