Professores no Norte e no Sul: Um Abismo Global

Introdução

Em um mundo marcado por profundas desigualdades, a profissão docente — que deveria ser um dos pilares da emancipação humana e da justiça social — se vê atravessada por um abismo geográfico, econômico e moral. A diferença entre as condições de trabalho, remuneração, valorização e reconhecimento de professores nos países do “Norte Global” e no “Sul Global” é algo que exige não apenas constatação, mas crítica, ação e mudança. Neste texto, examinamos essa disparidade, apontamos suas raízes políticas e sociais, e fazemos um chamado — com empatia pelas trabalhadoras e trabalhadores da educação, e com contundência contra os que se omitem — para que a profissão docente seja tratada como prioridade global, não como variável de contenção.

1. O abismo real entre Norte e Sul

Segundo o relatório da UNESCO e da Teacher Task Force, em algumas regiões da Ásia-Pacífico, África Subsaariana ou Norte da África, os salários estatutários de professores estão entre US$ 300 e US$ 700 por mês em muitos casos. Teacher Task Force UNESCO Por outro lado, nos países mais ricos — os chamados países do Norte — encontramos remunerações que atingem dezenas de milhares de dólares por ano. OECD
Essa disparidade não se limita à remuneração: reflete condições de trabalho, infraestrutura, formação, suporte pedagógico e reconhecimento profissional. Em grande parte do Sul Global, os professores enfrentam turmas superlotadas, recursos escassos, jornadas extensas e salários incompatíveis com a responsabilidade exigida. Nos países do Norte, embora existam desafios, a remuneração e as condições tendem a ser muito melhores e a carreira docente mantém algum grau de prestígio.

2. Por que isso é uma questão política e social urgente

2.1 Educação como vetor de igualdade ou de reprodução da desigualdade

Quando professores no Sul global ganham fracamente, o risco não é apenas da desvalorização da profissão — é da perpetuação da desigualdade educacional, social e econômica. A educação deixa de ser mobilidade e torna-se continuidade da condição de vulnerabilidade.

2.2 A responsabilidade dos sistemas públicos e das políticas

Os governos que permitem — consciente ou inconscientemente — essa diferença estrutural, estão falhando no seu papel social. Existe uma contradição entre o discurso de “educação para todos” e o fato de que, em muitos países, a carreira docente é tratada como custo a ser contido, não como investimento estratégico.

2.3 A dimensão global da injustiça

Não se trata apenas da injustiça dentro de um país, mas entre países. O Norte pode se dar ao luxo de remunerar melhor seus professores; o Sul frequentemente não. E isso gera consequências internacionais: fuga de cérebros, migração de professores, dependência de programas externos, e uma perpetuação de um sistema que coloca o Sul em posição de menor agência.

3. O caso do Brasil e sua interseção com esse abismo

Embora o Brasil seja considerado uma economia emergente e não esteja entre os mais pobres, ainda sofre com sintomas semelhantes aos encontrados no Sul global: salários docentes que não condizem com a responsabilidade, infra-estrutura escolar precária em muitos municípios, desigualdade entre regiões.
A carga de trabalho dos professores, a falta de recursos de apoio, a necessidade de improvisação pedagógica e a baixa remuneração real colocam o Brasil mais próximo de um cenário de “Sul”, mesmo tendo características de “médio” nível de desenvolvimento. Essa posição intermediária funciona como alerta: se nem sequer garantimos condições decentes à docência em um país de renda média, como exigiremos isso nos locais mais fragilizados?

4. Dados reveladores e suas implicações

4.1 Dados comparativos

  • A média de salário de professores com 15 anos de experiência nos países da OCDE varia entre cerca de US$ 55 725 e US$ 63 925 para níveis de educação entre pré-primário e secundário. OECD
  • Por contraste, em diversos países do Sul Global, os números relatados são centenas ou poucos milhares de dólares anuais. Teacher Task Force
  • Além disso, o relatório da UNESCO destaca que uma das causas da alta taxa de rotatividade global de professores — que passou de cerca de 4,6% em 2015 para 9% em 2022 — é justamente a baixa remuneração e condições de trabalho desfavoráveis. VnExpress Internacional

4.2 O impacto dessa disparidade

  • Menor atratividade da carreira docente no Sul Global — jovens talentosos evitam a profissão ou saem cedo.
  • Maior rotatividade, menor continuidade pedagógica, menor engajamento dos professores.
  • Consequente impacto negativo na qualidade do ensino, especialmente para estudantes vulneráveis.
  • Heterogeneidade entre regiões dentro do mesmo país: o Norte/Sul geográfico muitas vezes reproduz-se em microescala dentro das nações.

4.3 O abismo interno e externo

Enquanto em alguns países do Norte a profissão tem carreiras estruturadas, reconhecimento público, suporte, no Sul global — e em diversas regiões brasileiras — a docência segue sendo uma função mal remunerada, invisível e mal-vista. Esse abismo interno replica o abismo externo entre Norte e Sul.

5. Quem paga a conta desse abismo?

5.1 As gerações futuras

Quando professores são mal remunerados, quem paga a conta são as gerações que deixam de ter acesso a uma educação de qualidade, e com isso oportunidades reduzidas de mobilidade social, emprego qualificado e participação democrática.

5.2 A cidadania e a democracia

Uma sociedade que desvaloriza seus professores está mais vulnerável à desigualdade, à reprodução de privilégio, à fragilidade democrática. Educar é exercer cidadania — e se os professores não são valorizados, a cidadania se torna uma promessa vazia.

5.3 A economia e o desenvolvimento

Investir em professores não é custo — é estratégia de desenvolvimento. Países que remuneram bem, formam bem. Países que restringem a remuneração docente pagam mais tarde — em exclusão, em fracasso escolar, em produtividade reduzida. O abismo entre Norte e Sul nesse aspecto revela como o desenvolvimento humano está condicionado à valorização da docência.

6. Crítica contundente aos decisores políticos

É preciso nomear: governos, legislaturas, conselhos de educação e poder público em geral que continuam tratando a remuneração docente como item flexível de corte, estão sendo cúmplices de uma injustiça estrutural.
Quando discursos de “transformação educacional” são reiterados, mas a carreira docente permanece subremunerada e mal estruturada, temos hipocrisia institucional. Quando políticas públicas para a educação ignoram o pilar da valorização dos professores ou o tratam como “secundário”, temos negligência grave.
E no âmbito internacional: organismos multilaterais, cooperações, empresas educacionais que promovem “soluções rápidas” para o Sul global sem enfrentar a raiz da precarização da docência mantêm o velho padrão colonial-educativo — Norte define, Sul executa, professores mal remunerados suportam o peso.

7. Caminhos possíveis para reduzir o abismo

7.1 Valorizar a carreira docente como prioridade global

Não basta “investir em escolas” sem “investir em professores”. A remuneração docente deve ser considerada parte essencial da meta de educação de qualidade e equidade. Como já alertou o International Institute for Educational Planning (IIEP): sem revisão salarial, qualquer reforma da carreira docente estará enrolada. IIEP UNESCO

7.2 Políticas com sensibilidade local e escala global

É necessário que cada país – inclusive o Brasil – tome medidas internalizadas para reduzir as desigualdades regionais (entre estados, municípios, regiões Norte/Sul internos) e ao mesmo tempo acorde com padrões internacionais de valorização.

7.3 Transparência, acompanhamento e prestação de contas

Monitorar como se distribuem os recursos para docentes, comparar índices de salário, condições, reconhecimento entre regiões e países, garantir que haja metas relativas à valorização docente que sejam tão exigentes quanto metas de desempenho estudantil.

7.4 Cooperação internacional com foco docente

As parcerias internacionais em educação devem levar em conta a valorização dos professores — mais do que infraestrutura, mais do que tecnologias, mais do que currículos — pois sem docentes motivados e bem remunerados, tudo o mais falha.

7.5 Mudança cultural: prestigiar o professor

Também é papel da sociedade reconhecer que o professor não é “apenas” executor de tarefas escolares, mas formador de cidadãos, mediador de justiça social, agente de transformação. Essa mudança simbólica ajuda a reconstruir o prestígio da profissão e a reivindicar remunerações compatíveis.

8. Empatia com os professores que vivem esse abismo

Para os professores do Sul Global — e para os muitos no Brasil que enfrentam jornadas extenuantes, baixos salários, poucas condições de apoio — cabe reconhecimento. Vocês não apenas ensinam conteúdos, mas resistem, transformam, inspiram. E mesmo assim sentem na carne o abismo entre suas condições e aquelas de colegas em países de renda maior.
Essa realidade não deve ser ignorada, mascarada ou naturalizada. A valorização do professor nunca será apenas uma questão “corporativa”: é questão de justiça. E é imperativo que as condições de trabalho, remuneração e reconhecimento melhorem — não depois, mas agora.

9. Conclusão

“Professores no Norte e no Sul: Um Abismo Global” não é apenas um título provocativo: é uma realidade incontornável. Se queremos uma educação que não reproduza desigualdades, precisamos reconhecer que o abismo docente entre Norte e Sul — e dentro de muitos países — está no cerne da injustiça educacional.
E mais do que isso: precisamos agir. Os professores merecem não apenas aplausos simbólicos, mas carreiras dignas, salários compatíveis, condições de trabalho adequadas e prestígio social. Ignorar isso é condenar futuras gerações à educação de segunda classe.
Que governos, sociedades, instituições internacionais e comunidades escolares abracem esse desafio com urgência. Porque valorizar o professor é valorizar o futuro — o nosso, coletivo, global.
Chega de abismo. É hora de equidade. É hora de dar ao professor o lugar que ele merece.


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