Em tempos em que o grito por justiça social se mistura com o sussurro de quem ainda acredita em transformação, emerge uma certeza: a união faz a força — sobretudo quando se trata de quem forma gerações, quem inspira sonhos e quem sustenta o futuro com giz, apagador e vontade inquebrantável. Este artigo dedica-se aos professores e professoras da rede pública, aos educadores universitários, aos técnicos, aos auxiliares, aos que se colocam em defesa da educação como bem público — e, ao fazer isso, encarnam a essência da resistência e da esperança.
Quando esses sujeitos se reúnem, marcham juntos, articulam pautas, organizam greves e promovem assembleias, estão afirmando que a educação não é mercadoria, não é instância de lucro, não é cenário periférico da política nacional — mas sim campo de batalha e de redenção para uma sociedade que ainda insiste em sonhar. E é exatamente sob esse prisma — da coletividade como força motriz — que traçaremos aqui uma análise crítica, empática e contundente da realidade dos professores no Brasil, voltada para as falhas políticas que persistem, para as demandas negligenciadas e para a urgência de uma ação coletiva transformadora.
1. A coletividade docente: tecido vivo de resistência
A história do sindicalismo docente e dos movimentos de professores no Brasil mostra que a luta individual — por melhores condições de trabalho, por reconhecimento salarial, por infraestrutura digna — encontra sentido pleno somente quando se articula na esfera coletiva. Um estudo publicado na revista Educação & Realidade traça como “o sindicalismo docente brasileiro tem suas raízes em antigos movimentos ao redor da construção de um Sistema Público de Ensino no país”. SciELO Lá, os autores apontam como as tensões entre interesses corporativos e a qualidade da educação pública se articulam em sindicatos, assembleias, greves — espaços onde professores se organizam, constroem redes, constroem voz.
Quando professores se unem, passam de interlocutores solitários no quadro-negro a protagonistas de uma narrativa ampla, que interroga governos, desafia cortes, exige mais do orçamento público. Em um país no qual medidas de austeridade, terceirização e desvalorização da profissão docente têm sido persistentes, a cena da coletividade — assembleias lotadas, greves organizadas, redes sociais mobilizadas — transforma-se em barreira contra o retrocesso. Findo o isolamento profissional, nasce a força que incomoda quem vê a escola apenas como linha de gasto.
Por exemplo, o documento “Study on Trends in Freedom of Association and Collective Bargaining in the Education Sector Since the Financial Crisis” registra que no Brasil a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) congrega mais de 1 milhão de filiados — evidência de que há musculatura formal para uma ação coletiva significativa. download.ei-ie.org
2. Por que a união docente assusta o poder político e econômico
Há diversas razões pelas quais a mobilização coletiva da categoria docente se torna uma ameaça aos modelos vigentes. Em primeiro lugar: porque questiona a lógica da “gestão eficiente” a qualquer custo — ou seja, aquela que reduz a escola a mercadoria, ao corte de custos, ao contrato temporário e ao professor descartável. Quando os professores se articulam, defendem justamente o contrário: a estabilidade profissional, o plano de carreira, o investimento público continuado, o protagonismo docente.
Em segundo lugar: porque a união corporativa chamada “sindicalismo docente” — conforme o estudo citado — se encontra no cruzamento entre reivindicações trabalhistas e políticas educacionais. SciELO Ou seja: não é apenas “queremos mais salário”, mas “queremos melhor educação, para todos, com qualidade, com equidade”. Essa amplitude de escopo incomoda quem prefere a educação como instrumento neutro, sem política, sem conflito, sem exigência de mudança estrutural.
Em terceiro lugar: porque a união revela uma contradição íntima da democracia brasileira — afinal, se o Estado se organiza para garantir educação pública, gratuita e de qualidade, por que os professores precisam fazer greve para que o mínimo se cumpra? A resposta está na política que sistematicamente retira prioridade da educação, que trata professores como meros prestadores de serviço efêmero, que terceiriza, que ignora a voz docente. E quando a classe se une, ela reivindica não apenas direitos, mas verdadeiro respeito institucional.
3. A esperança que brota da ação conjunta
Quando professores se juntam — em redes, sindicatos, fóruns de discussão, marchas — não estão apenas reclamando. Estão oferecendo à sociedade uma esperança concreta: a de que outra escola é possível, de que outro país é possível. A esperança da coletividade docente é a semente de transformação social: ela aponta que, se a categoria educadora se mobiliza, se reconhece enquanto ator político-social, então os estudantes, as famílias, as comunidades também podem ser sujeitos dessa mudança.
Essa esperança também tem raízes históricas: cada greve vitoriosa, cada plano de carreira conquistado, cada escola pública bem equipada, é uma prova de que a união faz diferença. Quando a letra escrita no papel vira ação nas ruas, nas assembleias, nas redes, o professor deixa de ser silente e se torna agente. E essa agência renova o contrato social: mostrar que educação não é “coisa de governo”, mas tarefa da sociedade reunida.
4. Os políticos que viram as costas — e por que a coletividade exige que se enxerguem
Que fique claro: esta crítica não é dirigida aos professores — é dirigida aos políticos, aos gestores públicos, aos que estruturam a política de educação no Brasil e sistematicamente a subjugam. Perguntamos: por que tantos anos de promessas de valorização docente e tão poucos resultados materiais concretos? Por que tantos cortes orçamentários, tantas terceirizações, tantos contratos precários, tantas salas de aula superlotadas?
Os dados são múltiplos: desde sindicatos de professores universitários que entraram em greve por reajustes salariais e melhores condições de trabalho. Prensa Latina Desde estudos que explicam que o sindicalismo docente no país sempre se movimentou em função das condições de oferta da educação pública. SciELO E desde as estatísticas que mostram que somente 14% das escolas públicas tinham sindicatos estudantis — sintoma de quanto a engrenagem da participação democrática está adormecida. EBC
Os políticos que ignoram a coletividade docente estão ignorando um dos pilares da democracia: a educação pública como instrumento de equidade. Tratam o professor como se fosse custo, não como investimento; tratam a greve como “problema” e não como sintoma de falha sistêmica. E nesse vácuo, a união dos professores surge como resposta política – não de viés partidário, mas de viés social.
Se os professores se unem e exigem melhor educação, eles não estão sendo “radicais”: estão sendo essenciais. Se os professores marcham, organizam-se, reivindicam — estão exercendo cidadania. Se os professores cobraram, negociaram, fizeram greve — é porque o pacto de valorização da educação pública foi quebrado. E a coletividade emerge como voz que diz: “Nós estamos aqui. Ou vocês cumprem ou nós persistiremos”.
5. Construindo a coletividade: estratégias, desafios e vitórias
Estratégias:
- Fortalecer sindicatos e associações docentes como espaços de ação concreta.
- Promover redes de colaboração entre professores de diferentes estados e níveis de ensino — compartilhar experiências, dificuldades, vitórias.
- Integrar o movimento docente com as comunidades escolares, com os estudantes, com os pais — para que não seja categoria fechada, mas parte de um projeto educativo coletivo.
- Usar as redes sociais, a mídia e a opinião pública para dar visibilidade à mobilização docente — mostrar que o professor unido não é “privilegiado”, mas agente de justiça social.
- Desenvolver propostas claras e exequíveis — plano de carreira, formação contínua, infraestrutura, valorização — e apresentar ao poder público como exigência.
Desafios:
- A fragmentação da categoria: professores de redes estaduais, municipais, federais; professores de educação básica, fundamental, média e superior — há heterogeneidades que dificultam uma pauta única.
- A precarização crescente: contratos temporários, substituições imediatas, sobrecarga de trabalho — que minam a capacidade de mobilização sustentada.
- A narrativa dominante que pinta os professores como “privilegiados” ou “responsáveis por greves” — e não como profissionais que lutam por condições dignas de ensinar.
- A falta de visibilidade real das vitórias — muitas conquistas acabam sendo tímidas, fragmentadas, pouco divulgadas, o que gera desânimo.
Algumas vitórias:
- Em diversas redes estaduais já ocorreram greves que garantiram reajustes salariais ou planos de carreira.
- A existência de estudos amplos sobre o sindicalismo docente e sua articulação com a política educacional — o que fortalece o discurso coletivo e técnico.
- A mobilização internacional, como no Ministério da Educação (MEC) e no G20 Education Working Group, que tratou da valorização dos educadores como tema global. Serviços e Informações do Brasil
6. Um chamado à solidariedade — para professores, para sociedade, para o futuro
Se você é professor, neste momento, saiba: sua voz, quando unida à de tantos outros, torna-se estratégica, torna-se impactante, torna-se irreversível. Se você ainda se sente isolado, saiba também: existe força na união. Fortaleça sua representação, participe da mobilização, articule-se, pois a mudança não acontecerá no silêncio.
Se você é estudante, pai, mãe ou membro de comunidade escolar: reconheça que o professor unido pela coletividade trabalha para que você tenha educação digna, para que a escola pública não seja depósito de sucateamento, para que a democracia tenha raiz. Apoie a mobilização docente, entenda-a não como obstáculo, mas como atalho para uma sociedade melhor.
Se você é político, gestor público ou formador de opinião: entenda que a categoria docente unida não está pedindo favores — ela está exigindo direito. Exigindo que a educação pública seja levada a sério. Exigindo que o futuro do país não fique nas mãos de improvisados, de cortes aleatórios, de discursos vazios. Quando professores se unem, o pacto com a cidadania se renova. Quem ignora esse pacto, está abrindo mão de seu papel na construção de um Brasil justo.
Conclusão
Quando professores se unem, a esperança adquire corpo. E quando a coletividade docente se manifesta, a resistência se torna visível. Neste título 63, celebramos essa união — mas não como símbolo necessariamente otimista ou ingénuo: celebramos porque ela perturba, porque ela exige, porque ela transforma.
A educação pública brasileira não será recuperada por discursos vazios ou promessas vazias. Ela será restaurada — ou melhor — reimaginada pela força coletiva dos que ensinam, dos que organizam-se, dos que resistem e esperam. A cada marcha, a cada greve, a cada assembleia, eles estão dizendo: não aceitamos mais a negligência. E juntos, apontam para um horizonte — não distante — em que a educação seja direito, seja dignidade, seja possibilidade concreta para todos.
Referências externas verificadas:
- Sindicalismo docente e política educacional: tensões e composições de interesses corporativos e qualidade da educação – estudos sobre sindicalismo docente no Brasil.
- Study on Trends in Freedom of Association and Collective Bargaining in the Education Sector Since the Financial Crisis – relatório sobre negociação coletiva e docentes.
- Brazilian university teachers go on strike over salary adjustments – mobilização recente de professores universitários.
- G20 discusses training and appreciation of educators – atuação global e nacional sobre valorização docente.
- EBC – dado sobre participação estudantil, sintoma de mobilização coletiva mais ampla.