Professora morta por aluno: A Dor de uma Tragédia que Ecoa na Alma de Todos

Foi em uma noite como tantas outras dentro de uma sala de aula que a violência irrompeu de forma brutal: a professora de Direito Juliana Santiago, de 41 anos, foi esfaqueada por um aluno dentro do Centro Universitário Aparício Carvalho (Fimca), em Porto Velho (Rondônia), e não resistiu aos ferimentos, apesar de ter sido socorrida e levada ao hospital. O autor do ataque — um estudante da própria instituição — foi contido por colegas e preso em flagrante.

A notícia em si já causa um choque profundo: um ambiente que deveria ser de aprendizagem, diálogo e respeito tornou-se cenário de morte. Mas muito mais do que a descrição dos fatos, esse episódio nos convida a uma reflexão dura e urgente — sobre como e por que chegamos a um ponto em que educadores podem ser alvo de agressões fatais no lugar onde mais deveriam estar seguros.

professora

O Ensino como Espaço de Risco

Por décadas, a escola e a universidade foram imaginadas como espaços protegidos da sociedade: templos do conhecimento, da formação cidadã e do futuro. Mas a realidade, infelizmente, é outra. No Brasil, casos de violência dentro de instituições educacionais já não são isolados — sejam ataques físicos, ameaças, furtos, brigas entre alunos ou — como agora — homicídios. Casos violentos já registrados em diversas partes do país incluem ataques com faca e até com revólver dentro de escolas públicas, como o caso de uma professora morta em ataque com faca em São Paulo em 2023, e tiroteios em outras instituições. Esses episódios, espalhados ao longo dos anos, expõem que a educação deixou de ser um espaço seguro por si só.

O episódio em Porto Velho choca ainda mais porque o agressor era aluno da instituição — alguém que deveria estar ali para aprender, e não para ceifar vidas. Isso levanta questões profundas sobre as falhas no processo de acolhimento e acompanhamento psicológico de estudantes, a falta de mecanismos eficazes de prevenção e intervenção em situações de risco, e uma cultura que muitas vezes negligencia sinais claros de alerta.

A Falta de Políticas de Segurança Eficientes

Uma das críticas mais fortes que emergem de qualquer análise sobre violência nas escolas é a falta de políticas claras e eficazes de segurança escolar. Isso vai muito além de ter um vigilante na portaria ou câmeras de segurança. A segurança escolar precisa ser pensada de forma holística:

  1. Triagem e Acompanhamento Psicológico: Não podemos simplesmente matricular estudantes problemáticos sem oferecer suporte psicológico adequado ou sem estabelecer um plano de acompanhamento. Em muitos casos, sinais de sofrimento, de violência ou de distúrbios emocionais ficam sem resposta até que se tornem crises.
  2. Apoio Profissional Especializado: A presença de psicólogos, assistentes sociais, pedagogos especializados e equipes treinadas para identificar riscos é essencial. Professores não devem ser deixados sozinhos para lidar com conflitos graves ou com alunos em sofrimento emocional profundo.
  3. Protocolos de Prevenção de Violência: As instituições educacionais devem ter protocolos claros para lidar com ameaças — rotinas estruturadas para comunicação entre alunos, pais, equipe escolar e autoridades; planos de resposta a comportamentos preocupantes; canais seguros para denúncias anônimas e proteção efetiva para quem faz tais denúncias.
  4. Integração com a Comunidade e Segurança Pública: A escola não existe isoladamente. Ela está inserida em uma comunidade. Parcerias com órgãos de segurança pública, com serviços de saúde mental e com a própria comunidade estudantil ajudam a promover um ambiente mais seguro e acolhedor.

Infelizmente, muitos desses mecanismos estão ausentes ou subfinanciados na educação brasileira — e isso produz lacunas que, em situações extremas, acabam em tragédia.

Professores à Mercê da Violência

Se olharmos para além de Porto Velho, a insegurança vivida por professores no Brasil é uma realidade que se manifesta de várias maneiras:

  • Ameaças físicas e verbais: Muitos professores relatam enfrentar desrespeito dos alunos, xingamentos, agressões físicas, ameaça com objetos — tudo dentro da sala de aula.
  • Falta de apoio institucional: Em diversas situações, quando um professor denuncia comportamento agressivo ou perigoso de um aluno, ele não encontra respaldo efetivo da direção, da coordenação ou mesmo de políticas educacionais para proteger a si mesmo ou sua turma.
  • Sobrecarga emocional: Professores lidam com salas superlotadas, falta de recursos, falta de suporte emocional e educativo aos alunos, o que transforma o espaço de ensino em um terreno de conflitos mal resolvidos.

A morte de Juliana — que além de professora também era escrivã da Polícia Civil, segundo algumas fontes — expõe com crueldade essa fragilidade. A violência não escolhe papelada ou habilidades: invade a sala de aula e tira a vida de quem dedicou sua carreira à educação.

Uma Cultura que Normaliza a Violência

Outro ponto que precisa ser abordado é como a cultura social e mediática influencia esses episódios. A normalização de posturas agressivas, brigas, disputas e até comportamento autodestrutivo como “coisa de jovem” dificulta que a sociedade, de forma ampla, reconheça os sinais de alerta. O uso indiscriminado de redes sociais, a exposição a conteúdos violentos e a falta de acompanhamento familiar ou comunitário contribuem para que jovens internalizem modelos de resolução de conflitos que não passam pelo diálogo ou pela busca de ajuda.

Não é coincidência que muitos episódios de violência escolar envolvam alunos com histórico de conflitos pessoais, dificuldades emocionais ou problemas não diagnosticados. Isso sugere que, como sociedade, ainda tratamos a violência como algo inevitável ou intrínseco à juventude, ao invés de enfrentá-la com políticas públicas, educação emocional e redes de apoio.

O Papel do Estado e da Sociedade

Diante de casos como o ocorrido em Porto Velho, é imperativo que o Estado — em todos os níveis — assuma sua responsabilidade com políticas públicas robustas para segurança escolar e apoio psicológico. Isso inclui:

  • Investimento em profissionais de apoio nas escolas: psicólogos, assistentes sociais, orientadores educacionais.
  • Capacitação continuada de professores e equipes para identificar sinais de risco e agir de maneira preventiva.
  • Protocolos nacionais e estaduais para segurança escolar, com financiamento adequado e medidas de fiscalização.
  • Programas que promovam a cultura da paz, resolução de conflitos e educação emocional desde a educação infantil.

Além do Estado, a sociedade civil, as famílias e as comunidades precisam se engajar. Educação não é função exclusiva do professor ou da escola — é um compromisso que deve ser compartilhado.

Homenageando Quem Ensina

A tragédia que tirou a vida de Juliana Santiago não pode virar estatística. Ela deve ser lembrada não apenas como uma vítima de violência, mas como símbolo do risco que profissionais da educação enfrentam diariamente sem a proteção que merecem.

Lutar por escolas verdadeiramente seguras é uma forma de homenagear a memória de cada professor que dedicou sua vida a ensinar — e talvez nunca tenha imaginado que seria alvo de violência no próprio ambiente que ajudou a construir.


Conclusão

A morte de uma professora dentro de uma sala de aula é um sinal de alerta. Não se trata de um episódio isolado ou distante da realidade de muitas escolas brasileiras. É um chamado urgente para que repensemos a segurança nas instituições de ensino, a atenção à saúde mental dos estudantes, o respeito e a proteção para quem ensina — e a responsabilidade de toda a sociedade em transformar as escolas em ambientes de paz e desenvolvimento.

Não podemos mais aceitar que professores convivam com insegurança, medo e risco de violência — dentro das salas de aula, nos corredores, ou em qualquer espaço que deveria ser sagrado para a formação humana.

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