O Brasil é um país profundamente religioso e, ao mesmo tempo, profundamente desigual. Em meio a essa realidade, duas figuras exercem enorme influência sobre a formação do povo: o professor e o pastor. Ambos falam para plateias. Ambos ensinam. Ambos moldam mentalidades. Mas há uma diferença crucial entre eles quando analisamos o impacto estrutural na sociedade: enquanto o professor trabalha para ampliar horizontes e desenvolver pensamento crítico, muitos líderes religiosos — especialmente aqueles que transformam fé em instrumento político — têm optado por estreitar o debate e estimular divisões.
Entre esses líderes, destaca-se Silas Malafaia, conhecido por discursos contundentes, polarizadores e frequentemente direcionados contra professores e instituições de ensino. O contraste entre a atuação do educador e a retórica de determinados pastores revela um embate maior: conhecimento versus controle, diálogo versus imposição, liberdade de pensamento versus vigilância ideológica.
A Missão do Professor: Construir Consciência
O professor não trabalha com aplausos fáceis. Ele trabalha com processos longos, invisíveis e muitas vezes ingratos. A transformação que promove não acontece em um culto de uma hora, mas ao longo de anos de formação. Seu objetivo não é convencer, mas ensinar a pensar.
A educação formal desenvolve habilidades cognitivas, pensamento crítico, capacidade de argumentação, interpretação de textos, compreensão histórica e análise científica. Isso fortalece o indivíduo diante da manipulação. Uma população educada questiona, exige transparência, fiscaliza poder e cobra responsabilidade.
Não é coincidência que regimes autoritários historicamente tentem controlar escolas e universidades. Pensamento crítico é ameaça para quem deseja seguidores acríticos.
O Pastor Midiático e a Política da Polarização
O problema não é a fé. A fé, quando genuína, pode ser fonte de conforto, ética e solidariedade. O problema surge quando líderes religiosos transformam o púlpito em palanque político permanente e utilizam sua influência para deslegitimar outras instituições sociais.
Quando pastores acusam professores de “doutrinação” sem apresentar evidências sistemáticas, criam uma narrativa de suspeita generalizada. Essa narrativa cumpre dois objetivos estratégicos: fortalece a coesão interna do grupo religioso e desloca a atenção de problemas estruturais.
É mais fácil dizer que a escola é inimiga da família do que discutir desigualdade social, precarização do trabalho docente e ausência de investimento público. O discurso inflamado gera engajamento emocional. Já o debate estrutural exige responsabilidade.
A Contradição Moral
Há uma questão ética inevitável: qual é a responsabilidade moral de quem possui milhões de seguidores? Quando um líder religioso utiliza sua influência para atacar professores como categoria, ele assume o risco de alimentar hostilidade social contra profissionais que já trabalham sob pressão.
Professores enfrentam violência escolar, baixos salários, desvalorização institucional e sobrecarga emocional. Em vez de solidariedade, recebem desconfiança. Em vez de apoio, enfrentam suspeita pública.
Se a mensagem central do cristianismo gira em torno de compaixão, justiça e humildade, é legítimo questionar a coerência moral de discursos que estigmatizam educadores. O uso da fé como ferramenta de confronto político enfraquece o próprio fundamento espiritual que se diz defender.
Ensino Não é Doutrinação
Uma acusação recorrente é a de que professores estariam “doutrinando” alunos. Essa afirmação ignora como o sistema educacional funciona. Currículos são definidos por diretrizes nacionais, elaborados por especialistas, debatidos publicamente e submetidos a instâncias técnicas.
Ensinar história não é impor ideologia. Explicar contextos sociais não é destruir valores familiares. Apresentar teorias científicas não é atacar a fé.
A escola não substitui a família; ela complementa a formação do indivíduo. Ao invés de ver conflito inevitável entre fé e conhecimento, é possível enxergar convivência madura entre ambos.
Quando líderes religiosos promovem medo do debate, passam a mensagem implícita de que suas convicções não suportariam questionamento. Isso não fortalece a fé; enfraquece-a.
O Papel Social do Professor
O impacto do professor na mobilidade social é concreto. Educação aumenta renda média, reduz desigualdade, melhora indicadores de saúde e amplia participação política. Países que investiram fortemente na valorização docente colhem resultados consistentes em desenvolvimento humano.
O professor forma médicos, engenheiros, advogados, pesquisadores, artistas e também líderes religiosos. Ele atua na base da pirâmide social, onde tudo começa.
Enquanto isso, o pastor midiático muitas vezes concentra sua atuação em mobilização política e disputa ideológica. Não constrói políticas públicas educacionais. Não elabora currículos. Não melhora infraestrutura escolar. Atua no campo da opinião.
Ética da Responsabilidade
Liberdade de expressão é direito fundamental. Pastores têm direito de criticar políticas educacionais. O problema surge quando a crítica se transforma em generalização e demonização coletiva.
É eticamente problemático atribuir intenções malignas a toda uma categoria profissional sem base empírica sólida. Isso cria um ambiente de perseguição simbólica. Professores passam a ser vistos como adversários morais da família.
O impacto disso na sala de aula é real: pais desconfiados, alunos confrontando legitimidade do professor, clima de tensão permanente. Quem perde é o processo educacional.
Sistema que Tenta Silenciar o Pensamento
Há um paradoxo curioso: acusa-se a escola de doutrinação ao mesmo tempo em que se tenta limitar conteúdos, restringir debates e vigiar professores. Quando se propõe controle ideológico sobre o que pode ou não ser discutido, está-se, na prática, tentando exterminar a liberdade de pensamento.
Educação exige pluralidade. Pensamento crítico nasce do confronto respeitoso entre ideias distintas. Se a escola passa a ter medo de abordar temas sociais, históricos ou científicos por receio de retaliação, instala-se a autocensura.
E autocensura é o primeiro passo para o empobrecimento intelectual de uma nação.
A Luta Silenciosa dos Professores
Enquanto líderes religiosos ocupam espaços midiáticos, professores lutam silenciosamente. Compram materiais com recursos próprios. Trabalham além da carga horária. Adaptam conteúdos para alunos com dificuldades. Tentam mediar conflitos familiares e sociais que chegam à sala de aula.
Não há glamour nisso. Há compromisso.
A valorização docente não é apenas questão salarial; é questão de reconhecimento moral. Quando a sociedade passa a tratar o professor como suspeito, desestimula talentos a ingressarem na carreira. Isso compromete o futuro coletivo.
Quem Constrói o Futuro?
O pastor pode orientar espiritualmente. Pode oferecer consolo. Pode organizar comunidades. Esses papéis são legítimos quando exercidos com responsabilidade.
Mas quem constrói a base estrutural de uma sociedade desenvolvida é o educador. Sem educação sólida, não há democracia madura, inovação tecnológica ou crescimento sustentável.
Ao comparar impacto social de longo prazo, a balança pende para o professor. Ele forma cidadãos capazes de pensar por si mesmos. E cidadãos autônomos são a maior garantia contra manipulação — seja política, econômica ou religiosa.
Conclusão: Respeito é o Caminho
O debate entre professor e pastor não precisa ser guerra. Fé e educação podem coexistir. O problema surge quando líderes religiosos optam por transformar educadores em adversários ideológicos.
Criticar discursos de figuras públicas como Silas Malafaia não é ataque à religião. É defesa da educação como pilar essencial da democracia.
Se o Brasil deseja reduzir desigualdade, fortalecer instituições e ampliar oportunidades, precisa investir em professores — não deslegitimá-los. Precisa proteger a liberdade de pensamento — não suspeitar dela.
No fim, a pergunta é simples: quem ajuda o povo a pensar por si mesmo? Quem amplia horizontes? Quem constrói conhecimento duradouro?
A resposta aponta para a sala de aula.
E enquanto houver professores resistindo a um sistema que muitas vezes os sufoca, haverá esperança de que o pensamento livre sobreviva.