
A sala de aula, que deveria ser o templo do saber, tem se transformado em um campo de resistência. Resistência dos professores que, mesmo diante de salários defasados, estruturas precárias e desprezo governamental, continuam lutando para que o ensino público não desabe de vez. O problema é que o silêncio do Estado já não é apenas incômodo — ele é ensurdecedor.
A indiferença institucionalizada
Essa tendência de queda é confirmada por relatórios recentes que mostram um cenário desafiador para o financiamento educacional brasileiro.
De acordo com dados do relatório Education at a Glance (EaG), o investimento público em educação no Brasil apresentou uma redução média anual de 2,5% entre 2015 e 2021. Essa retração coloca o país em uma posição crítica internacionalmente, com um gasto por aluno na educação básica que é menos de um terço da média dos países membros da OCDE.
Principais Impactos Observados:
Qualidade Pedagógica: A redução de verbas afeta a oferta de materiais didáticos e programas de formação continuada, dificultando a recuperação de setores afetados pela pandemia.
Infraestrutura: A escassez de recursos compromete a manutenção de salas de aula e a modernização de equipamentos.
Valorização Profissional: Embora o MEC tenha anunciado investimentos pontuais em escolas, o Brasil ainda investe significativamente menos em professores comparado a referências globais.

Enquanto isso, escolas públicas continuam enfrentando falta de materiais básicos, laboratórios sucateados e ambientes insalubres. O professor, por sua vez, torna-se uma espécie de “herói forçado”, compelido a ensinar sem recursos e a suportar o peso da negligência estatal.
Professores: os esquecidos de sempre
Os dados apresentados refletem a profundidade da crise estrutural na carreira docente. A precarização vai além dos números orçamentários, atingindo diretamente a integridade física e emocional de quem sustenta o sistema educacional.
Realidade da Sobrecarga (Censo Escolar 2023)
O Censo Escolar 2023, coordenado pelo INEP, confirma que a necessidade de múltiplos vínculos é uma regra para garantir a sobrevivência financeira. Esse cenário gera o que especialistas chamam de “professor-uberalizado”, que transita entre diferentes escolas e redes sem tempo para planejamento ou descanso.
A Crise de Saúde Mental
Pesquisas recentes corroboram a gravidade da situação citada:
- Burnout e Afastamentos: No Brasil, a síndrome de burnout afeta cerca de 33% dos professores da educação básica. Em grandes centros, como São Paulo, registros de 2025 indicam que mais de 60% dos docentes da rede municipal já se afastaram por problemas de saúde nos últimos 12 meses.
- Sintomas Prevalentes: Levantamentos da Nova Escola apontam que 60% dos professores relatam ansiedade e 48% sofrem de cansaço excessivo.
- Reconhecimento Oficial: Desde 2025, o Brasil adotou oficialmente a nova classificação da OMS (CID-11), que reconhece o Burnout como doença ocupacional (código QD85), reforçando o dever institucional de prevenção.
Impactos no Sistema
O esgotamento docente cria um ciclo vicioso: o professor adoece, o sistema perde continuidade pedagógica e a qualidade do ensino cai. Segundo a Fiocruz, a saúde mental não é um detalhe individual, mas a própria estrutura do sistema educacional.
A falácia do discurso político
É comum ver campanhas eleitorais recheadas de promessas sobre “valorização da educação”. No entanto, a prática revela outra realidade: governantes tratam a pauta educacional como moeda de troca. Enquanto escolas se deterioram, o orçamento público é desviado para gastos supérfluos, cargos comissionados e benefícios a elites políticas.
“Educação é prioridade”, dizem eles. Mas prioridade que não recebe investimento, na prática, é apenas retórica vazia.
Segundo o relatório Education at a Glance 2024 – OCDE, o Brasil investe menos da metade por aluno em comparação à média dos países desenvolvidos. Ainda assim, discursos triunfalistas tentam convencer a sociedade de que há progresso — quando, na verdade, há abandono disfarçado de gestão.
O impacto do silêncio
Esse silêncio institucional mata sonhos. Crianças de periferias continuam sem acesso a ensino de qualidade. Jovens desmotivados abandonam a escola para sustentar suas famílias. Professores desistem da profissão. A indiferença política cria uma espiral de exclusão e perpetua desigualdades que se arrastam há gerações.
A Unesco alerta que o Brasil corre o risco de não cumprir as metas do Plano Nacional de Educação (PNE) até 2030, especialmente nas áreas de valorização docente e universalização do ensino médio.
O diagnóstico é preciso e urgente: o cenário de “silêncio institucional” reflete a falha em tratar a educação como prioridade estratégica.
Conforme o Relatório de Monitoramento Global da Educação da UNESCO, o Brasil enfrenta barreiras críticas para atingir as metas do Plano Nacional de Educação (PNE). O risco de não cumprimento até 2024 (com extensão para 2030) é agravado por:
- Abandono Escolar: Segundo o IBGE, quase 40% dos jovens que deixam a escola o fazem por necessidade de trabalhar, perpetuando o ciclo de exclusão que você mencionou.
- Desvalorização Docente: A UNESCO Brasil reforça que sem carreiras atrativas e apoio psicológico, a evasão de profissionais da área torna-se irreversível.
- Desigualdade Regional: Enquanto o investimento por aluno é baixo na média nacional, nas periferias e regiões Norte/Nordeste os recursos são ainda mais escassos, ferindo a meta de universalização do ensino médio.
A indiferença política mencionada materializa-se na descontinuidade de políticas de estado, que mudam a cada gestão, impedindo que os sonhos das crianças de periferia se tornem planos concretos de vida.
Educação como resistência
Apesar de tudo, o magistério brasileiro resiste. Resistir, nesse contexto, não é apenas ensinar — é denunciar, insistir, permanecer. São os professores que, com recursos próprios, compram materiais, organizam atividades e mantêm viva a esperança em meio ao caos.
Mas não há romantização possível: nenhuma vocação sobrevive indefinidamente à negligência.
Amor pelo ensino não paga contas, não garante dignidade e não substitui políticas públicas.
O que poderia ser feito
- Revisão urgente do piso salarial nacional com base na inflação e custo de vida regional.
- Políticas permanentes de saúde mental para docentes e servidores da educação.
- Auditoria e transparência no uso do Fundeb, com controle social efetivo.
- Programas de formação continuada integrados às universidades públicas.
- Investimento prioritário em infraestrutura escolar nas periferias urbanas e zonas rurais.
Essas ações não exigem milagres — apenas vontade política real.
O custo do descaso
Enquanto o Estado silencia, o preço é pago por toda a sociedade. A evasão escolar aumenta, a violência juvenil cresce e o desenvolvimento econômico estagna. Educação pública abandonada é sinônimo de país condenado à repetência social.
Não se trata apenas de investir em escolas — é investir em futuro.
E o futuro, ao contrário do que dizem os discursos, não se constrói com silêncio.
Governar por Amor? O Exemplo Que os Políticos Se Recusam a Dar
📚 Fontes consultadas:
- INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
- Fiocruz – Saúde Mental de Professores
- OCDE – Education at a Glance 2024
- Agência Brasil – Situação da Educação Pública
- CNN Brasil – Salas de Aula Precárias
✊ Leia também o próximo artigo da série:
👉 A Política do Desgaste: Como o Sistema Quebra o Professor Para Economizar na Educação